Decodificando com Genius: A influência de Kendrick Lamar no rap nacional

Em pouco tempo de carreira, Kendrick Lamar não é apenas um dos grandes nomes da atualidade na cena americana no rap, sua influência já alcança o nosso país. Em uma breve pesquisa pelo Genius, podemos verificar que desde 2014 o MC de Compton não é apenas uma unanimidade dos fãs de rap americano ou nacional, mas também dos artistas brasileiros. Kung Fu Kenny, a alcunha adotado no seu último álbum, já foi citada ou teve sua obra citada inúmeras vezes. Este ano, sozinho já são 9 faixas ou clipes inspiradas na obra do americano.

Tudo isso não ocorre de uma hora pra outra. Do lançamento do seu primeiro álbum de estúdio good kid m.A.A.d city (2012), considerado por muitos um clássico moderno, foram sucessos atrás de sucessos. Tivemos o aclamado To Pimp a Butterfly (2015), a surpresa untitled unmastered. (2016) e o explosivo DAMN. (2017). Isso que nem comentamos das inúmeras participações e incrível trabalho visual, que também são fonte de inspiração aqui na cena nacional.

Nosso objetivo com esse Decodificando com Genius é mostrar um pouco de como K.dot tem aparecido para nós através das obras de artistas nacionais.

Uma paixão declarada por “Bitch Don’t Kill My Vibe”

O single que foi o carro chefe do primeiro álbum de estúdio de Kendrick Lamar é a faixa mais citada no rap nacional, das 18 registradas neste artigo, 5 são para esta faixa. As referências, no entanto, se limitam a um jogo de palavras com o título da faixa que pode ser traduzido como “Porra, não corta a minha onda”, ou na versão “limpa” da faixa como “Por favor, não corta minha onda”. Os MCs que citaram a faixa foram: Dalarima em “Sin City” (2014), Nego E em “Giro” (2014) e “Ela é Favela (Remix)” (2014),  Ber em “Rio California Dreams” (2015) e Febem em “Alexis Texas” (2015).

Deixa elas fazerem a festa
E os playboy assinarem o cheque
Na real o mercado te testa
Isso aqui virou jogo de chefe
“Please, bitch, don’t kill my vibe”
Ouve meu som tocar no baile
E os menor rimando em cima
Brincando de fazer freestyle – Ber em Rio California Dreams (2015)

Em geral as linhas em que esta faixa aparece prosseguem com essa ideia, o que é um tanto literal e foge da obra original. Embora seja um single com um formato para o público do mainstream, a faixa tem também algumas das linhas mais memoráveis do MC como:  “Look inside of my soul and you can find gold and maybe get rich/Look inside of your soul and you can find out it never exist” (Olhe dentro da minha alma e você poderá encontrar ouro e talvez ficar rico/Olhe dentro de minha alma e você pode descobrir que nunca existiu). Uma das referências utilizadas é um pouco mais profunda, mas vamos deixar para falar a seguir.

O respeito de Nego E pelo MC de Compton

Se você não ouviu Oceano (2016) ou conhece o trabalho de Nego E, você está perdendo. Talvez você se identifique ao saber que Kendrick provavelmente é um dos MCs favoritos do paulista. Sozinho, Nego E faz menção ao americano em 4 faixas. As duas primeiras em 2014, são referências à faixa “Bitch Don’t Kill My Vibe”, sendo uma delas um pouco melhor que as demais, pois no verso ele narra uma curta história de amor, daquelas que duram uma noite. Desta forma, a frase que batiza o título da faixa do Lamar ganha um pouco mais de profundidade, ainda mais acompanhada dos grupos Revelação e A Tribe Callled Quest:

Se sabe chegar, fica, zica, minha família
Risada, drink e fumaça essa é nossa trilha
Muda a frequência, de Revelação à A Tribe
Paciência, não rouba a brisa: Bitch Don’t Kill My Vibe – Nego E em Giro (2014)

O MC da Artefato coloca Kendrick entre os exemplos de negros que poderiam estar mortos, ou melhor, que morrem todos os dias no genocídio da população negra, que é tanto consequência da sociedade que vivemos como também alimenta este próprio sistema:

Geração Mucilon potencial pra Mussolini ser
Na deprê morre vários Passapusso ou Liniker
Matam quantos Dalasam? Nascem quantos Beira-Mar?
Morrem quantos Nego E, Emicida ou Lamar? – Nego E em “Melhor de Mim (Viver)” (2016)

