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Wyoming é a viagem ao centro de “ye”

By 25 de junho de 2018 No Comments

Por João Victor Medeiros

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Festa de audição de “ye” em Wyoming. Foto: Ryan Dorgan para o The New York Times

Em maio deste ano, Kanye West voltou ao Twitter da maneira mais Kanye West possível, com postagens polêmicas como a foto com o boné de Donald Trump, atualizações sobre coleções novas de roupa e uma vibe “paz e amor”. Quem é fã do homem sabe que quando ele volta a rede social, significa o lançamento de algum álbum novo e assim foi. Ele não demorou a anunciar “ye”, assim como a produção dos discos de Pusha T, Teyana Taylor e o aguardado disco do Nas, prometido desde 2015 – além de um collab com Kid Cudi. Todos foram lançados no mês de junho.

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Oito dias antes da cerimônia de audição de “ye”, sabia-se que Kanye não tinha nenhuma das sete letras do disco finalizadas. É que entre Maio e Junho, acontecimentos na vida de Kanye West fizeram com que ele mudasse todo o rumo do seu disco novo.

Após os polêmicos tuítes em apoio ao presidente americano Donald Trump, dizendo que ambos tinham a mesma “energia dragão”, Kanye foi a redação do TMZ e em um vídeo disse que os 400 anos de escravidão americana soavam para ele como uma “escolha”. Repreendido no mesmo momento por um jornalista do veículo, Kanye pediu desculpas se feriu a população afroamericana e foi em direção a ele para abraçá-lo. Esse evento fez com que Yeezus recriasse o seu novo disco.

Este ponto é chave para compreender a construção de “ye” e principalmente, marca um crescimento na personalidade de Kanye West. Diagnosticado com bipolaridade e tentando viver com menos remédios possíveis, Yeezus que construiu uma carreira toda questionando quem discordasse das ideias dele, nos dias de hoje descobriu que também erra, fala merda e tudo bem com isso. Importante lembrar que Kanye não é uma pessoa de leituras ou estudo (sobre história, sociedade, etc) então o único jeito que ele aprende coisas são com experiências. E assim foi construído “ye”.

A viagem a Wyoming e consequentemente a um pouco da mente de Kanye começa na capa, uma fotografia de iPhone tirada no caminho para audição com os dizeres “eu odeio ser bipolar, é incrível” – um conceito que é complementado já na primeira faixa, I Thought About Killing You. Na música, temos a voz dele duplicada: uma em tom normal e outra com o pitch alterado fazendo-a ficar mais grave e sugerindo uma outra personalidade, que pensa em se matar.

Durante todo o álbum, o artista vai narrando o que se passou na vida dele recentemente, como o conflito com as medicações em ‘Yikes’ ou a neurose que ele ficou sobre a Kim Kardashian se separar dele após o acontecimento com o TMZ na faixa Wouldn’t Leave. Há também a desconfortável letra de Violent Crimes, onde Kanye rima de uma maneira um tanto quanto obsessiva sobre o corpo de North, sua filha de 4 anos. Quase podemos imaginar Nas dando um tapinha nas costas dele e dizendo “é, amigo, chegou a sua hora de fazer uma música estranha sobre ser pai de menina”.

Para mim, a música chave para entender o disco é Ghost Town, com Kid Cudi. No refrão dessa música, 070 Shake canta: “eu ponho minha mão no fogo para ver se ainda sangro”. É uma ótima metáfora que traduz como Kanye têm vivido: ele se coloca nas mais diversas experiências possíveis apenas para saber qual será a consequência delas e para sentir alguma coisa e aprender, assim como foi com as declarações sobre escravidão no TMZ e as polêmicas no Twitter.

Recriar um disco em oito dias parece ter sido uma escolha ruim de Mr. West. “ye” soa como um álbum preguiçoso, que apesar de bons samples, sonoridade valiosa e pontos altos como as participações da novata 070 Shake e o refrão de Valee, não nos pega com grandes músicas ou bons versos. Passa como bom por ser assinado por Kanye West, mas se fosse um trabalho desse nível fosse realizado por qualquer outro, seria mediano para baixo. É como um bolo feito às pressas, que pode até estar saboroso mas também está desmoronando, ou seja, deveria ter ficado no forno por mais tempo.

Em “ye”, Kanye nos leva à uma viagem à Wyoming e ao seu interior, em um caminho que só será fascinante se você for fã dele.

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