Militância, carreira e incentivo as mulheres: Raplogia entrevista Mima

Conhecida nas redes socias por sua militância, Mima Fernandes estreou na cena daquele jeito. Diretamente de Minas Gerais, batemos um papo com a cantora de 24 anos, que recentemente lançou o seu primeiro videoclipe Mulher Preta, produzido pela Antehype e dirigido por Bob Bastos e Iguana. Confere aí:

Raplogia: Nos conte sobre sua trajetória na música. Como chegou até o Rap/RnB?

Mima: Eu venho de uma família de sensibilidade musical, meu pai toca e canta, minha mãe canta e meu irmão também já se arriscou a tocar. Isso sempre foi tão natural pra mim, na verdade nem sei quando tudo começou, mas a coisa ficou séria quando entrei em um projeto social aqui da minha cidade (BH). Lá eu não somente percebi que a música era sim uma profissão como qualquer outra, como também comecei a desenvolver meu autoconhecimento enquanto mulher negra.

Meus primeiros trabalhos musicais (pagos) foram através desse projeto. Um dos meus professores, sempre dizia o quanto eu deveria investir na carreira de teatro musical, e através do incentivo dele acabei fazendo alguns testes e participando de alguns espetáculos. Com o tempo veio a necessidade de representar algo que fosse realmente a minha essência, que refletisse quem eu realmente era.

Minha história com o Rap e com o RnB acontecia paralela a tudo isso, eu sempre amei ouvir e cantar músicas do gênero, frequentava o Duelo de Mcs da minha cidade, e acabei me inscrevendo em um outro projeto social que tinha total imersão no Hip Hop. Foi lá onde conheci uma amiga que me apresentou o Well, um dos Mcs que eu adorava nas batalhas. Ele estava procurando uma menina pra ajudar em alguns trabalhos, e desde então estamos juntos em um projeto idealizado por ele, Bob e Dj B7Z.

Raplogia: Quais são suas influências? Tanto nacionais quanto internacionais?

Mima: Por mais que pareça clichê, a minha maior inspiração, sem dúvidas é a Beyoncé. Eu cresci nos anos 90, década de ouro do RnB, e a força que ela sempre mostrou como mulher me inspira demais. Acaba que quase todas minhas influências também são mulheres, porque é uma forma de ver nelas o que eu também sou. Jorja Smith, Imddb, Lauryn Hill, Alicia Keys, Queen Latifah… Eu poderia ficar falando até amanhã. E claro, aqui no Brasil, inclusive em BH tem muita mina representando, Clara Lima é um exemplo monstro disso. Também estou sempre acompanhando Drik Barbosa, Karol de Souza, Josi Lopes, e não tem como não falar de Dina Di, um ícone não só pra nós mulheres, mas pro Rap no geral.

Mima por: Igor Finelli

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Raplogia: Já sofreu algum tipo de preconceito/assédio por ser mulher no movimento Hip Hop? Como lida com isso?

Mima: Hoje, felizmente o movimento Hip Hop busca se conscientizar mais sobre essas questões de gênero, mas com certeza existe muito machismo a ser superado. Nunca sofri coisas muito graves, mas sempre tem alguém pra duvidar da minha capacidade, ou pra “testar” se eu realmente gosto e tenho conhecimento sobre a cultural. Percebo que sempre estou rodeada de homens, e muitas vezes, até eles realmente conhecerem meu trabalho eu sou colocada em segundo plano, as vezes até invisível. Não é como um cara que já fala que é Mc, ninguém conhece, nem nunca viu um trampo, mas todo mundo dá uma moral.

Assédios costumam acontecer mais na internet porque eu sou uma senhora de 70 anos que vai pouco a eventos (risos), mas como meu contato maior com os homens é pela internet eu recebo muitas investidas desrespeitosas. Acredito que alguns até devam ter a visão de que por eu ser uma mulher artista, eu tenha determinado comportamento que eles julguem mais “fácil”.

Raplogia: Em sua opinião, qual a importância da união das mulheres no movimento? Como você, enquanto cantora busca fazer isso?

Mima: Sinceramente eu vejo importância da união das mulheres em qualquer esfera social, mas isso ainda é bem pequeno, especialmente no Hip Hop. Não só por ser em sua maioria composto e consumido por homens, mas porque isso vem de uma cultura machista muito forte nas periferias. A inserção da mulher na cultura não é só pra dialogar e desconstruir esse ambiente quase inabitado por mulheres, mas pra mostrar que nós também consumidos e ainda mais, produzimos essa cultura. Esse ganho pra mim, é ainda mais importante, porque a representatividade tem um poder magnifico.

