“Uma autoestima elevada pode salvar uma vida” – Raplogia entrevista Rap Plus Size

Não tem como falar de empoderamento feminino e não lembrar de Issa Paz e Sara Donato. Além de serem duas MC’s hiper talentosas, as minas representam no ativismo pelos direitos das mulheres periféricas e quebra dos padrões estéticos, machistas e gordofóbicos.

O Raplogia bolou uma ideia com elas sobre carreira, inspirações e planos futuros. Sem mais delongas, já que a conversa foi mil grau, pega a visão:

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RAPLOGIA: Como foi o início da caminhada de vocês no Hip Hop? O que despertou a paixão de vocês pelo rap?

Issa Paz: Comecei pela poesia e aí conheci o rap, com 12 anos comecei a gravar meus próprios sons em casa e postava no MySpace, com 14 entrei no grupo Rimologia e aos 15 já começava também a batalhar nas batalhas de freestyle na cidade. Comecei a estudar design de maneira autodidata e então fui tentar uma faculdade, não deu certo, acabei me formando em marketing mesmo. Me especializei em Marketing Digital e nesse meio período lancei dois discos, o primeiro é o EP “Essência” que gravei em 2013 e o álbum “A Arte da Refutação” em 2015. Em 2016 me juntei com a Sara Donato pra fazermos um disco e acabou virando um grupo, que é o Rap Plus Size.

Sara Donato: Desde que me entendo por gente eu gosto muito de rap e foi através dele que tive acesso a várias coisas e também passei me identificar, me reconhecer e usar a arte como forma de transformação.
Desde dos 14, onde montamos nosso primeiro grupo de rap, onde eram 5 minas, até minha passagem pelo grupo Verso Consciente.
Sempre liguei muito o profissional e a militância, pois acredito que militância é evolução, não se faz individual.
Em 2013, lancei o meu primeiro CD solo chamado MADE IN ROÇA e teve uma repercussão bem foda e atualmente vivo e respiro RapPluSSize.

 

RAPLOGIA: Como vocês se conheceram? Como se deu o estalo de “precisamos trampar juntas”?

Issa: Surgiu a ideia de fazer um álbum colaborativo com a Sara, porque somos muito amigas e sempre que ela vinha pra São Paulo ficava na minha casa, a gente trocava muita ideia sobre feminismo, rap, machismo, gordofobia e refletimos isso nos nossos trampos solos. Então decidimos que o nome do disco seria RAP Plus Size pra gente abordar todas essas questões e ter a nossa cara.

 

RAPLOGIA: Vocês são inspiração para outras minas. Quem são as pessoas que inspiram vocês?

Issa: Escuto muita coisa, mas quando escuto as mulheres cantando um rap eu me inspiro muito mais, ultimamente tenho acompanhado de perto o trampo da Tati Botelho, Bia Doxum, Luana Hansen, Gabi Nyarai, Souto MC, Brisaflow, Marie MC etc, são muitas minas que ouço todos os dias, mas também tenho muita influência do boom bap bate cabeça do Wu Tang Clan, do gangsta rap do Facção Central, A286, do trap do Primeiramente, MR13 etc.

Sara: Nossos gostos são até parecidos, gostamos de Facção a Dina Di, atualmente tenho escutado bastante o trabalho Das Lavadeiras, Vietnã, Ju Doroteira, Sujeira Urbana e meus amigos lá da minha cidade mesmo que nunca sai das minhas playlist como Sk Family, Gaiva e SubLoco que fez história dentro rap no interior de SP.

 

RAPLOGIA: Como é a questão de representatividade e auto estima pra vocês?

Issa: É muito importante que tenhamos isso explícito no nosso som, o quanto uma autoestima elevada pode salvar uma vida. Principalmente para mulheres fora do padrão. Ser uma mulher fora do padrão e manter sua autoestima elevada é uma tarefa difícil, mas saber que tem outras mulheres que assim são e conseguem é inspirador. Por isso tentamos passar essa visão nos nossos sons, para que mais mulheres se inspirem e busque sua auto aprovação

Sara: Representatividade é muito importante sim, e hoje vejo e vivo isso diariamente quando recebo mensagens de mulheres que dizem que mudamos suas vidas através dos nossos sons, e que além de se enxergar como mulher e querer fazer algo, também se enxerga como pessoa e passa se amar e aceitar como é.

 

RAPLOGIA: Pra Sara, que morava em São Carlos, interior de SP, quais as mudanças que você notou entre o interior e capital (em questão de oportunidades, produção, etc)?

Sara: Em São Paulo tudo acontece muito rápido, às vezes estamos em casa e do nada surge uma oportunidade pra amanhã às 7 da manhã, e se eu ainda estivesse no interior pode ser que isso não seria possível, saca? Mas também sinto falta do calor da cena do interior. Mas reconheço o bem que vir pra cá fez na minha vida além do profissional, como encontrar várias mulheres dispostas a fazer cultura e estar junta pro que der e vier, isso é maravilhoso e com certeza é o que me mantém firme por aqui.

 

RAPLOGIA: Falem sobre a Dominação – A Batalha e a DMNA (selo independente). Como é pra vocês essa questão de coletivos e formas independentes para fortalecer as mina?

