Decodificando com Genius: Folhas

Fala galera, estamos retomando a coluna “Decodificando com Genius”. Aproveitando que o site está de cara nova, vou também falar de uma música solo para variar um pouco, algo que já vinha querendo fazer já faz algum tempo. A faixa escolhida faz parte do Perfil da Pineapple e Brainstorm Studios, que até o momento desta publicação já tem 20 lançamentos. A ideia desta série de vídeos é apresentar os MCs aos ouvintes em produções que são enviadas para os organizadores, podemos dizer que são faixas estilo performance, no sentido que na maioria dos casos a temática é falar um pouco de si mesmo e da sua qualidade lírica.

Tem algumas faixas do projeto que eu gostei bastante: “Super Hip-Hop” do Choice, “Eram Pra Tá” do Sant, “Herói Bandido” do Cris e “A Um Passo” do Coruja BC1 & Juyè. Porém, a faixa escolhida é do MC do momento, e creio que o favorito de muitos: “Folhas” do Bk’. Esse favoritismo não é existe à toa, já faz mais de um ano, desde o lançamento de Castelos & Ruínas (2016), que o MC carioca tem mantido um nível de qualidade extremamente alto.

A faixa possui duas produções, do Malive e do M2K, que complementam a ideia do Bk’ utilizar alcunhas diferentes e, consequentemente, maneiras diferentes de rimar em cada uma das partes. A primeira parte é rimada pelo Flow Zidane e a segunda pelo Ekelele Flow, ambos já conhecidos pelos fãs, mas que agora ficam ainda mais evidentes. Lá no Genius, a página possui um número razoável de acessos, com cerce de 3 semanas de lançamento já alcança 175000 visualizações, e conta a com participação de 37 usuários no conteúdo que está lá organizado. Sem mais delongas, vamos falar um pouco da faixa.

Vale lembrar: clique nos links nas letras para ir para as anotações no Genius.

Flow Zidane

Zidane é o flow<br> Zidane é o flow<br> Zidane, Zidane
― Bk’ (Nectar) – Folhas

Seguindo as características do jogador ao qual Bk’ se inspira para essa alcunha, neste primeiro trecho da música o MC mantém um flow que aparenta ser lento, mas é possui uma certa velocidade (Zidane, o falso lento), em determinados momentos a quantidade de palavras que são colocadas em cada rima aumenta, o que resulta numa certa agressividade na entrega.  Com relação a lírica, neste momento da música o MC questiona bastante a religião e a política, fazendo analogias, metáfora e usando referências.

Deuses abandonaram o mundo, tamo salvando
Somos cachorros limpando as merda do dono

Questionar os deuses é também questionar os criadores, neste sentido Bk’ sutilmente realiza uma crítica à sociedade, no sentido que quem vive nas regiões de renda mais baixa tem que se virar para vencer as adversidades ou os problemas criados por aqueles que tomam as decisões (quem possui dinheiro). Na maioria dos casos, como ocorre neste trecho, o MC carioca faz críticas com duplo sentido que passam despercebidas ao ouvinte.

Matamos por diversão e culpamos as crenças
Mais medo de fazer filhos que pegar doenças

Assim como nas linhas discutida anteriormente, este trecho não se refere apenas as crenças no sentido religioso da palavras, mas também aos padrões sociais. Perceba que Flow Zidane exemplifica sem ponto com um comportamento perigoso da juventude atual, o sexo desprotegido. O medo da juventude reside em serem mães e pais ainda novos e não pegar doenças, por isso os métodos contraceptivos são utilizados para o primeiro caso, dando preferência a pílulas ao invés de camisinhas. É notável que quando Bk’ incarna esta personalidade suas composições são carregadas de duplos sentidos e críticas sutis, tal qual era o jogo cheio de classe do Zizou.

Dilúvio na polícia, dilúvio na política
Dilúvio na porra da República

Cês tem o dom de apagar lembranças pra continuar vivendo
É o vermelho da vergonha causado pelo vermelho de sangue

Seguindo com as inúmeras críticas, o MC carioca utiliza à referência ao dilúvio para críticas a polícia e a política ao mesmo tempo que interliga a ideia ao sangue derramado e esquecido pela população. As lembranças que iriam embora com o dilúvio, é também a falta de memória do povo que continua a votar nos mesmo políticos que permitem o derrame de sangue, tanto literal, permitindo, por exemplo, a entrada da polícia em uma favela , quanto figurada, quando ocorre indiretamente, com decisões que afetam nosso cotidiano, tais quais na educação ou economia. Assim como era difícil acompanhar o jogo do Zenedine, é difícil de fazer todas as ligações quando você ouve pela primeira vez uma música do Bk’.

