“O Rap me criou moralmente, não teria como escolher outra coisa para fazer”: conheça Mulambo

Do Capão Redondo para o Raplogia. O Mulambo chegou, e dessa vez foi para falar de sua carreira a parte do grupo Semente Cinza, o qual é integrante junto de Guzz Mc. O lançamento do videoclipe Apelão, uma releitura de Backseat Freestyle do Kendrick Lamar, dá início aos trabalhos solo do jovem paulistano de 20 anos.

Com isso, trocamos uma ideia com o Mulambo para saber mais sobre sua carreira solo, projetos futuros e o que o motivou a seguir carreira no Rap. Confere aí:

Raplogia: Nos conte sobre sua trajetória na música. Como chegou até o Rap?

Mulambo: Na verdade, lá em casa eu sempre tive muito acesso a música. Sempre ouvi muita música de gêneros variados, por cada um gostar de escutar uma coisa. Consequentemente, por ser o mais novo, acabei ouvindo tudo com todo mundo. Minha mãe sempre ouviu muito Samba, muito Pagode. Meu irmão sempre ouviu Reggae e meu pai que foi a principal influência pra isso tudo, sempre gostou de Samba, Samba Rock e principalmente, Rap.

O meu primeiro contato com o Rap foi quando eu tinha oito anos, e nem fui eu que cheguei até ele, ele chegou até mim. Meu pai estava arrumando o carro e colocou Chora Agora, Ri Depois do Racionais. E foi a primeira vez que eu realmente parei para escutar Rap. Por morar em quebrada eu já tinha ouvido antes, passava tocando nos carros, os moleques lá cantavam também. Mas foi naquele momento em que eu entendi o conceito.

Foi amor à primeira vista. Como aqueles caras conseguiam contar a realidade do lugar onde a gente vivia e tanta gente ouvir? Sabe quando a criança sonha em ser astronauta? Tipo, um sonho muito distante? Pra mim era aquilo. Aquele era o meu sonho. É ainda. Chegar a um patamar onde as pessoas parem pra ouvir o que eu tenho pra falar, e tudo ser verdade.

Raplogia: Quais são suas influências? Tanto nacionais quanto internacionais?

Mulambo: Minhas influências mesmo são nacionais, principalmente os raps mais antigos. Eu demorei para ter acesso as coisas da gringa, fui conhecer Rap Internacional lá com os meus 16. Então não posso falar que fui influenciado por 2Pac, Biggie….Eu sei a importância que eles têm, mas eu descobri um pouco depois. Desde moleque sempre ouvi muito Racionais Mc’s, Realidade Cruel… e não só Rap. Bob Marley, Peter Tosh, Cartola, Samba Rock, um pouquinho de tudo. Agora internacional, posso falar da galera que eu acompanhei na adolescência: Jay-Z, Eminem e atualmente, o que deve ser a maior referência para muitos é o Kendrick Lamar. O cara é gênio.

Raplogia: Por que escolheu o Rap para seguir carreira?

Mulambo: Na verdade, quando eu comecei a ouvir Rap com frequência, era tudo um sonho distante.  Pensava: um dia quero estar em cima de um palco, com as pessoas prestando atenção no que eu estou falando.  Quero buscar um jeito de contar a minha história de um modo que as pessoas se identifiquem e que as ajudem de alguma maneira. E assim, o Rap acabou se tornando minha válvula de escape. Foi onde aprendi o que era certo e errado, o que eu devia ou não seguir. Fui criado moralmente pelo Rap, acho que nem teria como escolher outra coisa para fazer.

Raplogia: Fale um pouco sobre a formação do Semente Cinza.

Mulambo: O Semente Cinza começou por volta de 2014/2015. Eu ia muito na casa do Gabriel, primo do Guzz (outro integramente do grupo) pra tocar violão. A gente se reunia pra fazer um som e se divertir. Até que chegou a um ponto em que passamos a nos reunir com o intuito de fazer nossas próprias músicas. O tempo foi passando, fomos amadurecendo a ideia, até que o Semente Cinza aconteceu. A formação inicial era o Guzz, Gabriel e eu, mas por motivos pessoais o Gabriel acabou saindo, apesar de continuar acompanhando tudo. Então seguimos Guzz e eu contra o mundo.

