O RAP de Memphis é um dos baluartes da cena sulista dos Estados Unidos, influenciando muito do que hoje chamamos de TRAP. Mas, como tudo isso começou?

Antes de mais nada, é necessário entender o contexto em que vivia a população de Memphis.

DJ Squeeky

DJ Squeeky

Memphis, state of mind

Em 2002, a cidade foi considerada a mais violenta dos EUA. Em 2001, 2005 e 2007, a segunda mais violenta. Em 2016, foi considerada a terceira cidade mais violenta do país, com uma taxa de 1.820 homicídios para cada 100 mil habitantes. Esse é o plano de fundo para a música da cidade e também de toda a região Sul, uma das regiões mais pobres e imersas na criminalidade, coexistindo com a fantasia do “paraíso capitalista” da América.

Para se ter uma ideia do clima que habita o estado do Tennessee e a cidade de Memphis, ele é composto por uma população de 75,6% de brancos e 16,7% de negros, com o restante dividido entre outras raças e etnias, reflexo dos tempos da escravidão e da segregação racial presente na região até os dias atuais.

Em 2010, haviam aproximadamente 182 gangues apenas em um dos condados de Memphis. A criminalidade e o RAP naquela região são tão envolvidas que, o irmão de DJ Paul – membro fundados do Three Six Mafia, Craig Petties, era considerado um dos 15 criminosos mais procurados dos EUA, até ser preso em 2009. É conhecido como, supostamente, o maior traficante da história de Memphis.

Grape Street Watts Crips

Grape Street Watts Crips

1991, o início.

Como já dizia Sabotage, “O crime é igual ao rap, rap é minha arma” e, naquele cenário efervescente de crime e tráfico, alguns DJ’s criaram uma musicalidade que ficara conhecida pelo mundo todo como “Memphis Rap”.

Diferente da abordagem feita pelas mídias de RAP em geral, o Memphis RAP (e porque não o Phonk?) não é o “SoundCloud RAP”. Muitos dos críticos do TRAP alegam que o “gênero é atual e não é RAP”. Essa informação é importante pra mostrar como o Hip-Hop é cíclico, trazendo gêneros passados para o mainstream, tirando outros de cena e devolvendo ao underground, com cada uma das sonoridades se mostrando atuais dependendo do contexto.

Mas, essa história começa um pouco antes do estilo se consolidar e tomar referência. Lá pelos anos 1990, alguns DJ’s se tornaram peças chave para o início do estilo musical.

Em Memphis, no início dos anos 90, se você precisasse saber exatamente quais músicas seus país gangsta ouviriam em uma agradável noite de sábado, você poderia comprar uma fita cassete da mixagem. Se você quisesse saber quais crimes o seu agente mais próximo estava cometendo, você também poderia comprar um cassete para isso. (Torii MacAdams, RedBull Academy)

Se o Memphis RAP tem um criador, o nome dele é DJ Spanish Fly. O DJ, após ser visto tocando num quarteirão de seu bairro, Clementine, em South Memphis, foi contratado para ser um DJ de House no Club No Name em East Memphis. Nessa época, o DJ fazia parte de um grupo chamado “True Blue”, com seu parceiro Mighty Rappin Fishbone, Após a prisão de Mighty, Spanish seguir seus passos, no mesmo tempo em que já produzia suas próprias fitas. Em uma entrevista para a Red Bull, o DJ comentou que nessa época, o “True Blue” doava sangue constantemente no Banco de sangue de Memphis, para arrecadar fundos afim de pagar comida e bebida para o público de seus shows.

Em meados dos anos 80 e início dos anos 90, Spanish deu início a transição de sua discotecagem de House para o sm agressivo e lento, imerso no 808 Bass, que se tornaria a marca registrada do Memphis RAP. Ao lado de seu parceiro Sonny D, ambos se tornaram os pioneiros da cena Hip-Hop da cidade. O sucesso foi tão grande que a população local começou a levar as suas fitas, criadas de forma independente e sem nenhuma preocupação com o mercado, para cidades como Atlanta, Nova Orleans, Nashville, St. Louis, Little Rock, entre outras do sul. Outro fato que ajudou na propagação do estilo foi que, entre um e outro set de House, DJ Spanish sempre tocava suas mixtapes nas festas, despertando a curiosidade do público e fazendo o estilo ser disseminado.

