O que Madvillain me ensinou sobre o RAP — e a vida.

Madvillain é, antes de tudo, um clássico musical. Mas, para mim, é também um clássico social.

O RAP, desde os primórdios, se caracterizou em um movimento de contracultura, de voz contra a opressão, e, consequentemente, exibicionismo. A arte, a música, as letras, a dança e as roupas, tudo muito extravagante, chocava a sociedade da época, chocava os brancos racistas, chocava.

Nos anos 90, nos EUA, um show de RAP quase foi proibido de acontecer devido ao pavor dos brancos com relação aos “negros selvagens”. As pessoas se revoltaram e a cidade se transformou num caos. Na realidade eles só tinham receio daquela multidão de afro-americanos propagarem sua cultura, e, de repente, causarem uma revolta. Mas essa história fica para outro dia.

Ainda sobre a questão do exibicionismo, ele foi extremamente importante como forma de empoderamento daquelas pessoas que usavam o Hip-Hop como escape da situação em que viviam, como militância e imponência perante a polícia e o sistema.

Muita água rolou nessas 3 décadas, e hoje o que vemos é um exibicionismo que, ao meu ver, foge muito do que já foi e se situa como uma coisa negativa dentro da cultura.

O advento das redes sociais trouxe uma sensação de superioridade para muita gente, muitas tribos, e o RAP, infelizmente, não está ileso. Todo dia eu vejo algum MC fazendo textão, afirmando ser o melhor, que a rima do fulano é ruim, que as guias de ciclano são péssimas e se dizendo o próximo clássico. Muitos deles usando “Control” como exemplo, de uma forma bem errada. A fotografia se tornou a maior parceira dos “dedos ligeiros”, e o que se vê é uma grande quantidade de imagens de auto-promoção como superstars, de teorias sem prática, ou melhor, promessas que passam batidas muito mais pelo falso hype criado do que pela falta de talento.

Diferente da exibição oriunda do orgulho em se fazer parte e colaborar com a propagação do movimento, hoje a ideia encontra-se muito mais embasada numa competição sem rimas ou rodas de break dance, em uma vontade extrema de se fazer parte de algo do qual não se conhece, ou pura injeção de ego. Ser MC apenas por ser MC e a fama que isso trás.

E o que isso tem a ver com “Madvillainy” pode ser explicado em dois links: Madlib e MFDOOM.

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Observe a postura desses dois caras. Não existe superexposição, não existem textos de ataque sem fundamento musical ou mesmo com o objetivo de se iniciar uma batalha lírica — o que seria lindo!, não existem fotos e mais fotos de mulheres nuas e baseados enormes, não existem promessas. Existe trabalho, shows, mais e mais trabalho, existem dois clássicos que vão marcar a história do RAP até o final dos tempos — mesmo que o mainstrem ainda renegue o espaço dessas duas divindades do Hip-Hop.

“Madvillainy” nasceu da colaboração entre Daniel Dumile e Otis Jackson Jr. Um americano, outro Inglês, com aparições em tempos diferentes, de formas diferentes.

Madlib começou pelo Lootpack, onde ainda gastava rima demais e já produzia algumas batidas que seriam sua marca registrada. MFDOOM surgiu no KMD, ao lado de seu irmão, ainda sem o pseudônimo que o faria uma das figuras mais emblemáticas da cena. Ressurgiu em 1999 como MFDOOM, no clássico “Operation Doomsday”. O que vem depois é só parte da história.

Um fato interessante é que, segundo Jeff Jank, diretor de arte do disco, Dumile recusou todas as propostas de mostrar o rosto nesta capa. DOOM já tinha um reconhecimento na cena underground, e a máscara já tinha se tornado seu emblema.

Madlib caminhava pelas beiradas na Golden Era, produzindo “The Lost Tapes”, “Blackmarket Seminar” e “Antidote to da Antidope”. Não teve seu nome gravado nessa época pelas mídias e outros admiradores. Mas prosseguiu!

