“Sou sincero nas minhas músicas”: Eloy Polemico fala sobre ‘Dovakiin’

Depois de muita espera, os fãs vão poder finalmente ouvir o álbum solo de estreia do MC paulista Eloy Polemico. Após A Procura da Batida Rancheira Vol. 1, lançado neste mês de setembro, projeto no qual o rapper chega junto com Tadeu Msour, DJ Tadela e Estranho pela Rancho Monte Gomer, o álbum Dovahkiin, que chega no fim do mês, já tem dois singles lançados oficialmente: a faixa “Jardim Suspenso”, lançada pelo RapBox, e “Vício”, que chegou acompanhada de uma belo videoclipe.

Em conversa com o Genius Brasil, realizamos uma entrevista para falar sobre este esperado disco e e um pouco mais.


Raplogia: Qual a inspiração para o título do álbum, Dovahkiin? Existe uma relação com o jogo Skyrim e por que esta referência para o álbum?

Eloy Polemico: Eu ouvia Parteum, pra caralho, e ele tinha um grupo chamado Mzuri Sana, e tinha uma música que se chamava “Dragão Mimado”. Neste som tem um refrão, no qual ele, na minha interpretação, faz uma alusão ao sistema, a uma força maior que impede a gente de progredir.

Levante se estiver sentado,
Mcees daqui pra frente tudo será mudado
Eu tô ligado. Uma coroa, um castelo encantado
Pro cavaleiro que vencer no verso livre o tal dragão mimado

Eu atribuo esse poder ao Dovahkiin, de forma resumida, no jogo Skyrim ele é um guerreiro com alma de dragão e ele tem que enfrentar um dragão que estão ressurgindo para tentar escravizar a humanidade. Assim, eu resolvi colocar o nome de Dovahkiin, fazendo uma alusão ao “Dragão Mimado”, ao guerreiro que combate o dragão, mas que ao mesmo tempo tem alma de dragão, aprende a falar a língua de dragão. É aquele lance de jogue o jogo, fale a língua deles, pra poder entender como eles funcionam, pra depois acabar com eles. Mais ou menos essa ideia do nome.

Raplogia: O que você pode dizer sobre o álbum de forma geral?

Eloy Polemico: As músicas se conversam, são as músicas mais maduras que eu consegui fazer até 2016, amadurecendo elas até o fim deste ano de 2016. São músicas antigas já, porque esse disco era pra ter saído em 2015 e se ele tivesse saído naquele ano talvez não saísse com a mesma qualidade. Mas foi bom, eu tive um problema pra lançar esse disco, por isso que ele demorou. Porém, o resultado tá bacana, tá bonito, tá sincero.

Em questão das produções, das 13 faixas, 2 eu não produzi – uma é do Sala70 e outra é do 2Pe.

Raplogia: Quem fez e qual a ideia da capa?

Eloy Polemico: Com essa ideia [do nome Dovahkiin], eu virei pro Igor Furqan, um parceiro meu que trampa comigo e é responsável pelas artes, e falei assim: Igão, preciso de uma arte que envolva essas ideias. Expliquei pra ele as ideias e ele desenvolveu essa arte, que tem muito haver com o jogo, com o que é a minha ideia e com que é o disco. A partir daí, o Erick Alves, que é outro parceiro meu e também faz parte da direção de arte dos meus trabalhos, desenvolveu a tipografia com base nas runas nórdicas. Ficou legal o letreiro “Polemico” e “Dovahkiin” da capa, vermelhão destacado, ficou bem bonito, gostei pra caramba do resultado da junção.

Capa criada por Igor Furqan e Erick Alves

Raplogia: Qual a expectativa para o lançamento deste primeiro disco?

Eloy Polemico: Eu tô me sentindo pressionado, na real. Eu não queria me sentir assim. Eu queria que o lançamento do disco fosse algo leve, porque era o primeiro impacto, era pra ser algo despercebido, não era pra fazer rebuliço algum. Eu gosto de chegar na manha, no sapatinho, devagar ali, fazendo o meu. Mas eu estar me sentindo pressionado é bom, me põe a prova, gosto de me sentir desafiado ao mesmo tempo. E eu estou confiante, porque eu sou sincero nas minhas músicas e eu acho que vai bater pra quem gosta do meu som, não vai mudar tanto assim não.

