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Decodificando com Genius: Poetas no Topo 2

By 11 de fevereiro de 2017 5 Comments

Salve rapaziada, aqui é o Kleber, também conhecido como kray lá no Genius, fortalecendo ainda mais a parceria que temos com o Raplogia, rapaziada que contribuiu e contribui muito lá no site. Vamos inaugurar uma coluna “Decodificando com o Genius”, na qual irei usar as interpretações do Genius para falar um pouco sobre as faixas, projetos e artista que estão pegando fogo lá no site, buscar aquele momento que você liga os pontos e entende aquela linha. Sem mais delongas, iremos começar com a faixa que mais bombou esse ano no Genius: Poetas no Topo 2.

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Quem ainda não entendeu, a ideia do Poetas do Topo se baseia num cypher. Geralmente, um cypher é uma roda de rimas de freestyle onde um MC rima em seguida do outro, sem muito compromisso, simplesmente pelo fato de rimar. Aqui no Brasil, no último ano tem ocorrido vários cyphers, mas com uma pegada um pouco diferente: os MCs escrevem suas rimas ou rimam em freestyle sobre um tema, mas em estúdio para mais tarde gravar os videoclipes. Os cyphers tem ficado cada vez mais complexos e bem produzidos, principalmente com relação ao audiovisual. Então chegamos ao Poetas do Topo, cypher que roubou a cena no fim de 2016 – “BK seu merda”.

A produção das músicas e clipes é feita pela marca Pineapple Supply e a Brainstorm Stúdios. O mais interessante da proposta é que mesmo que haja uma interesse comercial por trás, a ideia principal é a de valorizar a parte lírica do rap e faz isso justamente juntando alguns dos MCs mais promissores dos últimos anos. Como o compromisso daqueles que estão ali é mostrar que são os melhores no quesito lírica, a maioria chega muito bem nas rimas e na entrega, isso porquê estão a vontade e fazem isso de uma forma descontraída.

Chegando finalmente na letra de Poetas 2 temos 9 MCs: Raffa Moreira, Orochi, FBC, Froid, Sain, Ducon, Coruja BC1 e Baco. Nenhum deles decepciona, basta checar os dados da página no Genius, foram cerca de 90 contribuidores envolvidos nas anotações e transcrição da letra em menos de uma semana, sendo que quase todos os versos estão completamente anotados. Há muitas linhas memoráveis, as entregas são excelentes e todos mandam bem, mas vamos destacar algumas coisas.

Referências e mais referências

Há inúmeras referências que mostram uma intertextualidade bastante complexa, ou seja, não basta entender apenas as linhas em si, é necessário compreender as referências, por isso o Genius aparece como opção ideal quando uma letra como essa é lançada. Vamos para alguns exemplos:

Roupas e jóias funcionam como sistema de cota
Agora os negros tem bolos de notas, e drogas, e armas
Por isso eu falo em metáforas, y’a-a-all
Não tem mais filosofia na escola

– Froid

Essa foi uma anotação que deu trabalho de elaborar, pois embora as linhas tenham uma conexão entre si, a relação é um tanto sutil. Froid compara o sistema de ensino, mais especificamente o sistema de cotas, ao próprio jogo do rap, onde a lifestyle em si funciona como uma forma de se inserir no mesmo. Além disso, as metáforas são uma característica dos MCs, algo que exige um certo senso crítico, que deveria ser obtido no ensino. Estas duas últimas ideias, apesar de fazerem parte da ideia geral no trecho, aparecem pela polêmica decisão de retirar a filosofia do campo de disciplinas obrigatórias do currículo escolar. Assim, é necessário uma alternativa, neste caso a música, para que a pessoa aprenda algo que deveria ser contemplado pelo ensino básico, da mesma forma que o sistema de cotas serve para compensar injustiças institucionalizadas na nossa sociedade.

