Contrafluxo, carreira e futuro: Com a palavra, Rodrigo Ogi.

No dia 08 de Abril, o Raplogia esteve presente no evento Original Pinheiros Style, com shows de Matéria Prima e Rodrigo Ogi. Na ocasião, batemos um papo com Matéria sobre carreira, os novos trabalhos e diversos outros assuntos sobre sua arte.

Hoje temos a segunda parte da cobertura desse evento incrível, trazendo uma entrevista exclusiva com nosso vovô do RAP, Rodrigo Ogi, dono de alguns dos trabalhos mais relevantes da cena atual, mesmo sendo um cara que está a tantos e tantos anos nos trazendo ótimos trabalhos, tanto solo quanto pelo extinto Contrafluxo.

Pega a visão!

[Entrevista feita pelo nosso colunista Arthur Garbossa]

Rodrigo Ogi | Fotos por Marcola
Rodrigo Ogi | Fotos por Marcola

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Raplogia: Ogi, desse o último lançamento, “Nuvens” você fez um clipe meio que dê surpresa, né, não teve nem uma divulgação nem nada assim. Teve algum motivo especial para isso ,já era um plano que você pensava?

Ogi: Esse EP foi feito só com verba do meu bolso, e um pouco de verba que a OUS me ajudou. Só que não daria pra pagar acessória , não daria pra pagar muitos clipes, então todos os clipes que estão saindo desse disco foram feitos em parceria com outros amigos, e tá sendo feito tudo que na faixa, tem tudo isso. Essa coisa de você trampar independente, as vezes você não tem orçamento, não tem nada. Então, eu anuncio que vou lançar o clipe, eu sempre anuncio, eu anuncio tipo um mês antes, tipo: “ó, vou lançar o clipe tipo, dia 4 de abril,tipo vai sair o clipe”.

Raplogia: Só que você não usa mídia, só seu perfil pessoal mesmo, né?

Ogi: É então, se eu tenho grana eu vou usar a mídia mesmo, mas como a gente não tem grana pra fazer muitas vezes as coisas, tem um orçamento curto, então eu tenho que fazer no meu orgânico, na minha rede social, e as vezes não tem tanto alcance, chega nos meus seguidores, mas outras pessoas acabam não vendo, então é mais ou menos isso.

Raplogia: Um outro lance que eu também queria te perguntar muito, você também já é velho de guerra né, desde o Contra Fluxo, da sua carreira solo. O que você acha que mudou desde que você começou sua carreira solo, até o seu último álbum?

Ogi: A minha carreira solo começou em 2011, lancei o “Crônicas Da Cidade Cinza”, dali pra cá tem muito mais gente fazendo rap, mas eu ainda acho que tem uma cena de RAP meio que limitada, por exemplo, que nem hoje, um cara que quer ir num show de RAP a um preço barato, e ver um artista que ele admira, as vezes a informação não chega ali e ele acaba não indo. E, desde que eu comece,  a coisa ficou mais fácil, pra gravar, pra produzir videoclipe, pra você divulgar seu trabalho na internet e tal. Por exemplo, eu faço meu som aqui em São Paulo, meu som chega lá em Manaus. OK. Só que ainda não é aquela coisa. Mainstream melhorou, mas ainda a gente tá caminhando.

Raplogia:: Seria algo como que artistas estarem vendo shows,mas como se não tivesse um mercado meio que consolidado, seria algo com que você não conseguisse divulgar seu trampo, e o público comparecesse ao seu show,s seria isso?

Ogi: Não, não, eu não digo todo show. Tem show que eu espero 100 pessoas e tem 800, tem show que eu espero que vai encher e tem, por exemplo, 50 pessoas. Mas eu não me importo muito com isso, eu acho que o público do RAP tá crescendo cada vez mais, mas tem aquela divisão, tem o RAP desse tipo, tem o RAP daquele tipo, e as vezes é meio complicado de falar sobre isso cara, é uma coisa que tem que ser mais estudada pra falar, sabe, se eu tivesse a formula certa, sabe…

Raplogia:: Já estaria rico, como todo mundo, né..

Ogi: É, mas taria trazendo uma par de gente comigo! Mas o que eu digo é, não pode parar de trabalhar, porque eu amo essa parada, então,mesmo se tivesse 50 ou 3.000, eu vou tá fazendo.

Contrafluxo
Contrafluxo

Raplogia (Marcola): Ogi, queria saber, eu sou fã do Contra pra caralho, fez 10 anos esses tempos, e eu queria saber o que mudou daquela época pra cá, qual foi o aprendizado, que foi 2007 né, fazem 11 anos ..

Ogi (Entrevistado): A gente lançou o primeiro disco do Contra Fluxo em 2005.

Raplogia (Marcola): Foi o Missões e Planos

Ogi: Logo que minha mãe faleceu, eu lancei esse disco, e a gente fazia uma porrada de show, a gente fazia tipo uns 3 shows por semana e ganhava,tipo uns 100 reais pra dividir em 6 caras, tá ligado.

De 2008 pra frente a coisa começou a entrar dinheiro, que lancei meu primeiro disco, o Crônicas, foi que eu comecei a viver de RAP, antes eu estudava e tinha um trabalho a parte pra poder me manter.

E depois desse disco… ,e depois a cena foi mudando também, porque vários caras quebraram pedras pra todo mundo chegar aqui, não posso dizer que fui eu, não, antes de mim tinham vários.

Depois de 2008 pra frente a coisa começou a ter um mercado, não existia mercado. Era só amante de RAP que tava no show ,ou então o cara que tava perdido ali, ou então o cara que gostava de ver shows de rock, de forró e de RAP , e ele ia lá ver teu show, só que isso não dava renda.

