Quinto Elemento: Jorge Hilton e os valores propagados na cultura hip-hop

A inédita coluna Quinto Elemento é um debate com estudiosos e intelectuais do rap nacional. Conversamos com os teóricos mais conceituados sobre assuntos relacionados à cultura hip-hop com o objetivo de enriquecer culturalmente o leitor e propagar novas ideias.

Na primeira edição, o convidado foi o rapper, professor acadêmico, pesquisador e ativista Jorge Hilton. Em 2014, lançou o livro Bahia com H de Hip-Hop, uma crônica-reportagem que relaciona a Terra do Axé com a cultura de Bambaataa. Mestre em Educação e Contemporaneidade , Hilton escreveu no ano seguinte uma dissertação sobre Perspectivas de Rappers Brancos Brasileiros Sobre as Relações Raciais – Um Olhar Sobre a Branquitude. Jorge também é vocalista do grupo Simples Rap’ortagem e membro da organização mundial Zulu Nation.

Confira agora a nossa primeira entrevista:

Apesar do seu estudo sobre rappers brancos ser recente, você entrevistou, em sua maioria, MCs de gerações mais antigas. Qual a sua opinião sobre os rappers brancos dessa nova geração? Você acha que estão mais conscientizados?

Entre qualquer geração sempre haverá as exceções, mas no geral não acredito que os rappers brancos da contemporaneidade são mais conscientizados. Por exemplo, quem dentre os da “velha” e “nova” escola já abordou o tema branquitude em suas letras? Quando o assunto é gênero, ainda se vê muito pensamento machista, sexista, e ao que parece ainda mais hedonista que antes.

Como você analisa o perfil do fã de rap nacional e como esse público pode contribuir para erradicar o preconceito que também existe dentro do hip-hop?

Há aquele tipo de fã que ainda defende o rap no que chamo “Padrão Racionais”, ou seja, cantado por negros, da periferia, que fale sobre assuntos relacionados ao cotidiano periférico e principalmente não apareça na grande mídia. É um público conservador, que se volta para seu ídolo quando foge do tradicional. Daí a demora a aceitar, por exemplo, o álbum Cores & Valores, do próprio Racionais. Mas há outro tipo de fã mais aberto ao novo, que consequentemente sugere um olhar mais flexível para temas como Homoafetividade, Transgeneralidade, etc. Porém, só um estudo para se confirmar ou não essa hipótese.

Sobre como o fã pode contribuir para abolição de práticas discriminatórias, penso que cada qual dá o que tem. Se esse indivíduo ou público tem consciência, dará consciência, esta se manifestará criticamente por diferentes meios buscando justiça. Se não tem, a intervenção fica restrita ao próprio umbigo.

Muitos fãs de rap questionam artistas que se declaram favoráveis a posicionamentos políticos de direita. Como você pensa essa questão? Acha que a música rap e o hip-hop é um movimento essencialmente “de esquerda”?

O que se entende como “direita” e “esquerda”? É fundamental saber. Há quem diga que a esquerda é liberal. Se é, em que medida? Sabemos que o liberalismo em seu início, defende a liberdade de expressão. Mas, defende coisas que não são bacanas como a mínima regulação do Estado sobre o Mercado, por exemplo.

Difícil falar em “essência”, o Hip-Hop nasce dentro das contradições do mundo capitalista e esse papo dá “pano pra manga”. Mas, se considerarmos os princípios do Movimento estabelecidos pela Universal Zulu Nation, em seu início, podemos afirmar que todos os seus elementos são orientados para o Respeito, Fraternidade e União. Ou seja, orienta a prática de valores opostos ao racismo, machismo, ódio religioso, homofobia, transfobia, etc. Com base nisto há que se fazer crítica interna.

Você acha que o rap nacional precisa ser mais politizado?

Sim. Penso que a excessiva preocupação com a estética, com o flow, por exemplo, tem deixado o conteúdo social a desejar, mas sempre há as exceções.

Você destaca algum estudioso que pesquisa o movimento hip-hop a fundo? Quem?

King Nino Brown, DJ TR, Paulo Brasil, Binho Abede são algumas referências.

Qual o seu artista favorito?

Não tenho artista favorito, mas alguns dos que admiro e torço no Rap são: Fúria Consciente, Opanijé, Lukas Kintê, A Febre, Uh Neto, Conceito Articulado, AfrozRap, RBF, Diego 157, OQuadro, RAPadura, Zé Brown, Confluência, Rimas & Melodias, Kalyne Lima, Emicida, Rico Dalasam, e outros tantos.

Na sua opinião, qual o papel do rap na nossa sociedade?

Sensibilizar, desconsertar, problematizar, entreter com responsabilidade, gerar renda, emocionar, provocar mudanças positivas no comportamento das pessoas.

E aí, gostou do nosso novo quadro? Para fazer qualquer tipo de crítica ou sugestão, é só comentar aqui embaixo. A segunda edição do Quinto Elemento sai daqui a 15 dias. Até lá!

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Victor Costa

Jornalista e flamenguista. Fã de Quinto Andar e Sabotage, é um curioso sobre o universo hip-hop.
Escreve a coluna "O Rap pelo mundo" e produz vídeos para o canal do Raplogia.

Victor Costa

Jornalista e flamenguista. Fã de Quinto Andar e Sabotage, é um curioso sobre o universo hip-hop. Escreve a coluna "O Rap pelo mundo" e produz vídeos para o canal do Raplogia.

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