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Criador x Criatura

By 19 de abril de 2018 No Comments

Certas coisas viram coisas maiores ao se juntarem: leite e Toddy, time e torcida, Artista e arte. O que é um caderno de letras sem a interpretação de um rapper? É um caderno de letras. Sempre senti que artistas são doutores Frankenstein. Criar é uma coisa, dar vida é outra.

Depois de dar vida a uma obra de arte, seja ela qual for, o criador cria um vínculo com a criatura. Querendo ou não, ele é o responsável por aquilo, que só existe graças a ele.

Dito isso, chegamos ao ponto central do raciocínio: e o caminho inverso? É possível separar a arte do artista? É possível ignorar os crimes e as feridas causadas por um artista e seguir apreciando a sua arte? Trouxe alguns exemplos que nos provam que estamos em constante negociação com o que aceitamos ou não.

1985, Nova Iorque. A artista Ana Mendietase joga” da janela do seu quarto, no trigésimo quarto andar de um prédio. O principal suspeito é seu marido, que morava com ela e estava no apartamento na hora da morte. Na gravação da ligação para a polícia, seu marido diz que discutiram, que ela correu para o quarto e se suicidou. Seu marido era Carl Andre, famoso escultor creditado como criador da escola minimalista dos anos 60. Até hoje museus ao redor do mundo expõe seus trabalhos, apesar de protestos dos movimentos feministas.

2017, Inglaterra. O pequeno Ditchling Museum inaugura a exibição sobre Eric Gill, um tipógrafo, pintor, escultor, enfim, um dos maiores artistas britânicos do século XX e conhecido, desde 1989, por abusar sexualmente de suas duas filhas (retratadas sensualmente em muitas de suas obras). O tema da exposição, inclusive, era esse: É possível apreciar a arte de Eric Gill sabendo o que ele fazia?

2009, véspera dos Grammy Awards. Chris Brown agride Rihanna e é condenado. Depois disso, lança 4 CD’s e ganha 3 discos de platina.

Nós não separamos.

Woody Allen, Roman Polanski, Caravaggio, R. Kelly, Mike Tyson, Edmundo, etc. A lista é enorme. Talvez a loucura do artista, seus crimes, suas perturbações sejam extremamente atraentes. Saber sobre as obscuridades só nos deixa mais curiosos e mais fascinados pela sua arte. Nós amamos a imagem de Bad Boy, de fora da lei, de proibido.

Não sei se eu acho isso certo ou errado, não sei se é possível fazer essa separação. Na verdade, comecei a escrever esse texto tendo certeza de que a separação era necessária e de que uma pessoa que cria coisas maravilhosas mas que faz mal a outra pessoa não merece os espólios da sua arte. Pelo jeito, eu me enganei, isso não é possível.

A arte é muito mais forte do que nosso julgamento de certo errado. Ela nos joga contra nossos próprios princípios, não da pra lutar contra ela. No final, o que te deixa pior: pensar nas atrocidades cometidas pelo artista ou pensar que relevamos tudo isso por alguns minutos de satisfação? A arte é profana, é paixão. No final das contas, a arte protege o artista. Ou melhor, o artista é insignificante perante a arte e ela o sobrepõe. É o Frankenstein que mata o doutor, para a sorte do doutor.
Joe Sujera

Joe Sujera

Rapper desde 2008, redator desde 2014, problema desde 1992.

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