Nossos sonhos tão perto e nós distantes um do outro
Nossos sonhos a um passo
Nossos corações quilômetros
É o preço? Eu cresço
Só pra ficar maior do que a saudade

Além das críticas e tiradas sensacionais, há em diversos momentos, principalmente quando Abebe veste a personalidade do Flow Zidane, um tom extremamente poético em suas linhas.  As consequências do sucesso afasta muitas pessoas do Bk’, porém, no seu caso, por estar fazendo história na música, mesmo que se distancie destas pessoas, elas irão se enxergar nas letras do MC, ou seja, superarão a saudade. Contudo, também podemos interpretar este trecho de forma mais geral, sem pensar especificamente no próprio Bk’, mas sim como algo que acontece com muitos ao buscarem realizar seus sonhos.

Pais são quartéis
Treinando os filhos pra guerra do mundo
Pais são quartéis
Treinando os filhos pra guerra do mundo
Pais são quartéis
Treinando os filhos pra guerra do mundo

Há tanto amor em nós, amor maior que nós
Não sabemos mostrar pra nós mesmos
Há tanto amor em nós, amor maior que nós
Como mostrar pra nós mesmos?

O questionamento que fica no fim da primeira parte contradiz o início do verso no qual o MC fala com certa raiva dos acontecimentos por ele observado e vividos, é como se ele percebesse neste final que devemos fazer o bem e talvez não haja exemplo melhor disso do que o amor dos pais pelos filhos, que devem preparar sua prole para viver nesse mundo em guerra, novamente, que podemos entender no sentido literal, a guerra nas ruas, e figurativo, num sentido mais social ou mesmo nas redes sociais. É também o oposto do que é transmitido na segunda parte da música com Ekelele Flow. Esta oposição e altos e baixos foram a marca Castelos & Rúinas (2016) e continua a ser uma marca nas composições do Bk’.

Ekelele flow

Ekelele flow<br> Hahahaha….<br> Ei!
― Bk’ (Nectar) – Folhas

Na segunda parte da música, com  a mudança de produção, Bk’ também muda de personalidade, adotando agora o Ekelele Flow. Neste momento, o MC carioca passa a ser ainda mais questionado, como se deixasse a raiva tomar conta de suas palavras. Explorando a cadência, sua voz e os efeitos da produção, a lírica passa a ter um crítica social ainda mais forte. Outra aspecto interessante a ser destacado são as referências e alusões utilizados nesta parte da música.

Não precisa perguntar quem é
Você já sabe quem vem com o som pesado batendo na tua porta

Logo de início, Ekelele Flow mostra toda sua confiança, reflexo da boa fase do MC. Não podemos deixar de concordar com este trecho, pois as últimas músicas e participações do MC – “Contatos”, “Rolezinho”, “$$$$$$$”, “Vivendo Avançado” e “O Mundo é Nosso”– tem agradado os fãs do MC e de rap, que sem dúvida aguardam ansiosamente suas próximas participações e acima de tudo seu próximo trabalho.

Sei que vão me julgar
Odeiam ver um preto no poder e não é novidade

Bk’ também não deixa passar a oportunidade de relembrar que os negros continuam a sofrer preconceito, sendo que faz isso de forma sútil em muitos momentos, ressaltando algumas situações que passam despercebida ou respondendo as racistas de forma abusada. Em a “Disgraça do Ano” do Baco, o MC carioca também usa esta personalidade para rimar, e nesta faixa também faz diversas referências a história do negro e o racismo estabelecido nesta história. Por exemplo, na linha Essas cicatrizes não permitem eu esquecer de onde eu vim, que tanto se refere ao contexto ao qual cresceu quanto a história dos negros e o preconceito que é resultado deste desenvolvimento histórico.

A Vitória me disse: eu te pari
Não permita que nada te pare, menino
Siga na sombra, na sombra sigo
Vão te chamar de vendido, divertido

Este trecho me lembra muita a faixa “History” do JAY-Z, o qual personifica abstrações como mulheres, no caso do MC americano ele faz isso com a Vitória (sua mulher), a Morte (sua “amante”), a História (sua filha). Abebe simula uma conversa com a Vitória (sua mãe) que lhe passa conselhos a respeito dos obstáculos da vida, sejam elas as dificuldades ou as pessoas que querem vê-lo derrotado (o oposto da vitória). É também uma alusão a deusa grega Nice (nike), a deusa da vitória.