Raplogia: Quais as influências dentro do próprio rap, nacional e internacional, e outros gêneros neste trabalho?

Eloy Polemico: Eu posso dizer, que ultimamente, as minhas influências dentro do cenário nacional são os caras que correm comigo, tá ligado? O Estranho, o Dro, Tadeu Msour, DJ Tadela, EL Mandarim, meus manos do MORLOCKZ, DJ Batata, Bruna Muniz, pessoal da batalha Quarta Dimensão, vários caras aqui da Zona Norte. Fora os parceirão que cola aqui também, o Emedeze6, Nego Max, niLL do SoundFoodGang, pessoal do ALMA. Mas quem eu ando ouvindo de verdade é o Anderson Paak. Fiquei viciado, esse cara é demais, absurdo. E umas minas, uma tal de Georgia e uma outra que vira e mexe eu ouço Kai, o Flaco produziu o EP dela chamado Quattro. No nacional, ainda, eu tenho curtido bastante o pessoal do Qua$iMorto, eles tem soltado uns sons que me agradam pra caralho, uns boombap “nervoso”. davzera tem me agradado muito, gente fina. E quem eu gosto, pessoalmente, niLL, que eu já havia comentado. Enfim, pessoal novo que tá vindo numa safra legal.

Raplogia: Qual a faixa que você mais gostou de produzir ou que tem um carinho especial deste álbum ou se tivesse que escolher uma música para representar o álbum como todo qual seria?

Eloy Polemico: Todas elas eu gosto muito, todas elas são muito importantes por álbum, tá ligado? Elas se completam demais. É difícil escolher uma só. Eu vou dizer 3 faixas que são a cara do álbum. A primeira faixa que tem nome de “Deixai aqui toda Esperança”, que é o que está escrito na porta do inferno quando Dante Alighieri chega – Deixai aqui toda esperança, vós que entrais – esse é nome da primeira música. Ela é muito importante para dar uma cara pro disco. A segunda música que eu gostei pra caralho de produzir e que tem um significado muito bacana pra mim é a música “Oh Nega”, que eu sampleei o Martinho da Vila e é uma música bastante sincera, divertida, eu sempre ouço e considero que ela dá um equilíbrio pro disco. E a outra música que eu gosto muito é “Morfeu”, foi a música que iniciou o projeto, a primeira música do disco, a faixa número 8. A primeira música que eu falei: essa vai pro meu disco. E foi a que eu mais gostei de produzir, porque envolveram alguns amigos que participam da faixa, o Estranho, o Romulo Boca e o Surgem. Eu falo sobre a ideia: “Morfeu lhe desejou bons sonhos/Durma bem, durma bem, durma bem”. Que resumidamente tudo é uma questão de escolha. Eu falo bastante sobre isso, estas dualidades. São essas três faixas que eu mais curti.

Raplogia: Tem alguma faixa que você gostaria que se tornasse clipe? Por que? Qual seria a ideia?

Eloy Polemico: Eu gostaria de fazer todas as músicas virarem clipes. Duas delas são “Jardim Suspenso” e a “Vício”, e eu consegui realizar esse sonho. As próximas são “Oh Nega”, é um som que eu quero muito fazer um clipe dela, e “Vem”, é um som que tem a participação do TH (DiResponsa), só que ele é muito autocrítico e meio tímido, não gosta de aparecer. A gente discutiu algumas ideias, andou conversando, pra encontrar alguma ideia de fazer um audiovisual bacana.

Eloy no clipe da faixa “Vício”

Raplogia: Ficou alguém de fora que você gostaria que estivesse no álbum?

Eloy Polemico: Acho que o álbum tem bastante participações e pro primeiro disco as participações são aquelas que foram extremamente complementares e essenciais para trajetória do personagem.

Raplogia: Qual ou quais linhas são sua favoritas do álbum? Ou se não houver uma favorita, qual ou quais você gostaria de destacar?

Não faço ideia mano, nunca parei pra pensar nisso, de verdade. Mas eu gosto de uma que é assim:

FoxP2 pra permitir esse som
Vinho e uma bela dama que desconhece o Luis Vitton

Tem várias, tem uma outra:

Eu busco essa beleza inatingível, de harmonia leve e valor intangível
Incrível a miopia dessa gente, compram uns sonhos recheados de mentira, num mercado volúvel

A princípio, as primeiras que vem na minha mente são essas.