A melhor forma de contribuir pra mim, primeiramente é sempre fortalecer outras minas que estão aí produzindo seus trabalhos, seja no break, no grafite, como DJs ou Mcs. Eu sou conhecida pela militância, então eu estou sempre no fervo, as vezes comprando briga, principalmente por mulheres negras, porque eu quero que todas tenham um incentivo e uma ajuda que talvez, há alguns anos era inexistente. E claro, através da minha música também.

Raplogia: Cite alguns artistas do meio que você admira.

Mima: Não só admiração, também tenho gratidão pelo Well, que é um visionário e tem muito conteúdo pra mostrar. Djonga que eu nem tenho palavras pra explicar, eu fui no primeiro show do cara e de repente ele tinha conquistado o mundo. Tem uns moleques muito bons aqui na Z.O que tão começando agora, mas a paixão e a sinceridade que eles fazem o corre é de admirar ainda mais. Acho que muita gente vai ouvir do La Plaza Rap. Eu já falei dela, mas Clara Lima pra mim é um fenômeno. Primeiro que eu já a vi destruir muito Mc, a mina é muito boa e ainda é uma mulher foda, da minha cidade que agora foi pro mundo. Não tem como não admirar. Fabrício FBC tem trabalhos maravilhosos, sempre foi um dos meus Mcs favoritos, não tem um trabalho que eu não goste.

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Raplogia: Cite três artistas que você gostaria de trabalhar.

Mima: Difícil falar só três, mas Djonga, Drik Barbosa e Clara Lima.

Raplogia: Qual conselho/recado você dá para as mulheres que estão começando a carreira artística agora?

Mima: Eu já adiantaria que não é fácil, rola muito perrengue, muita gente desacreditando, as vezes até você mesma. Mas nada consegue substituir a satisfação e o prazer que é ver seu trabalho concluído e chegando a outras pessoas. Muitas vezes dá vontade de desistir, por causa de grana, cobrança, não saber por onde começar, mas não desistam.  Sejam curiosas, não tenham medo de pedir ajuda, de perguntar e de contar com a ajuda dos outros.

Raplogia: Recentemente você lançou o clipe de Mulher Preta. Como foi essa experiência e porquê da escolha desta música para ser o seu primeiro trabalho?

Mima: Essa música é bem íntima pra mim, então eu tava com as expectativas a mil pra saber como ela seria recebida, se a mensagem de fato chegaria a alguém, e graças a Deus tive um retorno muito positivo.

O tema acabou sendo escolhido por perceber que o debate sobre a solidão decorrente de inúmeros fatores na vida das mulheres negras não era um problema só meu. A solidão, a pressão por não representar o biotipo padrão, e a necessidade de se aproximar dele, que nos massacra. Faz a gente se submeter a situações que não deveríamos, inclusive na vida amorosa. Essa solidão é dolorida, eu sinto ela.  Muitas outras mulheres pretas sentem, então sem dúvidas é um trabalho bem sincero que me deixou roendo as unhas.

Raplogia: Como tem sido a repercussão? Você recebeu críticas com o lançamento?

Mima: Por ter o meu trabalho autoral desconhecido até então, acredito que o retorno foi muito bom, muitas pessoas gostaram, até mesmo as que não se identificaram com o tema em si. Algumas pessoas até me falaram que nunca tinham pensado no tema da forma em que a música fala. Tirando o fato de muitas mulheres terem me mandado mensagens emocionadas, dizendo que se sentiram representadas. Pra mim, isso é sinônimo de sucesso.

Raplogia: Quais seus planos para o futuro? Pretende lançar um EP e mais clipes?

Mima: Eu pretendo continuar firme e forte, eu já perdi muito tempo pelo medo e pela falta de apoio, mas agora me sinto capaz, e com certeza terei muitos outros trabalhos lançados. Algumas músicas estão em processo e espero em alguns meses lançar outra música que, provavelmente também terá um videoclipe. O EP é um objetivo, inclusive já tenho um nome pra ele, mas acredito que isso virá apenas no ano que vem. Mas a meta é não parar.

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