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Raplogia: Nos conte sobre o Mulambo. Quais as principais diferenças do seu trabalho solo para o do SC?

Mulambo: É sempre complicado falar de nós mesmos, né? Bom…o Mulambo é um cara que tem seus 20 anos, mas que já vivenciou muitas coisas. Desde cedo sempre soube a importância da arte na vida das pessoas, e principalmente do Rap na vida de um menino negro da periferia.

No meu trampo solo vai ter muitas particularidades, minha individualidade. O Semente Cinza nunca me impediu de falar de nada, mas no meu trabalho solo vou ter mais liberdade. Quando nós criamos o grupo, combinamos de entregar a mensagem de qualquer forma. Seja como poesia, texto, Rap, outros gêneros musicais. A gente sempre se fez presente na vida um do outro e o projeto solo é uma maneira de espalhar nossa mensagem, entregar o que queremos com amplitude. Fazer com que nossas vozes sejam ouvidas tanto em grupo quanto individualmente. Isso faz com que a gente produza mais também.

Raplogia: Como foi o desenvolvimento do videoclipe Apelão? O que quer passar com ele?

Mulambo: A ideia inicial do clipe era apenas registrar minha primeira experiência solo. Chamei os amigos do bairro e enquanto fazíamos uma bagunça o clipe foi construído. Apelão foi dirigido pela Stheffany Fernanda, que é uma mina extremamente talentosa que estuda cinema e que já é minha amiga há algum tempo.

Pra esse trabalho nós extraímos o beat da música Backseat Freestyle do Kendrick Lamar e gravamos a voz por cima. Quem cuidou do tratamento da voz foi o Vinex, do selo Deck9Records.  A faixa criou um desafio para mim mesmo, já que é uma base bem difícil de rimar. Eu também quis chamar atenção pros detalhes da vida de mais um jovem negro da periferia de São Paulo.

Raplogia: Cite três artistas que você gostaria de trabalhar.

Mulambo: Na lata, assim? Ah, pra mim são: Criolo, Emicida e eu vou roubar…Racionais. Um trampo com o grupo Racionais seria o ápice. Ia ser aquele acontecimento que eu ia parar pra pensar e me perguntar: o que eu faço agora? Mas até lá espero estar com algo planejado.

Raplogia: Você também é bastante ligado ao audiovisual e a fotografia. Podemos esperar projetos do Mulambo para além dos microfones?

Mulambo: Poucas pessoas sabem, mas eu sou formado em audiovisual e o cinema sempre esteve muito presente em minha vida. Tem muita importância pra mim. Então, com certeza podem esperar muitas coisas para além dos microfones. A fotografia é outra forma de expressão, é uma válvula de escape tão eficaz quanto o Rap. É onde consigo ver que eu faço a diferença. Podem ter certeza que verão meu nome espalhado em direção de clipe, fotografia. Inclusive, já tenho alguns projetos encaminhados.

Raplogia: Quais seus planos para o futuro?

Mulambo: Pro futuro a gente sempre quer muita coisa, tá ligado? O plano é seguir trabalhando com o máximo de qualidade e responsabilidade, como estamos fazendo. A meta é viver de Rap. Conseguir fazer com que sejamos ouvidos, ocuparmos os lugares que devemos ocupar.

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Raplogia: O que as pessoas podem esperar do Mulambo daqui para frente?

Mulambo: Acho que as pessoas que tem acompanhado o meu trampo tanto as que virão a conhecer, podem esperar bastante surpresas. Dificilmente farei a mesma coisa, tô sempre buscando inovar. Ainda esse ano sai o meu EP solo, intitulado Infinito Revés, onde poderão conhecer mais sobre o Mulambo e sobre um pouco do que vivi.

Raplogia: Deixe um recado para aqueles (as) que também estão ingressando numa carreira agora.

Mulambo: Se você está começando uma carreira, em qualquer coisa, Rap ou outro estilo musical, valorize seu trampo. Valoriza seu corre, suas noites de trabalho, seus dias de estudo. Se você não fizer isso, ninguém vai fazer. E quando digo isso, não tô falando de gente nariz empinado. A partir do momento em que você cria algo, você deve se impor. Valoriza seu corre e tenha foco. Se você tá fazendo isso, uma hora vai virar pra você.

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