PROFILING: Metro Boomin

Um olhar na caminhada de Metro Boomin, uma das maiores forças por trás da ascensão do trap.

Na cidade de St. Louis, Missouri, a WESL – rádio de R&B e Soul da parte leste da cidade – ficou conhecida mundialmente por ter sido o primeiro lugar a tocar “Rapper’s Delight” – faixa que desencadearia a explosão do gênero através do país. A influência radiofônica do que circularia naqueles e em outros falantes nas próximas décadas tomaria força novamente no começo dos anos 00, com a ascensão meteórica do movimento bling-bling.  O fenômeno veio como um tsunami – e com ele centenas de one-hit wonders surgiram por todo o país para surfar um pedaço da onda.

Chingy, Huey e J-Kwon foram alguns dos artistas locais que estouraram e tiveram hits rolando incessantemente durante esse período. A grande maioria deles nunca mais conseguiria replicar o sucesso e desapareceria do radar nos anos seguintes. Baixada a poeira, dois caras sobreviveram e construíram verdadeiros legados. Tech N9ne e Nelly.

O primeiro se distanciou da sonoridade da era bling e pautou seu sucesso em vertentes bem menos acessíveis ao público geral – se aproximando muito mais ao rap hardcore/horrorcore.

Com um estilo extremamente técnico de rima e lírica – além de um forte senso de negócio – fundou sua própria gravadora e cultivou uma reputação respeitável no underground. Reputação que se agigantou nos anos seguintes. Não é difícil encontrar ainda hoje ícones e lendas do jogo que prestam respeito ao homem, alguns chegando até a colocá-lo lado a lado aos melhores de todos os tempos.

Já Nelly, foi o fenômeno dentro do fenômeno. Diferente de Tech N9ne, comercialmente Nelly foi um sucesso estrondoso.

E não importa se você atribui sua popularidade a pose de pretty boy malandro, ao estilo vocal carismático e o sotaque sulista arrastado, ou as claras inspirações melódicas vindas do pop e do R&B – responsáveis por um apelo demográfico muito maior. Sob uma ótica ampla, é inegável o que o cara movimentou para o gênero e trouxe para a mesa.

Como o próprio Nelly afirmou, a intenção dele com Country Grammar, seu disco debutante, era de colocar St. Louis no mapa. Mais de 10 milhões de cópias vendidas depois, é justo dizer que ele conseguiu.

 

“Who say pretty boys can’t be wild ni**as?”

 

Além de certificações multiplatinadas e hit atrás de hit, ele também fisgou a atenção de um moleque conterrâneo, Leland Tyler Wayne, de apenas 7 anos de idade. Alguns plays de “Ride Wit Me” e “E.I.” depois e ele havia decidido: seria rapper. Mas ele também queria ser levado a sério pela mãe (!), então precisava de uma outra descrição. Ele seria produtor.

Avancemos alguns anos.

Leland com 13 anos de idade tinha agora, além um sonho, um laptop e uma cópia do software de produção musical Fruity Loops, o melhor amigo do produtor caseiro iniciante. E como todo aspirante a produtor, seria apenas o começo das intermináveis horas online atrás de tutoriais de como colocar notinhas em teclados virtuais.

Foi só em uma oportuna e bem-vinda aula de piano no colégio que Leland finalmente descobriria o que era um acorde.

E foi o suficiente. O garoto passou a produzir beat atrás de beat, diariamente. Ele caçaria os créditos de álbuns no Wikipedia em busca dos responsáveis pelo departamento de A&R e os bombardearia no Twitter. Artistas também. Chegou a vender alguns beats. Vários distribuiu de graça.

Foi só quando seu trampo finalmente chegou aos ouvidos de um dos associados da 1017 Brick Squad – gravadora fundada e encabeçada por Gucci Mane – que a coisa ficou séria. Leland foi convidado para viajar até Atlanta e trabalhar em estúdio com OJ da Juiceman, estrela de mixtapes e ícone do trap underground do sul.

Dali em diante, 17 horas de carro quase todos os finais de semana o separavam de estar mais próximo de seu objetivo. Jornada que não seria possível sem todas as vezes tendo sua mãe Leslie ao volante, é claro. Isso ainda tendo que manter regularidade nas notas no colégio.

Na metade dos anos 00, o hip-hop que emergia do sul dos Estados Unidos já havia tomado de assalto o país. Artistas como T.I., Ludacris e Chamillionaire dominavam as paradas. Outkast levava 6 Grammys para casa. Three Six Mafia 1 Oscar no bolso. A cena estava fervendo e um jovem Leland Tyler Wayne de 17 anos de idade estava no meio de tudo aquilo.

Era hora de criar uma identidade.

