[OPINIÃO] Sobre fuzis, classe média e glamourização da periferia

Já é o assunto do momento: comentário de Lívia Cruz e Bárbara Sweet acerca de um homem no vídeo em seu vlog no Youtube. Foram diversas as manifestações acerca disso tudo e esta aqui é só mais uma. Vale frisar que se trata de um texto opinião e em momento algum reflete a postura geral do site a respeito do acontecido.

Pois bem, apesar do foco de todas as críticas ao vídeo estarem presas em torno da estereotipação do homem preto, irei um pouco além. Falemos disso em relação ao homem PERIFÉRICO.

Sou os dois, preto e favelado. Uma faculdade terminada a muito custo, sala cheia de pessoas de pele clara, todo esse drama que passa um negro (salve Brown!). Porém ninguém me vê como advogado quando me olha pela primeira vez, ou quando não sabe do meu diploma. E sabe por quê? Pura estereotipação. Meu estilo de roupas, meu cabelo, entre vários outros aspectos transparecem muito mais um preto favelado do que um bacharel em direito.

Você pode dizer que o fato de as pessoas não enxergarem um profissional se deve ao fato de minha postura. E eu te digo: ao me formar, não assinei documento algum dizendo que teria que me portar de maneira séria e falar bonito 24 horas por dia. Logo, a culpa não é minha, sou estereotipado.

Voltemos ao caso. No vídeo, Bárbara faz comentários a respeito do Lord, integrante do grupo ADL.

 

Percebe como tais comentários se encaixam perfeitamente no que eu disse acima?

Ao dizer isso, mesmo no contexto do quadro da Lívia, onde elas fazem um papel de “inversão de valores”, “objetificando” homens a exemplo do que os mesmos fazem com as mulheres em clipes de rap, Sweet nos mostra, com todas as palavras, que jamais veria Lord como um músico, pedreiro, médico, cozinheiro, advogado ou seja lá qual for a profissão que ele exerça. Sweet veria Lord como ela mesma disse no trecho acima. E mais. Ela confessa sentir “atração” pelo estereótipo que ele carrega, o que nos volta para outra discussão.

A GLAMOURIZAÇÃO DA FAVELA

Lembram-se vocês de quando as favelas do Rio foram “pacificadas” e dezenas das chamadas UPP’s foram implantadas? De lá pra cá, os locais se tornaram pontos turísticos para nacionais e principalmente estrangeiros que subiam aos montes os morros levados por guias para conhecer e sentir o que, para eles, era viver a pobreza sem, efetivamente, ser pobre.

Desde então, se tornou extremamente crescente o “amor” da classe média pela favela (disse favela, não favelados). Na televisão, na moda, no jeito de falar, na cultura, enfim, tudo que descia os morros e ia em direção ao asfalto era abraçado com um carinho pela pela nossa amada classe média BRANCA.

Passaram a usar, utilizar, usufruir, aproveitar e SUGAR tudo proveniente do periférico PRETO, principalmente a música, que já tocava em bailes com entradas a mais de 300 reais a pista e que eu ou você, provavelmente, seríamos barrados na entrada.

Sobre isso, vale colar aqui um post que o Djonga publicou recentemente em seu perfil pessoal.

 

Voltando isso para o nosso contexto, Bárbara (e Lívia, tacitamente) em seus dizeres estereotipou o músico e o glamourizou quando disse que sentia atração por homens portando fuzil na biqueira, saindo do camburão e que não saberia se entregava os pertences ou se entregava sexualmente para aquele que ela taxaria de bandido, única e exclusivamente pela postura do rapaz, tudo ao mesmo tempo.

Pessoas com fuzil na biqueira morrem, querida Bárbara. Pessoas roubam por estarem em situação marginalizada, querida Bárbara. O peso das suas palavras (sejam elas em tom irônico, ou não) reflete na cabeça da nossa querida classe média de uma forma que os fazem crer ter a mesma liberdade de fazer isso com nós e com o que é nosso. Nos segregar e absorver de nós apenas aquilo que lhe convém, seja o nosso rap, seja o nosso corpo (de homens e mulheres, diga-se). E é aqui que repousa minha crítica.

Mas tenho uma contra-crítica.

Onde estão os auto-denominados “periféricos” do sexo masculino se posicionando a respeito disso tudo?

Vi alguns comentários de homens em um ou outro post, mas absolutamente nenhuma manifestação mais dura, principalmente daqueles que se encontram “surfando na crista do hype” e até mesmo pessoas envolvidas com Lívia e seu vlog e que supostamente foram atingidos, sequer botaram as caras.

Ressalto que ambas já se manifestaram sobre o ocorrido, pedindo desculpas e deletando o vídeo do canal

 

 

Nem vou entrar no mérito das duas mulheres serem brancas. Como eu disse, apesar de as críticas estarem pesando neste ponto em específico, na minha opinião vai muito além. Mas é sempre bom lembrar que o discurso racial e social estão divididos por uma linha muito tênue, visto que no Brasil, a população preta é a maior em ambientes periféricos. Também sei da longa caminhada no rap das duas e tenho profundo respeito, porém este respeito só vai até o ponto em que sou respeitado.

Para as duas e para todos que têm pensamentos semelhantes, principalmente no meio do rap, deixo apenas a frase:

EYE OF TIGER, ESTAMOS DE OLHO!

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Carlos José Cruz dos Santos Silva Nunes

Mc e futuro advogado. Ainda que seja um avanço, pra muitos ainda é pecado