Por Diogo Carvalho

Tenho pra mim que poucos sintetizam tão bem a era tecnológica e o universo digital em rimas como Yung Buda. Não em uma perspectiva crítica sob como a nova geração imbeciliza os seres humanos, mas sim sobre o reflexo de um adepto fiel e convicto dos novos meios de interação e atração. E cá entre nós, quantos não se identificam nessa época onde não se faz nada sem um celular no bolso?  Após sua sequência de lançamentos de singles, o rapper nos abrilhantou recentemente com a mixtape “Músicas Pra Drift – Volume II”. Seguindo o primeiro trabalho lançado em 2017 e que conta com o hit Akatsuki de Vila, o artista participante do selo SoundFoodGang apresenta essa continuidade baseada na temática automotiva dotada de sonoridade eletrônica e muito, muito psicodélica.

Capa em referência ao jogo Need for Speed | Por Mendesculpa

Você pode ouvir o trabalho pelas principais plataformas digitais de streaming – Spotify, Deezer, Tidal, iTunes, mas se você aceitar um conselho, assista o vídeo disponível no YouTube que ilustra a mixtape. Ajuda bastante na apreciação da obra, fica aquela sensação de carro acelerando tanto no áudio quanto no visual. Além disso, no dia 18 de Abril foi lançado o – até agora – primeiro vídeo clipe do projeto, da faixa Autumn Ring Mini (Sozinho no Touge). Simulando uma viagem pelas ruas de Tokyo em estradas cheias de curvas e luzes, o vídeo foi realizado em uma sala/garagem e todo esse efeito foi emulado por projeções na parede, junto a um plano sequência e uma boa composição conceitual e de elenco. É sério, tão bom que fez até chover.

                     

                A mixtape começa com a faixa Piloto e deixa claro o que Buda disse em seu último single, Ninja. Nela, ele declara “esse é o fim da era ninja”, dando a entender que o apoio à temática pode ter de fato chegado ao fim ou à uma pausa, no mínimo. O assunto agora é automobilismo, sonhos de grandeza unidos a sua característica sonoridade oriental.

Na sequência, Pleasurekraft, uma conversa sobre as sensações de um motorista no trânsito engarrafado que não o permite afundar o pé e cortar tudo e todos a bordo de sua carreta. É o momento onde fica tudo lento ao volante e toda a teorização existencial acontece por estar prestando mais atenção ao redor e não simplesmente voando baixo. Tudo a bordo de um Porsche 911, ouvindo Basshunter que acreditem, não é adicionado à mixtape só dessa vez e nós vamos falar sobre isso mais tarde.

                A terceira música é California (World Tour) e teve um valor emocional pra mim. Eu nunca reconheci um sample tão rápido na minha vida. Com cortes e uma roupagem ímpar do clássico Losing My Religion, da banda britânica R.E.M., podemos ouvir um diálogo romântico com cara de interlúdio. É uma faixa que mostra uma característica interessante do projeto, que são os espaços sem rimas dando ênfase nos samples, tornando o trabalho convidativo tanto aos que esperam líricas e uma boa harmonização por parte dos instrumentais, quanto pra quem espera bons beats trabalhados e únicos.

Na posição da quarta track, uma das que concorrem como música mais pesada do trampo, Suzuki Escudo (Guitarra). Numa narrativa meio Bonnie & Clyde de fuga na polícia e um sample de guitarra recheado de tapping slide (eu sou o doido das guitarras, foi mal por isso), dá pra interpretar como uma história de triunfo em um Suzuki de aerofólio estendido enquanto contabiliza os lucros e ignora o mundo em volta. A música de vitória, se for parar pra pensar.

                   

O quinto som já foi mencionado no inicio, Autumn Ring Mini (Sozinho no Touge). Sobre a música em si, a vibe de tranquilidade é uma dose gratuita de inspiração. Interessante pelo contraste, Touge é uma estrada japonesa perigosa e estar em um estado calmo em um lugar como esse, só tendo muita certeza do que está fazendo. E claro, a frase “Se nós se matar, quem mata o Matuê?” viralizou legal pelos Twitter da vida.

E por fim, a sexta e ultima musica, Autobahn (Tempo). Lembra-se do Basshunter citado na segunda música? Se você manja dessa referência você ligou a essa música instantaneamente. Numa pegada eletrônica norte europeia/oriental do DJ natural da Suécia, Buda termina a mixtape reafirmando sua identidade nipônica, misturando o automobilismo, o drop de música eletrônica, o dialeto e referências à cultura orientais imprescindíveis a suas músicas.

“Eu sou mal necessário/Eu nunca gostei de herói/Veja além do Naruto/Isso é Músicas Pra Drift – Volume II”.

Vale ressaltar o time envolvido na composição técnica desse trabalho, onde o próprio Yung Buda produziu os beats e foi responsável pela captação de voz, junto à SoundFoodGang. A mixagem e masterização ficaram por conta do MC/Produtor/Hokage de alta patente Ramiro Mart no Studio Setor. Ele tem assinado a mix e master do Yung há um tempo e é peça chave nos graves absurdos que preenchem seus fones. Procurem mais sobre ele, vale muito a pena! As produções executivas e de marketing ficaram por conta de Adalberto F. Lima e Mateus Santos, respectivamente.

Deixe seu comentário!
Share this...
Share on Facebook
Facebook
Tweet about this on Twitter
Twitter

Leave a Reply