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O combate ao fascismo e a ira de Diomedes Chinaski

By 30 de setembro de 2018 No Comments

O pernambucano Diomedes Chinaski é responsável por dois acontecimentos históricos do rap nacional: o grito ensurdecedor de Sulicídio, ao lado de Baco Exu do Blues, quando evidenciou uma cena polarizada entre Rio e São Paulo, e o rap mais politizado de 2018, quem sabe até do século XXI, no Brasil, uma verborragia insana contra o presidenciável mais rejeitado do país.

Os brasileiros ainda têm uma semana para decidir em quem votar nas eleições deste ano e todos são livres para fazer qualquer tipo de escolha nas urnas. Mas se você afirma ser um adepto da filosofia hip-hop, é no mínimo incoerente compactuar com as ideias de Jair Bolsonaro, pois elas são opostas ao que o movimento de Afrika Bambaataa prega.

E se não é possível explicar isso nem com desenhos, o Comunista Rico lançou uma diss contra o candidato do PSL na última sexta-feira, dois dias depois do general Hamilton Mourão, vice da chapa de Bolsonaro, criticar o 13ª salário e compará-lo a uma jabuticaba brasileira. A resposta às palavras e atitudes absurdas, extremamente necessária num momento tão conturbado da nossa política, veio como um tiro de escopeta.

Não é hora para os MCs ficarem de rabo preso e deixarem de se manifestar por medo de desagradar fãs que tenham pensamento oposto e foi isso que o artista fez ao som do instrumental beligerante de Deryck Cabrera. Porque o rap deve declarar guerra a qualquer tipo de ideologia intolerante e preconceituosa que flerte com o fascismo. Os pensamentos atrasados que influenciam significativa parcela da população não podem contaminar a cultura, caso contrário estaremos perdidos.

Com direito a discurso de Carlos Marighella na introdução da faixa, a letra de Disscanse em Paz é um desabafo de quem não aguenta mais ver, ouvir e presenciar o conservadorismo estúpido no Brasil. Nordestino, assim como o rapper, o guerrilheiro fundador da Ação Libertadora Nacional (ALN) é uma grande referência para o hip-hop, como em Mil Faces de um Homem Leal, dos Racionais MC’s.

A produção musical criou uma atmosfera combativa e contundente, potencializada pela entrega de um revoltado Chinaski no microfone. O rapper expressa toda a sua repulsa por um parlamentar ignorante, destemperado, hipócrita e, acima de tudo, altamente persuasivo. Isto é comprovado pela imensa quantidade de dislikes e comentários negativos ao single, que revelam a cegueira, provavelmente incurável, do eleitorado de Bolsonaro.

Se este hino antifascista do rap nacional conseguir provocar reflexão em ao menos um invidíduo que apoie o candidato, já será uma grande vitória, tamanha é a convicção destes seguidores fanáticos. Disscanse em Paz é uma canção que precisa ser tocada em cada roda de rima no Brasil, em cada evento de rap, em cada setlist de DJ e em todos os espaços públicos possíveis, porque é fundamental que esta mensagem seja reproduzida incontáveis vezes.

O hip-hop é enfático: ele não, nunca, jamais, em hipótese alguma!

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Victor Costa

Victor Costa

Jornalista e flamenguista. Fã de Quinto Andar e Sabotage, é um curioso sobre o universo hip-hop. Escreve a coluna "O Rap pelo mundo" e produz vídeos para o canal do Raplogia.

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