Raplogia (Marcola): Eu pergunto isso porque nessa época, 2007 ,você via Contra Fluxo ,Ruas Vazias, Rua de Baixo, Mzuri Sana, 4ª Estrofe e tal. Foram uns caras que abriram a cena pra caralho, Ascendência Mista, foram uns caras que abriram muito assim. A gente fala muito de Racionais, mas essa galera de 2007 abriu a cena pra caralho, né

Ogi: É, eu não posso dizer que a cena tava estagnada, é que nem aconteceu uma coisa com o skate nos anos 90, que o Plano Collor quebrou o skate, e o skate ficou só quem tava era ,quem gostava, nessa época era isso. Não to sendo machista, tá ligado, mas existe uma coisa que show de RAP só tinha homem, tinha muito mais violência devido a isso, muito mais homem na parada, e a mulher é uma coisa que tipo, que trás a paz, harmoniza a coisa, e legal eu ver que eu faço um som que eu falo “caralho, bagulho tá atingindo vários públicos”, não tinha isso, era uma parada era só pra MC, pra quem gostava de RAP . E tinham vários caras que iam pra : “ Você não sei o que!…” . Te xingar no palco, E você ser sagaz nessa hora, por que se o cara viesse embaçar na sua, é isso ..

De 2008 pra frente,a coisa mudou, e acho que hoje a coisa tá doce, pra o que já foi antigamente.

Raplogia: Então eu comecei a colar em RAP assim, assiduamente, nessa época, foi bem 2008 mesmo, o que tipo, eu como alguém que só vai em role e assiste show comecei a ver que tem mais grupos fazendo coisas diferentes, e começou a aparecer uma coisa que o mercado mais de nicho, coisa que o Parteum faz assim ..

Ogi: Naquela época tinha muita coisa diferente cara, tinha um cara que chamava Quatorze, que fazia um som que era muito diferente, que hoje em dia cê já vê uns caras fazendo ,só que ele já fazia e ele é da Leopoldina ali, e só ele fazia aquilo ,tinham vários caras mas que era muito pouco divulgado. Cê pega o som ali no site do Quinto Andar ou através de ICQ, ou através de um site ou outro que publicava, por que os sites também tinham meio que um preconceito com esse novo RAP que tava vindo, que é uma coisa até normal. É o que eu falo, hoje por que eu vou ficar bringado com um muleque que tá fazendo um som desse tipo, sendo que é a geração dele. A minha geração gostava de um tipo de música e a geração do meu avô gostava de outro tipo de música, e a coisa anda.

Raplogia: É, tem que ser filho do seu tempo, né.

Ogi: É, mas também não quer dizer que você vai estacionar e não acompanhar mais a música né, sendo que você tem que se adequar conforme o que tá rolando, você tem que acompanhar. Tipo, ó, os caras tão fazendo uma parada assim, ok. Vamo tentar fazer uma parada que “ó, não vamos estacionar nossa música” ,tá ligado? Nunca pode deixar a música parar e sempre tem que tá tentando evoluir.

Rodrigo Ogi | Foto por João Victor

Raplogia (Marcola): Eu sou lá do Parque Bristol (zona Sul de SP), tô ligado que você é nascido lá no Jardim Celeste,  e tem muito pixo seu lá, mano, coisa de 1996 e tal.  Eu queria saber o quanto o pixo te influenciou pra fazer RAP, tanto na vivência da rua de madrugada, quanto na estética do pixo em sí?

Ogi: O Mano Brown e a pixação foram minhas influencias. O Mano Brown com as letras, com Holocausto Urbano,e pixação com vivência que eu tive que ter na rua, porque cê vai pixar um muro, não é só polícia que vem embaçar na sua, vem taxista por que quer ser herói, tem morador,que não quer ver sua casa pixada, guardinha de rua, então cê tem que saber sair na mão até, correr muito. Então isso me ensinou toda essa malandragem, tá ligado? Então graças a Deus e graças a minha mãe também, eu sempre fui um cara muito humano, então nunca fui um cara de querer “não vou pixar sua casa branquinha, vou pixar muro velho”, muro que vai ficar pra antiga, uma casa que tem um muro que é pra antiga, eu vou fazer, ,tá ai,e vai ficar ai, é um patrimônio mano, Foda-se o Dória, hahaha.

Raplogia (João): Você falou sobre a música que não pode parar no tempo, sobre a progressão e, numa entrevista pra VICE, você disse que o processo desse último EP foi muito rápido, por que você descobriu uma técnica, que técnica é essa,qual é o seu processo criativo?

Ogi: É, tem um menino de 1 ano e 5 meses em casa, que precisa de leite, fralda, escola e convênio médico. Então mano, se o processo já foi rápido com o “Pés No Chão”, tá muito mais rápido ainda, por que eu to lançando dois singles por mês, eu só não vou continuar com esse processo de dois singles por mês, talvez, talvez eu lance um, porque eu tiro tudo do meu bolso, mas esse ano aqui eu vou lançar pelo menos uns 15 singles ai.

Raplogia: Já pode dar Spoiler de algum ai?

Ogi: Pô, vai ter um ai em abril que é junto com o Dcazz, que eu acho que canta muito, e um beat que eu acho que é do “Crass”, que é um cara que eu acho que é de Santos. Também vou lançar uma que é com a Souto, que é um beat do Beli Remour, e mais uma outra que é solo minha, beat do Nave, e ai em Junho ou Julho, dai pra frente, vai ter várias, mas ai não posso dar Spoleir, corta ai, hahahaha

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[Fotos por Marcola e João Victor]

 

 

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Marco Aurélio

Fotografo shows sujos onde frequento, escrevo rimas que nunca vou lançar e faço pautas sobre coisas que vocês (ainda) não conhecem.