Issa: A DMNA (Decidimos Mover Nossas Asas) foi criada com o intuito de ser uma produtora e um selo, desde o começo, independente e feito só por mulheres, acreditamos muito que além dos 4 elementos da cultura Hip Hop, existem muito mais profissionais por trás que fazem a parada acontecer. E tem um monte de minas fazendo isso acontecer com qualidade de mercado, saca? O que precisamos é de visibilidade e representatividade. A DMNA veio pra fortalecer mulheres tanto no RAP como no audiovisual e assim, produzir conteúdo independente sem que as minas corram o risco de ter seu trampo desprezado, ou até de serem assediadas como ocorre muito por ai.

A Batalha foi também uma ação pensada pela DMNA (antigo coletivo Respeita Tiu), uma forma de fortalecer as mulheres dentro da cena do freestyle de SP, e uma maneira de trocar conhecimento num diálogo entre mulheres através da rima improvisada, vem dando muito certo, e toda segunda feira estamos lá na saída do metrô São Bento a partir das 19h. Apareçam!

 

RAPLOGIA: De “Rap Plus Size” pra cá: o que mudou na vida de vocês? Tanto profissional quanto pessoal.

Issa: Acredito que mudou bastante nossa forma de encarar o rap cada vez mais como um trabalho, nos profissionalizarmos cada vez mais e buscar fazer cada vez mais um conteúdo de qualidade. Hoje também conseguimos nos manter com o RAP e ter uma qualidade de vida um pouco melhor do que no começo da minha carreira.

Sara: Acredito que trabalhar em coletivo tem mudado bastante coisa na minha vida quanto pessoal e no profissional, cada dia que passa temos conquistados muitas coisas que sonhei por anos e acreditava ser impossível até, e realizar sonhos, fazer shows e viajar o Brasil tem sido uma experiência muito foda.

 

RAPLOGIA: Qual foi o momento mais importante na carreira de vocês?

Issa: Não sei dizer se esse foi o momento mais importante, mas com certeza foi um dos, quando começamos a trabalhar de maneira independente pela DMNA e lançamos nosso primeiro trabalho pela produtora que foi Machocídio. Uma prova concreta de que podíamos fazer qualquer coisa por nós mesmas que sairia com a qualidade que esperamos e de maneira totalmente independente.

Sara: São vários momentos marcantes na nossa carreira, mas acredito que em cada cidade e cada mina que conhecemos nesse Brasil a fora é um momento muito importante de troca, mas ir no Manos e Minas pra mim foi algo que na real só acreditei quando estava começando a gravar o programa [risos].

 

RAPLOGIA: Como é ser mulher num meio predominantemente masculino como o Hip Hop? Vocês já passaram por situações machistas? Como encaram essas situações?

Issa: Essa é uma pergunta muito frequente nas nossas entrevistas e acredito que na maioria das entrevistas com mulheres, vocês podem ver perguntas similares. E a resposta é simples, é como ser mulher em qualquer outro meio masculinizado. O Hip Hop teve desde suas origens o preceito enraizado de que é uma cultura para homens, mesmo com tantas mulheres trabalhando desde o começo para que aconteça. Desde o começo mulheres foram invisibilizadas e silenciadas nesse meio. Desde o começo sofremos um apagamento histórico e isso prejudica e muito ainda o nosso trabalho por aqui nos dias de hoje. Ainda assim, acho que isso só me dá mais força pra fazer um trabalho bem feito e passar a nossa mensagem. Pra libertar e informar!

 

RAPLOGIA: Como falar de feminismo pras minas da quebrada?

Sara: Através do rap é um bom jeito. É um diálogo cara a cara, com vivências muito parecidas. Acho que é mais fácil das mina se identificar além do que é o feminismo nas academias.

 

RAPLOGIA: Quais os nomes de minas no Hip Hop nacional que você aponta como estrelas do presente/ futuro?

Issa: Aposto muitas fichas na Ju Dorotea, Souto MC, As Lavadeiras e Philliaz. Acho que as pessoas tem que ouvir o som dessas mina, que se hoje já tão pesadíssimas, imagine daqui uns anos???

Sara: Acredito em cada mina que se dispõe a estar nessa cena, Bivolt é uma mina maravilhosa em que acredito muito, Lili dominando a porra toda pelas batalhas do Brasil todo, as minas do OuroD’Mina que vem representando interior de SP lindamente e vish: As Guerilheiras, Aurea Maria, Aline Nega do Crime S.A., são muitas…

 

RAPLOGIA: Quais são seus sonhos e planos para o futuro?

Issa: espero que a DMNA consiga chegar num nível muito bom de qualidade de produção. Pretendo lançar mais discos e também daqui pra frente que consigamos fazer mais ações pelas minas da quebrada e pelas minas do rap.

Sara: Pretendo ter lançado outros trabalhos e ter feito parte desse levante de mulheres dentro da cena do Hip Hop e ver rap nacional de fato respeitando e aceitando o corre das minas na cena, pra que nenhuma mina mais precise se submeter ou sofrer algo pra estar fazendo o que ama.

 

RAPLOGIA: Para finalizar, deixem um salve para as minas que estão começando na caminhada de seguir seu sonho no Hip Hop. 

Issa: Nunca duvidem do seu potencial e sempre busquem conhecimento. Conhecimento é a maior chave para a evolução!

Sara: Acreditar no seu sonho é essencial, se junte com outras mulheres, se fortaleçam, porque sozinha a gente cai, mas juntas é construtivo.

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