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Essa é a América; o comentário de Childish Gambino sobre a experiência racial americana.

By 7 de maio de 2018 One Comment

Ontem (06/05) pela manhã, ao acordar, mantive minha rotina – que é basicamente, abrir os olhos e pegar no celular (ok, eu sei que isso é um mau hábito). Mas, especialmente nessa manhã de domingo ao abrir um dos grupos já estava lá: This Is America, a nova canção de Childish Gambino. A música veio acompanhada de um clipe, dirigido por Hiro Murai e coreografado por Sherrie Silver, especialista em dança africana. Você pode ler mais sobre o lançamento em si, aqui.

               

Neste post, irei me atentar as discussões geradas pelo audiovisual e que fui tendo ao longo do dia, com namorada, amigos e grupos relacionados a cultura hip hop (salve, Sh!t Mob!)

Bem, o enredo do vídeo, todo mundo já sabe. Gambino se encontra em um galpão, local que no começo do vídeo, só conta com ele e um violeiro. Após o violeiro tocar algumas notas, o rapper tira uma arma e o assassina. A partir deste ponto, ele começa a percorrer o galpão acompanhado de crianças dançarinas, enquanto um pandemônio acontece atrás dele. Pessoas negras se assassinam e se perseguem, se suicidam e Childish massacra um coro gospel com 45 tiros no peito com uma AK-45 AK-47.

Há diversas interpretações para o clipe, sendo a mais explícita, o comentário sobre a violência racial nos Estados Unidos, como a referência clara aos eventos em Charleston em 2015.

Mas há de se atentar para um detalhe: há grande maioria de pessoas negras no clipe (pelo menos, identificáveis). Até mesmo no último plano, onde Gambino corre em direção a câmera, não conseguimos distinguir se ele está correndo de pessoas negras ou de pessoas brancas, e nem se está correndo delas ou com elas. E essa informação muda tudo. Estaria Donald Glover mandando um recado para a própria comunidade negra? As evidências disso são muitas.

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“Os próprio preto não tá nem aí com isso não” – BROWN, Mano.

Ok, vamos começar por partes. Primeiro temos a música, partindo da letra. (Lembrando que “América” nesse caso refere-se ao Estados Unidos da América)

This is America (skrrt, skrrt, woo)
Don’t catch you slippin’ up (ayy)

Look at how I’m livin’ now
Police be trippin’ now

Em tradução livre:

“Essa é a América
Não se pegue escorregando
Olha como eu tô vivendo
A polícia tá viajando”

É um recado muito claro para as próprias pessoas negras, para não darem falha e tomarem o máximo de cuidado possível. Assim como no Brasil, existem casos de policiais americanos que confundiram objetos banais e cotidianos com armas e encontraram ali uma justificativa para assassinar pessoas negras. Todo cuidado é pouco. Gambino continua a sua mensagem a comunidade negra com a incessante repetição da frase “Get your money, black man”, traduzindo, “Consiga seu dinheiro, homem negro”.

E bem, essa é minha teoria principal: Childish Gambino usa o vídeo para gritar na nossa cara que, talvez, a própria comunidade negra não esteja tão atenta para o que acontece com ela e ele tenta alertar. O vídeo, acompanhado do beat, da dança e tudo o mais, nos entretém com isso em um primeiro plano, enquanto ao fundo as coisas tensas acontecem. A direção do clipe é tão espetacular quanto a música e a performance de Donald. Hiro Murai nos coloca para assistir um falso plano sequência (já que as transições são maquiadas), assim, fazendo-nos sentir presos naquela realidade apresentada. O oposto do costumeiro em clipes de música do mesmo gênero, que são realizados com cortes rápidos para dinamizar e entreter o espectador, sem que ele possa pensar muito nas imagens que assiste. Além disso, há de se parabenizar Hiro Murai pela ousadia e capacidade de realizar planos-sequência com tantos elementos que precisam estar em sincronia e acontecer no momento certo para que o vídeo seja executado.

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A música, com um beat de trap moderno, vem repleta de ad-libs de rappers em alta no momento, como 21 Savage, Migos, Chance The Rapper, BlocBoy JB, entre outros. Junto as danças, nos distrai para todo o caos que ocorre no segundo plano do clipe. Nós somos atingidos pela tensão e caímos na real da situação em dois momentos primordiais: o assassinato no começo do vídeo e o massacre no meio. Fora esses momentos, estamos rindo das dancinhas, imitando, tentando reconhecer os ad-libs ou chapando no beat. Na minha interpretação, um modo de Gambino dizer que a comunidade negra só presta atenção em seus problemas reais quando algo muito violento acontece.

Leia também: 5 Motivos para você Assistir a série “Atlanta”, de Childish Gambino

As referências e o visual (afinal, é de um clipe que se trata hehe) fortalecem mais ainda a tese de que Gambino direciona sua crítica a alienação dos próprios afro-americanos para consigo mesmos. Começamos com uma cena em que Bino assassina um homem tocando violão, e na hora do ato, reproduz a pose dos cartazes da peça Jim Crow.

