Foi meio de surpresa, mas no final de Junho, fomos presenteados com o mais novo disco de JAY-Z, 4:44, nas ruas e serviços de streaming de todo o mundo - na verdade, apenas o TIDAL. O décimo terceiro disco do rapper do Brooklyn chegou com extrema apreensão do público, que não ouvia um material inédito dele desde 2013, quando lançou Magna Carta Holy Grail. A apreensão também era causada devido o disco da sua esposa, Beyoncé, intitulado LEMONADE em que ela falava de uma suposta traição do rapper. Todos esperavam uma resposta de JAY-Z, e a tiveram.

O que foi consenso entre todos foi o seguinte: 4:44 é o mais maduro disco de JAY-Z. Suas rimas demonstraram um entendimento muito maior da vida do que o costume. Durante as dez faixas, Jigga reflete sobre assuntos como: racismo nos Estados Unidos, situação financeira, seu relacionamento com esposa e filha. Há espaço para pequenos jabs aos rappers atuais do cenário e declarações rápidas sobre casos como sua recente rivalidade com Kanye West, seu antigo pupilo.

4:44 é inteiramente produzido por No I.D., que usa e abusa de clássicos samples para trazer um cenário bastante nostálgico e série ao projeto. The Alan Parsons Project, The Isley Brothers, Donny Hathaway, Stevie Wonder e principalmente Nina Simone, são alguns dos artistas usados no disco.

UMA VOZ ÚNICA

"Four Women" da cantora norte-americana Nina Simone foi uma das músicas usadas como sample por No I.D., que a utilizou na ótima "The Story of O.J.". Em outro momento, o sample da música "Baltimore" da cantora é usada em "Caught Their Eyes".

Nessa música, JAY-Z reflete sobre a voz distorcida da lendária cantora sobre o racismo e suas finanças. O vídeo é um dos grandes trunfos. Nós do Raplogia fizemos uma matéria especial sobre o visual. 

TIDAL + SPRINT

O disco foi distribuído em uma parceria entre o serviço de streaming do rapper, o TIDAL, e a empresa de telecomunicações Sprint. Para o anúncio do projeto, foram chamados os premiados atores Mahershala Ali, Lupita Nyong'o e Danny Glover. 

 

#1

O disco alcançou o topo da Billboard 200 e em menos de uma semana ganhou um certificado de platina referente à um milhão de downloads pelo site enquanto esteve gratuito. 

 

 

You almost went Eric Benét!

Logo na primeira faixa o rapper faz referência a traição em seu relacionamento. Eric Benét é um cantor de R&B, conhecido pelo seu relacionamento com a musa do cinema, Halle Berry, a qual ele traiu. 

 

SORRIA! 

No I.D. não poderia escolher alguém melhor para samplear na faixa "Smile" do que um cara com um dos sorrisos mais contagiantes da música, Stevie Wonder

Como base da faixa em que JAY-Z revela que sua mãe é homossexual e fala de memórias ruins se tornando boas através dos tempos. Foi um desafio para o produtor conseguir a aprovação da lenda da música para usar o sample, Stevie Wonder, raramente deixa suas músicas serem usadas nos dias de hoje. 

4:44 é um disco que você não imaginaria ouvir de JAY-Z dez anos atrás. O rapper evoluiu como ser humano e como artista. Desde Magna Carta Holy Grail, disco que considero abaixo da média do rapper.

Ao falar da sua mãe em “Smile”, ele quebra alguns paradigmas que ainda fazem parte da cena hip-hop. Outro ponto importantíssimo é o arrependimento de Jigga na faixa título do projeto, “4:44”. Não trata-se apenas de uma faixa em que o rapper mostra-se triste por seus erros com Beyoncé, mas sim com todas as mulheres. Jay foi criticado por anos pela faixa “Big Pimpin’” de 1999, que traz conteúdo extremamente misógino. Recentemente, ele trocou o seu verso na faixa, mas evita performar ela em shows. "Algumas letras são realmente profundas quando você analisa o que está escrito. Mas não Big Pimpin'. Essa é a exceção. Eu não acredito que disse aquilo e continuava falando. Que tipo de animal iria dizer algo como aquilo? Lendo ela é bastante duro," disse o rapper em entrevista. Ele tinha 30 anos na época, não era um garoto, mas se arrependeu dos seus erros e cresceu.

Frequentes em discos do rapper, a crítica ao cenário atual é presente. Em “Moonlight”, o rapper chega a imitar as adlibs de artistas atuais - o popular skrrt. Sobre um sample da clássica “Fu Gee La” do grupo The Fugees, o rapper faz uma referência ao ganhador do Oscar de Melhor Filme, Moonlight, que fala sobre a importância de abraçar as suas identidades, sejam raciais ou sexuais. “Vocês estão presos em La La Land, mesmo que ganharmos, nós perderemos,” rima o rapper em uma crítica à situação atual da cultura. Em “Family Feud”, além de referências ao seu relacionamento com Beyoncé, o rapper também tem uma mensagem clara: os artistas devem deixar diferenças de lado e se unir pela cultura.

Ao tocar em assuntos delicados de sua vida e mostrar-se uma pessoa normal, com erros e acertos, JAY-Z desmistifica um pouco a sua imagem de ser alguém perfeito no que faz. Seja o deslize conjugal, ou oportunidades financeiras lucrativas perdidas, o rapper é alguém como nós - mas com muito mais dinheiro. Essa dose de humanidade por Jigga, nos passando ser alguém 100% blindado de emoções, nos faz gostar cada vez mais dele, dessa vez, de uma maneira até mais íntima.

Musicalmente, 4:44 é extremamente relevante. Em um cenário que 80% dos instrumentais soam idênticos, produções bem trabalhadas por alguém com o nome de No I.D. nos animam. Ele não faz um trabalho inovador, mas é agradável para os ouvidos e casa exatamente com a voz de JAY-Z.

No décimo terceiro disco de JAY-Z, o rapper se mostra mais humano e novamente agrada os fãs. Seria o último disco de JAY-Z? Nos resta esperar pra ver - de preferência, apreciando 4:44.

Jhonatan Rodrigues

Fundador do Raplogia em 2011, Joe é fã incondicional de Nas, futebol, cinema e séries de TV. Se apaixonou pelo hip-hop graças aos filmes sobre a cultura e escreve há 7 anos sobre o assunto na internet. Já passou pelo Rapevolusom e foi um dos moderadores do Genius Brasil.