Bloco7, as verdades que cê não quer ouvir
Mas fica MEC, os moleque veio pra se divertir

Falando nisso, traz mais duas dessa aí
Estilo Jackie Chan, Drunken Master, killing MCs

– Sain

O sucesso da Pirâmide Perdida e, consequentemente, do Bloco7, não pode ser ignorado, muito se deve inclusive as gírias que o grupo tem disseminado – MEC é “Cem” ao contrário, que significa tanto notas de cem quanto ficar tranquilo, afinal ter notas de cem significa ter uma condição financeira tranquila. Há quem diga que os MCs do Rio possuem uma lírica mais superficial, contudo os artistas da Pirâmide mostraram em 2016 que isso não é verdade – BK ganhou o título de álbum do ano em diversos sites, inclusive lá no Genius. Embora a ideia de muitas músicas do Sain e do coletivo sejam diferentes daquele rap consciente e evidente, há sim uma crítica social por trás de muitas de suas letras. Além diss, o coletivo também tem se envolvido em uma polêmica com Predella que usou as redes sociais para se gabar do seu sucesso financeiro – veja a anotação do trecho acima. Usando todo esse contexto, Sain completa o trecho se divertindo, pedindo bebida, mas faz isso com uma referência bem coloca ao clássico filme do Jackie Chan, mostrando que mesmo na curtição, ou por estar curtindo, ele tem o essencial para acabar com a carreira de alguns MCs.

Ano dos líricos, em vida entregamos rosa
Escute Amiri, ouça Drika Barbosa
Kamau é habeas corpus pra mente
Rincon, Bolt na corrida

– Coruja BC1

Coruja possui um dos versos mais comentados da faixa, recebeu elogios do Parteum e do Marechal que também são citados no verso. O trecho com mais referências é o que ele justifica o ano dos líricos, a apreciação pelos MCs com qualidade nas letras que são contemporâneos dessa geração. Amiri, Drik Barbosa, Kamau e Rincon Sapiência são alguns dos MCs mais afiados do jogo, porém muitas vezes não aparecem nas conversas sobre o rap, seja por serem subestimados ou por não serem tão ativos. O verso é um alerta: erramos em não valorizar ainda mais estes artistas.

Tretas?

Não podemos ignorar que há um clima estranho entre artistas do Poetas do Topo e o Damassaclan, principalmente pela parte do Baco, que abriu, ou melhor, arregaçou as portas da cena para outros artista fora do eixo RJ-SP com “Sulicídio” junto com Diomedes Chinaski na metade de 2016.

Eu já me aventurei com a morte como Billy & Mandy
Vocês ligam a cobrar pra Deus e reclamam que ele não atende
O público quer que eu faça o som que vende
Só pra me chamar de vendido

2017 é o ano lírico, cês tão fodido
Só falam de banca, meus pivete roubam um banco
Rap tava tipo Michael Jackson, doente e branco
Mas não deixamos, nós o curamos
Esses moleque quer ser rei só pra cagar no trono
Eu tô sem tempo, me perdoa Cronos
Vai se foder para lá, mas você já se fodeu
Eu tenho fé no seu verso como Nietzsche crê em Deus
Minha existência é heresia, Espírito Sant
Morri e voltei no terceiro dia, Malcolm Afrosamurai X
MCs correm de mim: RUN DMC, RUN DMC
Querem patrocínio da Supreme, eu da Skol
Querem ser Gengis Khan, mas cês só são mongol
Somos reencarnação de deuses, não temo o capeta
Cês tem dinheiro, eu tenho letra

– Baco

Baco pode negar o quanto quiser, mas o verso inteiro dele possui diversos ataques diretos e indiretos ao artistas do Damassa – veja as anotações em negrito. As linhas do Run DMC e a resposta ao Dalsin deixam tudo bem evidente, o verso foi um ataque/resposta ao Damassaclan, no qual Baco usou muito bem a ideia geral da valorização lírica do Poetas no Topo para dar um duplo sentido a todas as suas linhas, podendo inclusive negar que sejam ataques. Exu do Blues inclusive se aproveita da persona que inspira seu nome artístico e, como já disse em diversas entrevista, o MC se inspira na poesia de escárnio – basicamente uma sátira com duplo sentido para falar mal de alguém. Por fim, a própria ambiguidade esconde o fato destas linhas serem feitas apenas pelo exercício das palavras, sem intenção de atacar alguém.