Vocês não sabem o que vem, sou Shinobu Sensui
Sou caminho, sou Hennessy
No meu caminho, renda-se

Sou Bruce Lee, reinventando da minha forma
Foda-se as fórmulas retrógradas, que só aos retrô agrada

A versatilidade do Bk’ não é algo que está apenas nas suas múltiplas facetas evidenciadas nesta faixas, mas também em sua forma de escrever. Este trecho demonstra isso pelas múltiplas referências/alusões – o anime/mangá Yu Yu Hakusho, as faixas “Caminhos” e “Henessy”, o ator e instrutor de artes marciais Bruce Lee, e a forma como ele relaciona as mesmas – a partir dos múltiplos sentidos entre as palavras e a ideia que remete cada uma das referências/alusões citadas.

E a vida tá aí pra tu criar
Mas ela não tem Instagram
Pra tu curtir mil fotos e esperar ela te notar

Uma das coisas que eu acho que a galera do Néctar e da Pirâmide Perdida consegue explorar bastante é a questão das redes sociais, criando e se inspirando em memes, bem como se aproveitar se situações bastante atuais. É o que ocorre neste trecho, no qual Bk faz alusão ao sucesso/meme “Puxa Crush”. Ao mesmo tempo, o Ekelele Flow critica as pessoas que ficam nas redes sociais reclamando, mas não fazem nada para mudar a realidade à sua volta. A intertextualidade é forde com essa galera.

Interligando as múltiplas facetas do Bk’

Embora Bk’ se coloque com diferentes personalidades e alcunhas nesta e em outras músicas, todas elas fazem parte de um todo que podemos ver descritas no refrão e na finalização da música.

Vou me vingar nas folhas, árvores ao chão
O tempo que eu passei acorrentado
Me fez louco, pela falsa liberdade

Já que sair da bolha não é mais opção
Voltamos no tempo, perdemos a memória
Nossos valores são só as jóias

O refrão da faixa funciona em ambas as produções e para ambos os versos, pois sintetiza de certa forma as temáticas exploradas pelo MC carioca e também seu estilo de escrita. A partir das metáforas:

  • Folhas podem dinheiro, páginas escritas ou as folhas de uma árvore (que representa a história).
  • Bolha para falar das bolhas sociais, sendo estas das redes sociais ou nós mesmos;
  • Jóias aparecem no seu sentido literal, mas também podem adquirir seu sentido figurativo, de valores pessoais.

Todas elas estão atreladas tanto à escravidão, tanto com relação à história dos negros quanto a mentalidade de uma pessoa de forma geral. Estes elementos ganham ainda mais valor na finalização da faixa quando Bk’ faz uma pequena mudança no trecho do refrão.

Quero sair da bolha
Planetas ao chão
Eu quero sair da bolha
Planetas ao chão
Eu quero sair da bolha
Planetas ao chão
Eu quero sair da bolha
Planetas ao chão

A metáfora da bolha entra em destaque, pois se relaciona com o mundo (planeta) que cada um de nós constrói, ou seja, nossa perspectiva do que está ao nosso redor. Ao mesmo tempo que temos que romper com essa bolha para conhecer outros mundos, também devemos acabar com esse limites impostos para nos aproximarmos, colocarmos no mesmo nível de importância. Assim, não adianta criticar sem entender e nas letras do Bk’ percebermos uma pessoa com um ponto de vista com relação ao mundo bastante para frente e interessante de ser ouvido, lido e discutido.

Quem ganha com isso tudo?

Bem, fica evidente que poderíamos ficar falando muito tempo sobre esta faixa e outras do Bk’, explorar suas diferentes facetas, mas a ideia é perceber que Abebe é um fenômeno a ser estudado, o que tem refletido no Genius, onde o MC é um dos mais anotados e acessados. No fim das contas quem ganha com isso somos nós que gostamos de discutir sobre rap e a cena, que começa a ganhar cada vez mais adeptos do gênero e MCs que prezam pelas letras começam a ganhar destaque – algo indispensável para a cultura. Até o próximo “Decodificando com Genius”.

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