A primeira parte – Metro – veio quase que de forma aleatória. Quase. O sistema de metrô em St. Louis é chamado Metrolink. A segunda parte veio inspirada pelo próprio OJ da Juiceman. Além de ser parte da faixa clássica do rapper, o bordão era algo recorrente, o qual ele mesmo fazia alusão em várias outras músicas. Pegou.

 

 

Em 2012, Young Metro foi aceito na Universidade de Morehouse, uma das mais prestigiadas HBCUs dos Estados Unidos. Agora ele tinha uma escolha a fazer: realizar o sonho da mãe e ingressar em uma das universidades negras mais importante do país ou viver de seu sonho. Metro optou pelos dois.

Bom, pelo menos durante algum tempo.

Dois semestres de aula depois e ele já era uma força a ser reconhecida – e não era na sala de aula. “Karate Chop”, colaboração com Future e um dos principais singles do disco Honest ao lado de “I Won” – também produzida por ele e com participação de ninguém menos que Kanye West – figurava nas charts da Billboard. No ano seguinte, a segunda faixa também seria lançada como single.

Metro frequentava a sala de aula e o estúdio tanto quanto a casa do colega também produtor Sonny Digital. O lugar era um ninho de hit makers prontos para serem descobertos. Migos, os moleques do Rae Sremmurd, ILoveMakonnen, todos chegaram a frequentar o lugar em algum momento. Nessa mesma vibe de comunidade também encostavam os produtores DJ Spinz, 808 Mafia e Southside, todos criando e compartilhando beats juntos.

metro boomin

Sonny foi o ouvido amigo que Metro precisava para ventilar a frustração que era ainda ter que frequentar a escola. Foi ele também que incentivou o parceiro a dar um fim na carreira acadêmica e soltar a bomba para Dona Leslie. Não é preciso dizer que a coroa ficou furiosa, inicialmente.

Só que nesse momento Metro não estava mais correndo atrás de um sonho distante. Ele o estava vivendo – e a mãe sabia disso.

 

“If Young Metro don’t trust you, I’m gon’ shoot you”

 

Metro Boomin e Future a esse ponto já eram nomes associados quase que automaticamente. A dupla vinha colaborando desde 2011 e produzindo um alto volume de trabalhos além dos já citados aqui.

Em 2014, também foi Metro o responsável pela produção da grudenta “Tuesday”, single do ILoveMakonnen com participação certeira do Drake.

Era questão de tempo até os três se juntarem em estúdio. O encontro entre Metro, o embaixador dos opioides, e o segundo canadense mais odiado do planeta, finalmente aconteceu em setembro de 2015, culminando em um dos trabalhos mais aguardados daquele ano – a mixtape colaborativa What a Time to Be Alive.

O envolvimento na produção da maioria das faixas do projeto, além da dedicação obsessiva dentro de um cronograma insano de uma única semana de gravação em Atlanta, garantiram ao jovem Leland uma cadeira na produção executiva no trampo. O resto é história.

Metro Boomin é, de todos os produtores de sua geração, provavelmente o maior responsável por moldar e popularizar a sonoridade do trap que existe hoje em sua forma atual.

A atmosfera ameaçadora e cruel elegantemente desenhada pelos timbres e texturas sintetizadas, o uso de metais em melodias e harmônicos menores sempre gerando tensão, a percussão carregada de caixas e graves 808 amarradas aos hi-hats rápidos e sincopados. Todos esses elementos já vinham sendo explorados em alguma escala desde a concepção da própria vertente, no entanto foi Metro que refinando essa sonoridade deu o próximo grande passo.

Se hoje essa fórmula é replicada a exaustação e emulada em trampos ao redor do planeta – inclusive fora do gênero – é porque ele pavimentou o caminho.

metro boomin

Um aspecto bastante interessante da carreira de Metro Boomin não reside em sua faceta musical, mas na social.

Parece bobo, mas quando se passam horas intermináveis dentro de um estúdio com o mesmo grupo de pessoas, as relações interpessoais construídas naquele ambiente passam a carregar tanta importância quanto a música em si. A sinergia entre produtor e artista transborda naturalmente no produto final. É dessa interação que é possível nascerem bases instrumentais e composições melódicas que complementem tão bem as características específicas de cada artista.

Não à toa Young Metro tem tantos colaboradores frequentes.

Em um período em que o gênero vive uma saturação tão grande, é também graças a esse aspecto que ele consegue mostrar versatilidade mesmo quando trabalha ao lado de nomes fortes do R&B popular como The Weekend, Tinashe e Lana Del Rey.

Metro Boomin faz muito mais que surfar a onda. Segue esculpindo seu próprio legado, deixando sua marca e ditando tendências que transcendem o gênero. Assim como Nelly fez a quase 20 anos atrás, em algum lugar por aí um molequinho está de fones de ouvido, pulando e pirando ao som de “Jumpman”.

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