Quando se juntaram, em 2002 para a criação do disco, tudo foi como manda o figurino. Reclusos em um bunker anti-bombas, regado a álcool e muita maconha, deram início a Gênesis do que viria a ser um dos maiores discos colaborativos de todos os tempos. Sem alarde, com exceção de algumas faixas roubadas que foram postadas na internet, o disco saiu em 2004.

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Essa foto, feita pelo fotógrafo Eric Coleman, diz muito sobre a personalidade desses dois caras. Madlib odeia fotos, aparições e raramente se ouve falar nele. Sabemos muito pouco sobre a vida pessoal do DJ/Produtor/MC. Nada muito além de sua idade, cidade de origem e laços de sangue com Oh No, outro grande produtor. Não pra menos, os dois maiores clássicos do produtor foram a colaboração com DOOM e “The Unseen” pelo alter-ego Quasimoto, que é um personagem amarelo, feio e viciado em maconha e mulheres.

Já DOOM surge imponente com sua máscara, uma sombra dura em cima dela, deixando seus olhos quase que escondidos, fazendo pairar um ar de mistério e superioridade. Uma faixa laranja deixa óbvia a inspiração em um disco da Madonna. Não sei como é o rosto de Daniel, mas posso imaginar que ele estava como quem sabe o que estava fazendo, porque estava fazendo e a facilidade com qual ele estava fazendo.

A facilidade com que ele rima em cima de batidas como “Figaro” e “Meat Grinder” revela o lado mais tenebroso do MC: sua genialidade com metáforas, variações de flow e uma caneta pesada para quem beira os 50 anos.

Já Madlib não deixa rastros. Samples descobertos depois de anos mostram como o cara foi da MPB aos clássicos de heróis para compor esse deleite para os ouvidos. Não espere um boombap marcado, não espere TRAP, não espere Gangsta Rap, não espere punchlines demais nem ataques, não espere nada. “Madvillain” transcende o que se conhece sobre samples e batidas, assim como transcende o que se sabe sobre a postura de gente que vive a cultura. Um produtor que usa uns penteados muito loucos e um MC que vai aos sonhos de camiseta branca em gola V, da Hering, é um moletom surrado. O que esperar desses caras?

Esqueça tudo que se tem aprendido nos últimos 3, 4 anos sobre a exposição de sua imagem. Esqueça os parâmetros pré-estabelecidos por pessoas que se julgam os juízes da cultura. Esqueça tudo que você aprendeu no Wikipedia sobe métrica e FL Studio. Aprenda. Como eu aprendo a cada vez que escuto essa obra e me projeto alguém cada dia mais introspectivo com relação a minha imagem como pessoa, e me projeto cada vez mais pra frente como artista.

O que pude aprender com essa obra e com a caminhada desses dois artistas é que pouco importa quanto custou o meu tênis, quão gostosa é a minha namorada ou em quantos shows eu não fui quando todo mundo estava.

Também não importa o quão melhor eu posso ser que os demais fotógrafos, MCs e produtores. Tudo é sobre fazer o que se ama, com amor. Sobre mostrar em forma de disco prenssado como se deve fazer. É sobre colocar no bolso gerações de Mc’s com rimas e uma métrica alienígena como “The rest is empty with no brain but the clever nerd, the best emcee with no chain ya ever heard / Take it from the Tec-9 holder, rhey’ve bit but don’t know their neck shine from Shinola“. Ou com aqueles 6 samples de jogos e filmes de heróis que foram sobrepostos em 2 minutos de uma das batidas mais lindas que já ouvi.

Tudo é sobre o que você é e faz com relação ao que se deve ser. Não sobre o que se finge ser para conseguir ser.

Ouçam “Madvillainy”!

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Marco Aurélio

Fotografo shows sujos onde frequento, escrevo rimas que nunca vou lançar e faço pautas sobre coisas que vocês (ainda) não conhecem.