A última referência ao Kendrick feita pelo paulista aparece em “Multi” (2017), seu verso livre lançado pela RND – o qual originalmente foi lançado em cima da produção de “That Part” do Schoolboy Q. Nesta linhas o MC compara seu último álbum Oceano (2016) as Belas Artes ou “aquela parte” da música que você não consegue parar de repetir, como o verso do Kendrick Lamar em “That Part (Remix)”:

Meu disco é um filme: Belas Artes
Chamar o Lamar: That Part – Nego E em “Multi” (2017)

Tretas

Mesmo evitando polêmicas nas redes sociais e entrevistas, no que diz respeito a tretas, o MC de Compton é conhecido por ser assassino nas linhas. Um de seus versos mais polêmicos e para muitos o que alavancou sua carreira, “Control” (2013) reverbera até hoje. Nesta faixa, Kendrick cita alguns dos nomes mais importante da época, dentre eles J Cole, Drake e Tyler The Creator, sem contar que se intitula Rei de Nova York, uma afronta tendo em vista que é um MC da costa Oeste. A referência a faixa vem em uma faixa bastante polêmica aqui no Brasil e talvez uma das mais importantes dos últimos anos, “Sulicídio” (2016) no verso do Baco. O pernambucano vai mais além, reafirmando que suas linhas não é apenas uma força de expressão:

Exu do Blues não é Kendrick, “Control”<br> Assumo o controle do seu rap remoto<br> Vim pra plantar a desgraça, não pra tirar foto<br> Meu rap é pipoca, num é bloco
― Baco Exu do Blues (Ft. Diomedes Chinaski) – Sulicídio

Usando a fama de Kendrick que responde apenas nas músicas e não nas redes sociais, Coruja BC1 compara sua escrita a do MC americano enquanto que faz também uma comparação aos outros rappers ao Meek Mill, que ficou conhecido pela boca aberta nas redes após os ataques de Drake, em “Passando a Limpo”.

Auto afirmo nas linha, hã
Kendrick Brasil
Enquanto os verme vão chorar nas redes igual Meek Mill – Coruja BC1 em “Passando a Limpo” (2016)

De To Pimp a Butterfly ao DAMN., influência além da música

Embora para muitos fãs good kid m.A.A.d city ainda seja o melhor álbum do americano, To Pimp A Butterfly (2015) colocou o artista entre os maiores músicos da atualidade, sendo criticamente o melhor álbum do MC, e DAMN. (2017) reforçou essa imagem ainda mais, mostrando que o MC continuaria com sua postura arrojada sem se manter a uma fórmula ou se limitar. Não é a toa que estes álbuns rapidamente já são usados como referência na obra de outros artistas, TPAB aparece em 3 faixas e DAMN. em 3.

Começando com o álbum altamente influenciado por jazz, as referências encontradas exploram justamente esta sonoridade e o single mais popular deste álbum “Alright”. A referência ao single vem de forma direta com a faixa “Ouro Raro” do Haikaiss, na qual Spinardi compara seu estilo de vida com o Hip-Hop à algo mais fundamental, sua dedicação ao gênero, e como remix feito pelo Diomedes Chinaski.

Finito momento como nos frames do vento
Só não confunda ideologia com meu estilo de life
Ao som de Kendrick Lamar, Alright
Pulso sem bright – Spinardi em “Ouro Raro” (2017)

A terceira referência ao TPAB é uma autocrítica do Rashid na faixa “Primeira Diss”, onde o MC paulista faz uma avaliação de sua discografia e escancara uma das maiores críticas ao seu primeiro álbum A Caminho da Luz (2016), o fato do mesmo ser altamente influenciado por jazz, como o álbum do Lamar.

Os outro trampo é lixo, e nóiz entende que<br> Cê pois uns Jazz no álbum pra imitar o Kendrick
― Rashid – Primeira Diss

Na transição entre os dois álbuns temos untitled unmastered. (2016), um disco composto por uma coletânea de sons produzidos entre seu primeiro e segundo álbum de estúdio. Mesmo sendo faixas “cruas”, sem a devida atenção e qualidade que a TDE tem fornecido aos  fãs o mesmo ainda conseguiu primeiro lugar na Billboard. Da mesma forma, este projeto do MC de Compton não ficaria de fora das referências nacionais. Quem foi responsável por usar o álbum em suas letras foi Well, MC de Belo Horizonte em ascensão, na sua recente faixa “Muito Bem Feito”, o qual ele mesmo explica lá no Genius:

E mim não conversar com esse fakes, mano<br> Tipo Schoolboy Q<br> Bob liga la na TDE (ok)<br> Avisa que o Brasil tem um novo rei
― Well MC (Ft. Djonga) – Muito Bem Feito

DAMN., embora lançado recentemente, alguns MCs nacionais já utilizam essa obra do americano em suas letras. O estrondoso single “Humble” aparece na faixa “Grimme” da dupla do Costa Gold. Porém, é o DV Tribo que faz uma dupla referência, Djonga interpola um trecho de “Loyalty”, suando o significado literal da palavra e seu refrão, e Oreia aparece numa versão da famosa capa do álbum.

