Death Note, Netflix e o racismo cultura pop

Nessa sexta-feira a Netflix lança sua nova produção original: Death Note; um mangá japonês que teve lançamento em 2003 e obteve sucesso mundial. A obra ainda foi adaptada para a TV, assim surgindo a série animada de 37 episódios – que inclusive está no catálogo da Netflix –, tendo talvez até mais sucesso que o mangá.

Mas o que um mangá/anime japonês tem a ver com racismo e preconceito no cinema? Bem, pra entender isso, primeiro precisamos entender como é a trama de Death Note (veja abaixo o trailer do anime):

A saga tem como personagem principal Light Yagami, um jovem estudante superdotado, típico padrão estético de perfeição (cabelo liso, porte de atleta, pele branca, etc…). Já o antagonista, L, é uma figura peculiar, um jovem de pele pálida, postura curva e muito introvertido. Para um mangá/anime, os personagens cumprem com as características físicas típicas de orientais; tanto no modelo “perfeiro”, como no modelo nem tão perfeito.

Quando a Netflix traz uma obra oriental para seu catálogo de produções originais, é obvio que vai querer dar uma roupagem ocidental para os personagens e a trama em si. E é aí que vemos o racismo impregnado não só na cultura pop, mas na sociedade como um todo. Na nova roupagem, o personagem L é interpretado pelo ator Keith Stanfield – que teve destaque na série Atlanta, e recentemente participou do clipe do Jay-Z, “Moonlight” –, e o fato dele ser negro incomodou muita gente. E sim, estamos em 2017 meus amigos!

Em vídeo publicado logo após o lançamento do trailer do filme, Peter Jordan, do canal de youtube Ei Nerd deu sua opinião sobre a escolha dos atores. Veja o vídeo abaixo:

No vídeo, o cara elogia a escolha do ator Nat Wolff para interpretar o personagem Light, dizendo que ele tem as mesmas características físicas que o personagem do anime/mangá. Mas na hora de falar do Keith Stanfield para interpretar o personagem L, ele começou a soltar pérolas do tipo: “a geração mimi já vai me atacar nos comentários“, “isso não tem a ver com racismo“. Sim cara, isso é racismo! Quando você fala que “a cota racial tem que ser preenchida para calar a boca dos mimizentos” você tá sendo racista. E pra não ser apenas racista, ele resolveu ser um pouquinho machista também, dizendo que ninguém assistiria um filme do Thor sendo interpretado por uma mulher.

Mas e aí, por que um negro não pode atuar numa adaptação de uma obra asiática? Talvez seja o fato das pessoas estarem acostumadas a sempre ver brancos fazendo os papéis principais, tanto nos filmes, como na TV em geral; e relacionam a figura do negro sempre à personagens secundários – aquele típico parceiro do protagonista que sempre acaba morto, ou o criminoso que persegue a mocinha.

death note

Quando o diretor chama um ator negro para fazer um papel tão importante, isso é julgado como forçado por algumas pessoas, ou até mesmo uma estratégia para a famigerada “geração mimizenta” não criticar a obra por ser “branca demais”. A galera que tá criticando tem que entender que, se o Keith Stanfield foi escolhido para interpretar o personagem, é porque ele é um ator foda, e ponto.

Vivemos em tempos de extremismo (o que aconteceu recentemente em Charlottesville é um exemplo disso). Você pode até não querer ser racista, mas quando fala que um ator negro não é a melhor escolha para interpretar um personagem teoricamente branco, você está sendo racista sim!

Ao julgar um filme inteiro sem sequer assisti-lo só por ter um ator negro no elenco, Peter Jordan e muitos outros que criticaram a presença de Keith Stanfield no filme, somente reforçam um preconceito enraizado há séculos. E não! Isso não é “mimimi”, é só uma crítica correta à uma crítica totalmente sem noção. Esse pessoal têm que tratar a escolha de um elenco para um filme conforme o talento dos atores, e não por seu gênero.

Ao questionar se alguém iria num filme do Thor sendo interpretado por uma mulher, Peter Jordan meio que esquece de Mulher Maravilha, filme que é um sucesso de crítica e público; tendo sua bilheteria ultrapassando a casa dos U$ 800 milhões. E além do sucesso, o filme valoriza o poder da mulher (mesmo dando destaque um tanto que exagerado para o coadjuvante do sexo masculino trama).

Resumindo, não julgue o filme por um trailer; e principalmente: não seja babaca! O racismo e os outros tantos preconceitos estão presentes em pleno século XXI, e declarações como as de Peter Jordan somente reforçam a necessidade de se discutir e repudiar qualquer tipo de preconceito. Não podemos fingir que isso é normal, nem aceitar essa postura. Esperamos que com o lançamento do filme os críticos que reclamaram da escolha de Keith Stanfield para interpretar o pelo menos voltem atrás e percebam a cagada que fizeram; ou pelo menos não repitam esse tipo de declaração para um grande público que os acompanha.

Vou deixar abaixo um vídeo de outra análise, bem mais justa, feita por um youtuber General Nerd, que tratou a escolha de uma forma bem mais justa:

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