Ésù é quem abre os caminhos.

O título desse post, assim como Ésù – Orisà mais dual dentro do panteão Iorubá, pode ter dois significados, que no final se encontram, assim como os caminhos que originam a encruzilhada.

Lançado essa semana, o disco de Baco Exu do Blues é o primeiro do MC que, sendo uma promessa de outrora, hoje é realidade. Mas, não vamos entrar nos méritos de Baco como MC ou sobre sua obra, a ideia é fazer um paralelo entre a linda capa, criada pelos artistas Gabriel Sicuro e Eric Mello e o nome do disco, bem como do MC e algumas de suas referências que explicam o ponto de lançamento do seu primeiro álbum.

Baco-Ésù

O nome “Exu do Blues sempre me chamou atenção”, sendo eu um praticante de religião africana e um tanto viciado em conhecer seus fundamentos e história.

Ésù é o Orisà dos caminhos na Mitologia Iorubá, originária da Nigéria e trazida ao Brasil durante o tráfico negreiro. Vaidoso, impetuoso, sagaz, acima do bem e do mal, ou melhor, justo, a divindade mais próxima dos seres humanos, bem como de seus prazeres e súplicas. É também o primeiro a ser reverenciado nas cerimônias nas casas de candomblé, num ritual conhecido como “Ipade“. É ele quem come primeiro, é ele quem abre os caminhos do Órùn para que os Orisàs venham até o Aiyè dançar e distribuir o Asè, a força vital. É ele também quem protege as casas, as pessoas, quem dá a passagem. O início de tudo, ou a “Gênesis Iorubá”.

Baco-Ésù
Peça em madeira, Arte Yoruba representando o Ogo de Elegba, elemento pelo qual o Asè é transportado. (Eshu Staff), Nigeria

Exu do Blues pode ser o protetor do blues, o propagador do blues, o iniciador? Mistério. “Amo o RAP, mas no jazz eu me criei, então DJ coloca Billy Holiday”. Essa rima do Baco no EP “OldMonkey” é uma boa referência para começar a entender a importância e o significado desse nome.

Voltando ao disco, é nítido para alguém que cultua a religião dos Orisàs perceber as relações entre disco e o culto, entre termos e significados intrínsecos, como se tudo fosse uma grande analogia a algo maior.

Quando penso na capa, consigo refletir sobre algumas mensagens talvez subliminares. Ésù é cultuado na África desde os primórdios da civilização, enquanto o culto a Jesus existe há 2017 anos, o que talvez seja uma forma de mostrar respeito a quem veio antes, aos mais velhos, aos ancestrais. Também podemos fazer uma análise de como ambos podem ser apenas um, com nomes diferentes e ritos diferentes, como a própria capa acaba mostrando ao se “tampar” as letras J e S, revelando a palavra Ésù dentro de Jesus.

Indo mais além, é também uma forma de protesto a fotografia feita diante de uma igreja pelo fotógrafo David Campbell, onde há séculos os negros pagãos cultuavam seus Orisàs diante dos santos católicos, num método onde os “elementos do Asè” eram depositados dentro das imagens dos santos, um processo que deu origem ao sincretismo religioso tão visto na Umbanda. Além do processo de desumanização, da eliminação da identidade negra e de seus cultos, que as igrejas na época estavam na minha de frente. O candomblé foi e é um dos maiores movimento de resistência negra da história. Estar diante da igreja louvando Ésù é um grito de “Estamos vivos!”.

Durante o disco podemos destacar samples, rimas e muitas outras citações ao Candomblé e ao Orisà que leva o nome ao álbum, mostrando as várias facetas de Baco e Ésù, que, durante o disco se cruzam como se fossem somente um ser. Carregamos conosco aquilo que nossos Orisàs nos dão quando nascemos. Suas características, personalidades, nosso Odù, nossa missão e a força semelhantes a centelha que carregamos durante a passagem. As falas e rimas de Baco sobre seu ego, suas amarguras e lutas nada mais são do que simples analogias de uma vida real que se assemelham com os Ìtàns de Elégbàrà. Esse disco pode ser entendido de diversas formas. Entendo eu que “Èsù” é mais do que um compilado de músicas compostas para um mesmo fim, é um ato, uma homenagem e um agradecimento e direção para o que virá depois. Ésù é, mais do que tudo, o que porta e carrega o Asè, a mensagem. Tanto o disco quanto a divindade.

Um ano após “Sulicidio“, que pode ser considerado uma primeira abertura de caminhos pelo MC entre o mar do eixo Sp-RJ, “Ésù” vem pra consolidar Baco como um dos maiores expoentes da cena atual, trazendo consigo toda sua bagagem de tristezas, aventuras, viagens, andanças por Salvador, as alegria e o sorriso sempre estampado e a garra de seguir o caminho que lhe foi atribuído – sempre com um bom marafo e charuto, ou cigarro e cerveja. Laroiyê!

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Marco Aurélio

Fotografo shows sujos onde frequento, escrevo rimas que nunca vou lançar e faço pautas sobre coisas que vocês (ainda) não conhecem.

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