Oreia no clipe de Finanças faz releitura da capa de DAMN.

Dividindo o que eu ganho com os mano
Royalty Royalty Royalty
Seja fiel a gangue
Loyalty Loyalty Loyalty – Djonga em “Finanças” (2017)

A referência visual não fica só com DAMN., a capa de good kid também serviu de referência para diversas obras atuais aqui não registradas, mas além de Oreia em “Finanças”, vale ressaltar a arte do remix de “Alright” de Chinaski.

Capas de good kid m.A.A.d city e do remix de “Alright” por Diomedes Chinaski

Há também uma referência indireta as estas obras quando Diomedes fala do patamar que Kendrick se encontra atualmente. Particularmente esta é uma das referências que eu mais gosto do MC, pois é realizada um pouco fora do contexto do que geralmente ocorre. Ela em “Sobre Nós”:

Sentimento grande, não dá pra evitar
Parece a bunda de Anitta e Pabllo Vittar (á)
O aprendiz aprendeu a te amar
E esse amor me pôs no nível Kendrick Lamar (rá) – Diomedes em “Sobre Nós” (2017)

A comparação é muito bem colocada, afinal, em um cenário que ainda existe muito machismo e preconceito, em uma faixa romântica temos a apreciação não apenas pela Anitta, mas também Pabllo Vittar, que fizeram sucesso juntos no hit do Major Lazer, a “Sua Cara”.

Outro que se compara ao MC amerciano é Febem em “Rosas”, música do PRATA EP. Esta comparação fica por conta da vida difícil que Compton e sua cidade, São Paulo.

Sabesp cortando a água
E no bolso 0 centavos
PM dizendo “eu vou te matar” e pôr uma arma feia do lado
Claro que não mata, mas te deixa abalado
Igual me vê de Alexander Wang, te deixa pasmo
Tirando a fome que nunca teve
Tá no ódio danado
Pobre diabo, pega a visão
Deus acaba de falar
Que se sua praia é Compton
Me chame de Febemdrick Lamar – Febem em “Rosas”

Conclusão: Kendrick Lamar já é uma religião

Brincadeiras a parte, dá para notar, sem muito esforço, que mesmo com uma carreira curta até o momento, Lamar já é uma força a ser reconhecida no rap mundial e, provavelmente, já tem seu nome marcado com uma discografia até então invejável. É muito provável que outros artistas nacionais tenham feito referência e não estão na lista, porém fica evidente que Kendrick Lamar já começa a influenciar, não apenas na música, mas também na expressão visual, com capas e videoclipes que servem de referência a muitos artistas, inclusive além do próprio rap.

Reforço o pedido para colocarem nos comentários outras faixas que façam referência ao Kendrick para completarmos lista e para que a galera conheça a música dos amantes do MC de Compton.

Fiquem com lista até o momento que vou procurar atualizar conforme os comentários e outros achados:

  • Delarima em “Sin City” (2014)
  • Nego E em “Giro” (2014)
  • Nego E em “Ela é Favela (Remix)” (2014)
  • Ber em Rio “California Dreams” (2015)
  • Febem em “Alexis Texas” (2015)
  • Rashid em “Primeira Diss” (2016)
  • Baco em “Sulicídio” (2016)
  • Nego E em “Melhor de Mim” (2016)
  • Coruja BC1 em “Passando a Limpo” (2016)
  • Nego em “Multi” (2017)
  • Diomedes Chinaski fez remix de “Alright” (2017)
  • Spinardi em “Ouro Raro” (2017)
  • Mulambo fez remix de “Backseat Freestyle” na faixa “Apelão” (2017)
  • Nog em “Grimme” (2017)
  • Diomedes Chinaski em “Sobre Nós” (2017)
  • Djonga e Oreia (no vídeo) em “Finanças” (2017)
  • Well em “Muito Bem Feito” (2017)
  • Febem em “Rosas” (2017)

OBS: Só foram usados no artigo faixas encontradas pela busca do site do Genius.

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