Raplogia: Por que “Vício” e “Jardim Suspenso” foram escolhidas para serem singles?

Eloy Polemico: Porque eu acho que elas mostram mais a minha cara como artista. É o que eu quero mostrar primeiro, Eu gosto de pensar numa ordem cronológica de como as pessoas vão me conhecer. Sendo essas as primeira músicas que eu quis mostrar na real, qual que é a cara do Eloy, entendeu? Sem contar que eram as de mais fácil execução, ou melhor, menos difícil. (Risos)

Raplogia: Como é participar do MORLOCKZ? Como se deu essa união?

Eloy Polemico: A união vem desde 2010, o clã tinha sido criado recentemente, e eu acabei entrando logo no início. E desde lá pra cá, a gente vem produzindo beats e rimas, aprendendo como ser profissional, como trabalhar melhor, como evoluir dentro do que a gente faz. Dentro do ofício do beatmaker-MC, MC-beatmaker, produtor e por aí vai.

Raplogia: Em “Vício”, temos recortes com a voz de Parteum. Qual a influência do rapper no seu trabalho e houve algum feedback dele sobre essa homenagem?

Eloy Polemico: Nessa faixa, o risco do Parteum deu mó problema, mó BO. A gente teve que manter a música travada dois dias por conta dos direitos autorais. E isso foi legal porque ele me ensinou uma coisa: profissionalismo. Muitos MCs acham que é só pegar e soltar o som nas redes, fazer show e já era. Mas, mano, pra trabalhar com música tem que entender que quando você sampleia você tá usando a obra de arte de alguém. Você tem que ter um respeito e uma consideração com aquilo, tem que saber o que tá fazendo, tem que saber o que tá usando. Cê tá trabalhando com cultura, com ideias, com ideologia, porque o rap trabalha com ideologia.

Já pensou, cê vai lá, pega a letra do Racionais, “Jesus Chorou”, e fala numa música que homem não chora, e ai você coloca a colagem na mesma música. Incoerente, né? Cê tem que ter noção da parada que você tá fazendo. Aí teve um problema, a gente teve que resolver questão de direitos, de royalties, mas deu tudo certo. No fim ele me ligou, a gente trocou mó ideia, foi muito loco o papo.

Raplogia: Na faixa “Jardim Suspenso”, nota-se que há muitas referências à cultura pop. Gostaríamos de saber de onde você tira inspiração para trabalhar com esse tipo de conteúdo nas músicas e se podemos esperar mais referências do tipo nas outras faixas do disco?

Papel, beat e caneta, e o poder é de vocês<br> Lembro Capitão Planeta, em 1-9-9-3
― Eloy Polemico – Jardim Suspenso

Eloy Polemico: Eu tava numa fase muito criativa, onde tava conseguindo sintetizar tudo que eu queria de uma maneira exatamente perfeita: “É isso que eu quero fazer”. Produzia o beat, terminava de fazer o beat já canetava a letra, refrão, gravava, falava: “Tá aqui a guia, mano. Vamo ensaiar essa porra, gravar o baguio e já era”. E várias músicas surgiram assim. Acho que é um processo natural de como eu desenvolvi minha escrita essa questão de trazer referências da cultura pop com literatura, com filosofia, com notícia, entende? Fazer essa ligação pra querer dizer uma coisa só e uma coisa liga a outra. Eu acho que é natural esse processo, porque eu consumo tudo isso. Eu tenho que arrumar um jeito de pôr tudo que eu consumo pra fora. Tento passar de alguma forma o que eu entendi da vida. Porra, vamo compartilhar o que eu entendi da vida pra ter um feedback se eu tô vivendo direito (Risos). É mais ou menos isso, é mais ou menos pra isso que eu faço essa porra.

Raplogia: Deixe um recado para os fãs.

Eloy Polemico: Parem de reclamar da cena, parem de dar ibope de forma negativa pra artistas que vocês não curtem, agora, sabe aqueles artistas que fazem um trabalho que te agrada, que você sente vontade de dizer paras as pessoas que tu gosta do trabalho dele, apoie esse artista, vá aos shows, compre os CDs e produtos, se você não pode comprar, mande uma mensagem de apoio e admiração ao trabalho, faça uma crítica construtiva, tudo isso vai ajudar a crescer a arte que você tanto quer ver no topo! Aprenda que o boicote é uma das melhores armas já criadas dentro deste sistema.


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