Will Smith e DJ Spanish Fly, em 198. Crédito: https://djspanishfly.com/photos

Will Smith e DJ Spanish Fly, em 198. Crédito: https://djspanishfly.com/photos

DJ Squeeky foi outro cara responsável pelo que o RAP de Memphis é hoje. Considerado como um dos precursores do estilo de sequenciamento do Hi-hat nas batidas (que é uma das marcas conhecidas do TRAP). Usando uma SP-1200 e a já citada Roland, artistas como 8Ball & MJG, Skinny Pimp, Tom Skeemask, DJ Zirk (e Zirk’s 2 Thick Family), Al Kapone, Ruthless Ass Niggas, Criminal, e o lendário Gucci Mane passaram pelo estúdio de Squeeky.

Já o famoso Gangsta Pat foi o responsável por ter o primeiro disco de rap de Memphis lançado por uma grande gravadora, a Atlantic, em 1991. Isso deu a ele status de lenda, assim como seu estilo úcino de batidas, que eram vendidas em fitas-k7 por 30 dólares pelas ruas dos Estados Unidos. Esse disco – #1 Suspect, tinha uma sonoridade muito semelhante ao Gangsta Funk de Los Angeles.

Mas, falar de Memphis sem falar de Three Six Máfia é quase uma heresia. O grupo já estava na caminhada nessa época, sendo também percursores da cena inflamada e violenta de Memphis. Playa Fly, membro do grupo, era filho de um música e uma mãe traficante de drogas, dois extremos que foram essenciais na criação do pequeno Playa que, com 13 anos, já havia sido preso por tráfico. Em uma entrevista para o site Memphis RAP, Playa conta uma história quase mística sobre como foi seu início no RAP:

Um dia eu estava andando pela Orleans South Street e tinha um pouco de crack na mão. Eu olhei para a minha mão, olhei para o céu e disse: ‘Deus, isso é tudo que você tem para eu fazer pelo resto da minha vida? Dentro dessa semana, eu e um cara do meu bairro curtimos um DJ local, passamos pelo estúdio e gravamos uma música. 

Essas são só algumas pequenas história da fundação da cena de RAP de uma das cidades mais violentas dos Estados Unidos.

Playa Fly, lenda do RAP de Memphis e ex-membro do Three Six Mafia

Playa Fly, lenda do RAP de Memphis e ex-membro do Three Six Mafia

Roland 808, nada de samples e fitas sem artworks: O que define gênero?

O Memphis RAP é conhecido por algumas caraterísticas marcantes: O uso do Rolland 808, vocais repetitivos e com efeitos como reverb, algo que Denzel Curry faz muito uso em seu trabalho “32 Zel Planet”. Outro grupo atual que bebe e muito da fonte desse gênero são os moleques do $uicide Boy$. Se vocês ouvirem esses dois sons linlados aos artistas vão sacar a puta influencia do gênero no TRAP atual.

Uma coisa interessante sobre o Memphis RAP é que, nos primórdios, não eram usados muitos samples. O padrão eram sintetizadores, teclados, tudo tocado a mão, de forma bem “loopada”, extremamente suja. Os timbres do 808 são bastante estourados, os refrões sempre bastante repetitivos, e a voz com uma aspecto “duplicado” e bem grave, sendo que, muitas dessa fitas não eram nem mesmo mixadas! Muitos dos beats lembram um pouco do G-Funk californiano também, mas, de forma geral, o Memphis pode ser considerado, de forma bem resumida, como o pai do TRAP de Atlanta e do Crunk.

Roland 808 equipamento utilizado nas produções caseiras de Memphis RAP

Roland 808 equipamento utilizado nas produções caseiras de Memphis RAP

Outra característica do estilo está atrelada a um embate que a cena vive hoje: O lo-fi. Fugindo do conceito raso com que muitos propagam a cerca do lo-fi, ele não é um estilo de RAP para se ouvir durante leituras, estudos ou para relaxar – como já ficou claro quando falamos sobre as influências do Memphis. É uma característica proveniente das limitações tecnológicas enfrentadas pelos DJ’s e produtores da época, que se tornou um estilo de produção e até mesmo de textura de som. Os chiados e a baixa qualidade de produção foram aproveitados pelos artistas, criando a atmosfera presente nesse tipo de RAP. E, o que era uma limitação, hoje é um aspecto buscado pelos produtores da nossa geração. Com a facilidade de se produzir em casa, se apoiando no estilo DIY, o lo-fi tem se tornado mais uma das diversas roupagens que o RAP toma para si nos anos 2010.