Thomas Rice era um comediante de NY nascido no início do século XIX. Em dado momento de sua carreira, ele fez uma visita ao sul, e lá descobriu que os Senhores de Escravo tinham o costume de chamar seus escravizados de corvos (crow, em inglês) – e que estes, em horas de descanso, cantavam uma música dedicada a uma figura lendária chamada Jim Crow. Então, Thomas teve a ideia de se pintar de preto e performar em suas peças uma estereotipação do que ele considerava um negro “típico”: burro, vestindo roupas trapos e dançando de maneira idiota por aí. Parecido com o que temos no Brasil como o arquétipo do Crioulo Doido e com um pouco do que Donald performa durante o clipe, principalmente nas danças. Danças que misturam afrodance com dancinhas que estão na moda na trap music e a Roy Purdy dance – esta última que é quase um deboche com os mesmos passinhos performados nos clipes de trap.

Jim Crow

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Posteriormente, surgiram “As leis de Jim Crow”, que institucionalizaram a segregação racial, afetando afro-americanos, asiáticos e outros grupos étnicos. Vigoraram entre 1876 e 1965. Foram responsáveis por leis como as que escolas públicas e a maioria dos locais públicos (incluindo trens e ônibus) tivessem instalações separadas para brancos e negros.

Um outro detalhe dessa primeira cena, é o cuidado que se tem ao guardar a arma em contraste com o desleixo que se teve com o assassinado, logo recolhido de qualquer maneira do chão.

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Outra crítica do artista durante o clipe, é como a juventude negra não se preocupa como deveria com a situação racial em seu país. No vídeo, eles estão em todo o momento se divertindo, dançando, jogando dinheiro de cima dos carros e transmitindo todo o caos via celular.

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Importante ressaltar que no segundo verso, Gambino reproduz o flow de alguns rappers que estão em alta no momento, além de versos mais “fúteis”, se dizendo bonito e se gabando por usar Gucci, mesmo com o mundo se acabando atrás dele. Inclusive, no fim deste verso ele faz a linha “hunnibands, hunnibands, hunnibands” uma multissilábica com “gucci gang”, na mesma cadência do flow de Lil Pump.

gU/ccI/ gAn/g
hU/nnI/ bAn/ds

Também podendo ser interpretado como uma crítica a futilidade de alguns artistas presentes na cultura hip hop e como os negros americanos podem ser levados pelo estilo de vida que essas pessoas vendem em suas músicas, o “sonho americano”: carros, mulheres e romantização das drogas.

O que nos introduz a este ponto do vídeo, a crítica severa ao “american way of life.” Em conversa com minha namorada, ela bem pontuou:

“O momento da ‘calmaria’; soa como a venda do sonho americano: ele dançando como nos filmes de musicais, vários modelos de carros e a mulher (SZA) como a família. O cigarro é a finalização deste sonho, retratado de forma destacada em quase toda película americana. A forma como o Gambino fuma cigarro, remete a diversos filmes dos anos 40, o homem branco calmamente acendendo um cigarro na esquina de uma rua. Após essa cena, ele volta a correr, porque ele como um homem negro americano, não pode viver esse sonho que a América (do norte) vende. Outro elemento visual do sonho americano, é a locação: vigas de ferro e concreto, remetendo as estruturas dos chão de fábricas, de estacionamentos e base de grandes edifícios…”

Leia também: Conheça o trabalho de Gordon Parks, inspiração de Kendrick Lamar para o vídeo de “ELEMENT.”

E as referências não param por aí. Em uma sociedade majoritariamente cristã, Gambino coloca um cavalo branco sendo conduzido por um homem de capuz, o que também pode ser interpretado pelo primeiro cavaleiro do apocalipse. Este, viria num cavalo branco e sua cor representa a “paz disfarçada” além de, obviamente, a morte. Ironicamente, após ele passar, o caos do vídeo desaparece, pelo menos a nosso olhar.

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Tudo, absolutamente cada detalhe foi pensado: fica claro que não foi uma música que ganhou um visual ou um vídeo que ganhou uma trilha sonora, mas uma obra construída de maneira audiovisual. Mais uma compreensão e detalhe que podemos tirar são os carros dos anos 80 em perfeito estado de conservação. Essa época foi conhecida como Ronald Reagan’s era, muito bem retratada por Kendrick Lamar em seu disco Section.80, por exemplo. Neste período, por conta das políticas do ex-presidente Reagan, muitas coisas negativas aconteceram a população negra, como a epidemia de crack e a política de encarceramento em massa através do pensamento de “guerra do tráfico”. Os carros da época é Gambino dizendo que pouca coisa mudou desde então.

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Donald Glover ou Childish Gambino, tem sido um artista para se olhar há muuuuito tempo. O cara atuou e escreveu em Community, tem diversas mixtapes de rap, sendo CAMP a primeira notável, lá em 2011, que conta com a música Bonfire, com um clipe tratando racismo de uma maneira tão intrigante quanto ‘This is America’. Recentemente, Bino tem chamado mais atenção por seu aclamado último disco, “Awaken, My Love” juntamente da série “Atlanta”. De reconhecimento merecido, ele nos traz mais uma experiência audiovisual tratando sobre a vivência do negro na América (agora estendendo-se até Brasil) e nos propõe a pensar. Gambino grita na nossa cara a realidade que é se lamentar acerca do assassinato de um nossos e depois precisar fumar um beck, dançar, por um sorriso falso na cara e continuar correndo.

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