Volta e meia navegando pela internet – essa terra linda e livre onde todos podem dar sua opinião sobre tudo – nos esbarramos em algumas declarações polêmicas, que ao mesmo tempo que são pra causar e provocar, são feitas com base em profundo desconhecimento, permitindo que o emissor passe vergonha para uma quantidade milhares de vezes maior do que se fosse emitida na mesa de bar, com todo mundo bêbado.

Quando vai chegando dezembro e se aproximando do dia quatro, o hip hop celebra o nascimento de Shawn Carter, o Hova, JAY Z. A partir de 2003, ele consolidou uma parceria não só musical mas também de vida com a Beyoncé, uma das maiores artistas a existir, gigante em seu gênero assim como seu marido. Portanto, o hip hop comenta sobre, mas os fandoms pops também. E temos a infelicidade de ler coisas como essa:

Pensando nisso, recrutamos Rafael da Cruz aka Rafito, um dos maiores especialistas sobre JAY Z em Terras Tupiniquins pra contar brevemente sobre a importância de JAY Z para a cultura em todo o mundo.

O que dá vontade de fazer quando fã de diva pop fala bobagem sobre JAY Z

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A grande importância do Jay Z

Como Shawn Carter revolucionou a cultura hip-hop

por Rafito

No começo de dezembro o hip-hop celebra o dia do nascimento de um dos seus maiores representantes, senão o seu maior, Shawn Corey Carter, mais conhecido como Jay-Z.

Diversos sites, blogs, celebridades e artistas deram os parabéns ao Hova e, com os holofotes em cima do rapper, seu nome rapidamente foi trending no Twitter. Um dos tuítes que “hitou”, que diga-se de passagem é, ao menos para mim, bem engraçado foi um que dizia algo como “Beyoncé carrega a carreira do marido nas costas”.

Infelizmente, rapidamente o post passou de engraçado para um tapa na minha nuca. Sabe na escola, quando você toma aquele “pedala robinho” que faz um estalo e te incomoda, mas você entende que é zoeira e ri?

Porém, outras pessoas começaram fazer isso mais vezes e achar que é normal. Foi então que minha nuca esquentou e, como grande fã decidi explicar porque a piada no Twitter está longe de ser verdade, que a carreira do “marido da Beyoncé” nunca foi carregada por ninguém e nunca será.

Para o hip-hop

1. Abriu sua própria gravadora.

Jay junto com Damon “Dame” Dash e Kareem “Biggs” Burke fundaram a Roc-A-Fella Records. O principal motivo para abrirem o negócio foi para lançarem o primeiro álbum do Hova, o considerado um clássico “Reasonable Doubt”.

                         

A empresa dos caras colheram muitos frutos e foi a “casa” de diversos artistas como Freeway, Memphis Bleek, Beanie Sigel, Jadakiss, Just Blaze, Ol Dirty Bastard, Foxy Brown, Juelz Santana, Kanye West, entre vários outros grandes talentos que contribuíram demais para o hip-hop.

2. Teve sua própria marca de roupas.

“The Roc”, como também era chamada, foi a porta para a Rocawear, marca de streetwear, que foi representada por rostos famosos como Chris Brown, Ciara, Three 6Mafia e Rihanna. A marca chegou a faturar anualmente 700 milhões por ano, até ser vendida em 2007 por 204 milhões de dólares para a Iconix Brand Group.

Roc-A-Fella não apenas lançou diversos artistas de hip-hop, como também representou a cultura através da moda e se tornou um exemplo de empreendedorismo vindo de afro-americanos.

Supermodelos como Victoria Beckham e Naomi Campbell foram parte de campanhas da Rocawear.

3. Apresentou diversos artistas negros ao público.

O senhor Carter, através de suas músicas colocou diversos artistas na boca do povo. O Blueprint, de 2001, foi essencial pra lançar Just Blaze e Kanye West como grandes nomes da produção musical. Fade To Black, filme da “aposentadoria” de Jay-Z praticamente colocou ambos produtores junto com Pharrell e Timbaland em um dos pedestais do hip-hop.

                       

Sem esquecer que quando foi presidente de uma das gravadoras mais importantes da cultura negra, a Def Jam, foi responsável por artistas como Rihanna, Ne-Yo e Chris Brown. Sua nova gravadora, conhecida hoje como Roc Nation, é o lar de um dos rappers mais respeitados da nova geração: J. Cole. Vale adicionar que a Roc Nation também é responsável por cuidar da carreira de diversos atletas negros.

4. Álbuns colaborativos mais bem sucedidos do gênero.

Hoje em dia é bem comum ouvir falar de rappers fazendo discos em parceria com outros artistas, porém deve ser lembrado que Hova foi o mais bem sucedido ao fazer isso e fez quatro vezes.

Best of Both Worlds, projeto com um dos maiores nomes do R&B (pelo menos na época) R. Kelly, estreou em segundo nas paradas da Billboard vendendo quase 300 mil cópias na primeira semana, a despeito dos problemas com a turnê que foi lançada.

                       

O mesmo podemos falar sobre a surpreendente mescla do som do rapper com a banda de nu metal Linkin Park. Colision Course foi um projeto com uma grandiosidade comparável a que Run-DMC e Aerosmith fizeram com “Walk This Way” nos anos 80, mostrando que JAY Z estava aberto a todo tipo de gênero musical e possuía qualidade para colaborar em todos.