Na questão estética, diferente de quase todos os demais estilos de RAP, o Memphis RAP não era um estilo que fazia muita questão do visual. Não era comum encontrar fotografias dos artistas da cena, de artworks e afins. Isso porque era comum as Fita-K7 serem lançadas com apenas a tracklist anotada na capa, ou somente o nome do artista. Posteriormente que os discos e mixtapes começaram a ter algum tipo de apelo visual. Lo-fi.

 As estrelas do jogo

Em 1995, o aclamado grupo Three Six Mafia lançou seu primeiro disco de estúdio, se tornando anos depois o nome mais lembrado quando se fala de Memphis RAP. Liderado por DJ Paul, seu falecido irmão, Lord Infamous e Juicy G, o grupo é um dos maiores da historia do RAP.

DJ Paul contou em uma entrevista para a XXL que, uma das grandes influências para o disco”Mystic Stylez” foram os retratos de serial killers que ele e Lard penduravam em sua casa. Aliado aos temas de crime e tráfico, é um trabalho extremamente denso em sua produção, como manda o repertório do RAP da cidade.

Prova disso são os dois discos de platina na bagagem e um Oscar de Melhor Canção Original – o primeiro dado a um grupo de RAP, em 2006, com a canção “It’s Hard out Here for a Pimp”, que participou do filme “Hustla & Flow”.

 Isso mostra o valor do gênero, sua importância na história do RAP, sendo também um dos responsáveis por colocar o Sul no topo do RAP americano.

Crunk e TRAP: Filhos ricos do legado de Memphis

Nos anos 2000, o RAP de Nova York foi perdendo espaço para um gênero bem diferente: O Crunk.

Fundado por Lil Jon, o nome é uma junção dos termos Crazy e Drunk. É caracterizado por ser um som de festa, ostentação, e também uma forma de Gangsta RAP, devido o conteúdo criminoso das letras.

Esse som do Lil Jon caracteriza bem o estilo e sua fonte no Memphis RAP.

Já o TRAP .. bom, o TRAP domina o RAP atualmente, sendo filho legitimo do Memphis. Basta ouvir Gucci Mane e isso fica claro na forma como os beats são construídos, o estilo de rima, os refrões. Mas, o TRAP foi tão além que se mantém quase que como um estilo a parte do RAP, o que não invalida sua importância, sendo um gênero datado de muitos anos atrás, tanto que essa semana, o disco “Trap Muzik”, do rapper T.I, fez 15 anos, sendo considerado como o fundador do TRAP.

Diferenças e polêmicas a parte, precisamos reconhecer o RAP como um gênero musical gigantesco e até mesmo regional, onde cada região dos Estados Unidos, com suas histórias e costumes, originaram músicas de acordo com a vivência de cada grupo social. Precisamos também olhar o TRAP com outros olhos e respeitar sua importância na história do RAP, pois tudo começou lá em 91, com DJ Spanish Fly e a violência incontrolável da cidade de Memphis, mostrando que o Sul é sim uma das regiões mais ricas da história do movimento.

Como diria Jay Electronica:

“When New York niggas were calling southern rappers lame, but then jacking our slang .. ”

"Lords of Terror", disco de estréia de Lord Infamous, fundador do Three Six Máfia, em formato K7

“Lords of Terror”, disco de estréia de Lord Infamous, fundador do Three Six Máfia, em formato K7

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Aqui deixo alguns links para quem tiver interesse em conhecer alguns dos sons básicos desse movimento musical:

20 of the best Memphis RAP projects 

O renascimento do Memphis RAP

Memphis RAP Tapes, um site com dezenas de mixtapes e álbuns do gênero

Site do DJ Spanish Fly, com algumas fotos, tapes e diversas coisas acerca do movimeto

Rádio Memphis RAP/Phonk 24 horas

Fluxograma criado por usuário do reddit, sobre a cena de Memphis, lançamentos, beefs e mais informações.

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Marco Aurélio

Marco Aurélio

Fotografo shows sujos onde frequento, escrevo rimas que nunca vou lançar e faço pautas sobre coisas que vocês (ainda) não conhecem.