Som de elevador? Não, de elevação
Versos originalidade e eles só versão

– FBC

Estas linhas que podem dar a entender que há uma ataque ao Febem que lançou um álbum chamado “Elevador”, porém o próprio FBC desmentiu a possível indireta nas redes sociais.

Meu MC favorito: não entope a napa
Seu MC favorito: com rima eu risquei do mapa

– Coruja BC1

Da mesma forma, Coruja poderia estar atacando Predella, assim como Baco fez em “Sulicídio”, mas ficamos apenas na especulação. Embora em Modo F*, lançado alguns dias depois, as indiretas ao MC do Costa Gold apareçam novamente.

Por que ninguém tem comentado os versos do Raffa, Ducon e Sain?

Logo quando o cypher saiu eu ouvi, minha reação inicial era que cada um que mandava seu verso superava o anterior. Passada a emoção inicial, logo vi que a maioria era equivalente, cada um do seu jeito. Obviamente tenho os meus favoritos, mas que segue um gosto particular. Não precisamos nos esforçar muita para ver que todos tem algo a contribuir para a ideia geral do projeto, quem aprecia umas rimas bem escritas e estregues consegue ver que todos os MCs tem pontos positivos. Contudo, me surpreendeu um pouco que principalmente Raffa, Ducon e Sain foram um pouco subestimados pelo público em geral. Destaco o início de cada verso para entendermos o porquê deles terem destoado dos demais.

Ano passado eu ouvia coisas do tipo: Raffa, para irmão
Esse ano eu vi o Froid postando meus vídeos no Instagram
Eu vim de baixo, mano, em Guarulhos tava andando de busão
Hoje eu vim pro Rio de Janeiro pela primeira vez de avião

– Raffa Moreira

Raffa usou o cypher para mostrar o motivo dele estar ali, ninguém pode negar que ele tem batalhado para conseguir o sucesso e sua ascensão tenha sido meteórica. Além disso, em termos de levada ele foi o MC que mais se destacou, afinal essa é uma de suas marcas.

“E se for pro jogo virar, que o jogo vire, e se
For pra fazer som pra chapar meu som que fez Alice
Viajar naquela onda pura e fugir da mesmice

Acreditar que existe cura pra minha maluquice
Eu não me contive em ouvir só merda e tanta babaquice
Pros péla depois dessa pedra, é pow, rest in peace

– Ducon

Assim como Sain, Ducon também usou seu verso para lançar algumas rimas da sua perspectiva pessoal, mostrar sua caminhada na cena. Ambos MCs, por não utilizarem muitas punchlines de efeito, acabaram passando um pouco despercebidos. Porém, como já destaquei anteriormente, Sain chegou como sempre, se divertindo nas rimas e fazendo o que faz de melhor, se gabando um pouco, o famoso braggadoccio. Já Ducon, um pouco mais pessoal, estabeleceu bem a ideia de loucura no início do verso, algo que ele retoma na conclusão, sem contar que em termos de rimas ele foi um dos mais técnico, se não o mais técnico.

Enfim…

Mesmo num clima descontraído Poetas no Topo, ambas as partes lançadas até o momento, cumpre com o papel de demonstrar a qualidade lírica e firmar estes MCs como alguns dos compositores a se observar nos próximos anos na cena nacional. Haveria muito mais para falar dessa faixa, fãs de rap estão enlouquecidos escolhendo seus favoritos, discutindo quem serão os próximos na parte 3 ou ainda decidindo se há treta ou não. Enfim, fiquem por dentro de tudo e mais um pouco lá na página da faixa do Genius. Em breve tem mais Decodificando com o Genius.

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