Depois veio o maior: Watch The Throne. A nova geração talvez não entenda a grandiosidade desse álbum. O hype sobre ele foi maior do qualquer outro disco colaborativo no mundo do hip-hop. Era simplesmente a parceria dos dois maiores rappers da época.

E finalmente o projeto que os fãs mais esperavam acontecer, Everything Is Love, no qual o Sr. e Sra. Carter oficializam que são o maior casal que a música negra já teve, como também lembraram o quão são importantes referências para os negros no mundo todo.

Para rappers

Se um rapper tem como referência o Jay-Z, certeza que esse não é um artista medíocre. Isso porque Jigga representa nada além de excelência. Para ser um bom rapper não basta saber rimar, tem que ter bastante conhecimento, saber cantar seus refrãos de vez em quando e ter presença de palco. Isso para começar. Além disso, terá que adquirir conhecimentos dos negócios da música, habilidade marqueteiras e sempre se atualizar as tendências musicais. Shawn Carter tem tudo isso.

Qualquer artista que quer ser ao menos algo perto do que ele é, tem que estimar tudo isso sabendo que não vai ser fácil. Quantas vezes ouvimos/lemos rappers falando que querem chegar no nível de Jay? Para isso a jornada é longa. Hova acumula em seu currículo 14 álbuns no topo das paradas americanas, mais de 100 milhões de discos vendidos no mundo, 21 Grammys e a lista continua.

                          

Um dos grandes feitos do rapper aconteceu em 2009. A canção Empire State Of Mind, além de conseguir ser uma das músicas mais tocadas por várias semanas consecutivas, foi usada como trilha sonora do passeio turístico que ocorre no edifício Empire State em Nova York. Pode não parecer grande coisa, porém o que deixa o fato interessante é que o dueto de Jay-Z com Alicia Keys substituiu a canção New York, New York do Frank Sinatra. Um rap feito por um negro tirou o jazz de um interprete branco como tema de um dos prédios mais famosos do mundo. Um ano antes disso, Jigga foi o headliner do festival Glastonbury, conhecido por seu line-up predominante de atos de rock and roll.

Ano passado o multimilionário entrou no Hall Of Fame dos Compositores, o primeiro rapper a conseguir isso. Observação: JAY Z não escreve suas letras no papel, apenas as guarda na mente. Jay-Z desde sua “aposentadoria” fala para o mundo que vai conseguir mais dinheiro, mais fortuna e que vai elevar o nível do hip-hop. Ele fez isso e inspira outros a fazerem o mesmo.

Para o negro

Jay-Z é o Black Panther do rap. Não estou falando do herói, mas do filme. Pantera Negra da Marvel foi um grande fenômeno do cinema e uma referência muito importante para todos os negros, sejam eles: adultos, crianças, homens e mulheres. Ver um elenco cheio de afro-descendentes em um longa da Marvel foi muito significativo para um grupo de pessoas que na maioria das vezes é diminuída e mal representadas nas grandes mídias.

Hova é a representação do negro pobre de periferia que vendia drogas, e que não apenas conseguiu sair dessa vida fazendo sucesso como artista. Ele deu aula de empreendedorismo ao elevar seus negócios e ampliá-los a diversas outras vertentes fazendo de si um exemplo de rapper, músico, empresário, marqueteiro e visionário.

Não será citado aqui as diversas vezes que Jay ajudou financeiramente e como representante em causas direcionadas a negros de diversas partes do globo. Porém, o apoio ao ex-jogador de futebol americano Colin Kaepernick foi de grande importância aos protestos contra a violência da polícia. O rapper recusou se apresentar no Superbowl ao lado de Justin Timberlake, o que inspirou Rihanna a fazer o mesmo quando convidada a ser a atração do evento em 2019.

Vale adicionar que seu casamento com Beyoncé também é inspirador. O relacionamento já dura 15 anos, um matrimônio, 3 filhos e muitas colaborações musicais. Podemos sim citar a polêmica em volta do adultério que Shawn cometeu, assim como o fato do casal Carter ter conseguido superar isso. E, por fim, aprender que uma união demanda um comprometimento e constante aprendizado. Se tornando pessoas melhores juntos, são um exemplo não só para casais famosos, ou negros, mas para o mundo inteiro.

O Sr. Carter por toda sua trajetória de altos e baixos e por uma busca em constantemente ser o melhor, se torna um dos maiores exemplos públicos de evolução de um homem que o mundo já viu.

Jay-Z é o artista de hip-hop mais importante e completo do nosso tempo. Podem tentar debater o quanto quiserem sobre seu nível de importância para o rap, processo de criação de músicas, conteúdo lírico, habilidade com o microfone e nos palcos, turnês, catálogo, merchandising, negócios fora e dentro do mundo da música. Fora que depois de mais de vinte anos de carreira ainda é super relevante. Ainda é citado como um dos melhores em listas de blogs e de artistas todo ano.

                      

O hip-hop foi transformado de diversas maneiras por causa do que ele fez como artista do gênero. Modificou a narrativa e os estereótipos do que é o rap e de quem é Jay-Z. O rapper do Brooklyn que vendia drogas e fazia rimas nas esquinas da periferia, se tornou um personagem mais importante e positivo que o atual presidente dos Estados Unidos. Então, quando vejo um tuíte tentando diminuir tudo que Shawn Carter fez e faz dizendo que sua esposa “carrega sua carreira nas costas” eu dou risada, mas também escrevo um texto para lembrar/informar algumas pessoas que sua carreira é muita areia para ser carregada por qualquer pessoa além dele mesmo.

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