“Na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma.”

Antoine Lavoisier (químico que “descobriu” o oxigênio)

Essa frase refere-se à “Lei de conservação de massa”. Na alquimia e na química, há a manipulação de matéria a partir de processos de transmutação. Não é possível a criação de nova matéria. Desconstrução e reconstrução referem-se a moléculas e o arranjo delas ou obrigações entre elas.

A lei implica e se relaciona com a lei da conservação da matéria, e os nomes são usados ​​alternadamente. Esta lei afirma que a matéria não pode ser criada ou destruída, embora possa ser reorganizada no espaço e transformado em diferentes tipos de partículas.

O que isso tem a ver com RAP é o que eu vou explicar daqui em diante.

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Quem é Knxwledge?

Segundo usuários do reddit, ele é simplesmente um beatmaker que odeia vogais! hahahahahahaha

Somente fãs reais vão entender a piada.

Brincadeiras à parte, o Knxw – para os mais íntimos, nasceu Glen Boothe, em 1998, no estado de Nova Jersey.

Sua carreira começou de uma forma peculiar: ele ajudava os seus pais a limpar a igreja de seus familiares. Depois de algum tempo, Knxw, que ainda era Glen, passou a tocar instrumentos durante as cerimônias. Foi quando conheceu o poder da música!

O inevitável contato com o Hip-Hop aconteceu com seus primos.que lhe apresentaram J Dilla e Madlib, dupla essa que também deve ter influenciado a personalidade calada, discreta e workaholic de Knxwledge.

Ainda sobre sua infância, o garoto ganhou vários dos instrumentos da igreja, muito deles já deteriorados. A limitação dos equipamentos convenceram seus pais de que ele precisava de um sequenciador novo, e assim o fizeram, dirigindo duas horas até a loja mais próxima da cidade onde moravam.

Seguindo com a música na igreja, tendo que dividir o tempo entre esportes e a faculdade, Knxw desenvolveu o hábito de deixar o rádio ligado em casa, gravando transmissões de de estações antigas, para que, quando retornasse, pudesse analisar os registros afim de encontrar loops, baterias e todo tipo de material que viria a se tornar sua identidade enquanto produtor.

Aqui fica evidente que nem a igreja e nem a faculdade eram seus ofícios preferidos, e é obvio que uma ruptura iria ocorrer. Durante ao menos 1 ano da faculdade, cursada na Filadélfia, antes de abandona-la, ele deixava de ir as aulas para passar o tempo em casa produzindo praticamente o dia todo. Foi nessa época que ele e Mndsgn se conheceram, no MySpace. E, por ironia do destino, ambos trabalharam juntos em uma farmácia, onde durante a noite atendiam clientes e durante o dia faziam batidas. Sem parar!

Pulando um pouco a história excitante do produtor, chegamos em sua mudança para Los Angeles, que aconteceu exatamente no ponto alto do boom das fitas de batidas, ou beat tapes.Essa mesma LA, onde o produtor foi contatado pelo saudoso Peanut Butter Wolf, que o chamou para assinar um contrato com a Stones Throw, que viria a lançar o aclamado “Yes Lawd!”, pelo NxWorries, parceria de Knxwledge com Anderson Paak.

E no processo dessa carreira metafórica ainda aconteceu a parceria com Joey Bada$$, na clássica mixtape “1999”, e a faixa “Momma”, do grande clássico “To Pimp a Butterfly”, quando o próprio Kendrick Lamar enviou uma mensagem para o produtor, o convidando para participar do álbum. 

Esses e outros trabalhos trouxeram Knxwledge para respirar um pouco do mainstream do RAP, fazer grana, obter reconhecimento do mercado. O que vou falar é sobre os outros 90% do seu trabalho, que dá o tom para a série de beats chamada “WrapTaypes”, que é uma revolução na forma de se remixar grandes clássicos do Hip-Hop.

Pulamos para a alquimia!

Knxwledge

Knxwledge

 

WrapTaypes, remixes e a genialidade de Knxwledge.

De 2009 até aqui, o produtor já lançou mais de uma centena de trabalho, o que é quase como ser o Curren$y dos beats.

Brincadeiras a parte, fato é que, tanto trabalho revela o quanto o produtor busca pela música, revelando suas várias formas e facetas. WrapTaypes é algo especial dentro desse enorme catálogo musical.

WrapTaypes começou por volta de 2011, com a primeira tape, intitulada “WrapTaypes.Port.1”, sendo que, em 2018 foi lançada a “WT PRT_13”, ou seja, nesses 7 anos já foram lançadas 13 fitas dessa série. O que vamos focar aqui são em algumas publicações feitas no canal no YouTube do artista, mas no BandCamp é possível ouvir toda a discografia da série.

Capa da fita "WrapTaypes.Port.1"

Capa da fita “WrapTaypes.Port.1”

Como dito, a série começou em 2011, e o conceito é, de forma simplista, uma série de fitas com remixes de vários clássicos do Hip-Hop, sejam eles velhos ou novos, ou até mesmo músicas extremamente desconhecidas do público em geral.

Mas, o que faz essa série não ser simplista é sua estética e a forma como é construída. Diferente de remix comuns, que são rotineiros em nosso estilo musical, principalmente nas décadas de 90 e 2000, WrapTaypes é como uma engenharia reserva. O que Knxwledge faz é destrinchar o beat, separando algumas partes interessantes do mesmo, principalmente os vocais. Todo o resto é feito do zero, com sua assinatura de beat. Ou seja, é quase como você usar uma a capella em cima de um beat novo.

A questão aqui é que, pra quem entende um pouco de produção musical, sabe do desafio de se encontrar a capella de todos os sons, e mais dificil ainda é o trabalho de se retirar um vocal de uma faixa em MP3 ou qualquer outro formato final de audio. Acredito que esteja aqui a magia de tudo! A magia de se escavar registros raros, trabalhar em cima deles por meio de recorte, equalização, manter os vocais em perfeita audição, e a partir disso, se criar todo um novo background para as vozes dos MC’s.

“Knxwbodilykesme” é meu exemplo clássico e, certamente, a primeira faixa que eu sempre mando para meus amigos quando quero apresentar o trabalho de Knxwledge. Esse som é uma versão da aclamada “Your Life’s on the line” do monstro 50 Cent. Essa faixa foi uma disse para o rapper Ja Rule, e contou com um clipe gravado nas ruas de Nova Iorque e o clássico refrão “Nobody likes me .. that’s okay .. “. A faixa original pode ser ouvida aqui, e é louco como ela foi de um clássico boom bap 4 x 4 para uma batida que eu nem sei descrever um estilo. Ela foi acelerada, colocada num beat que derrama linhas de baixo e piano de jazz, e uma bateria fora dos padrões comuns.

Até mesmo o clipe da faixa de 50 Cent foi usado por Knxwledge no som, mantenho a estética mas também acelerado para acompanhar o andamento da música.

Uma outra faixa da série que gosto bastante é “MyOwnHands”.

Essa faixa foi construída em cima de um freestyle do rapper NH, datado de 2008.

Se você notar as duas faixas em paralelo, é incrível como a velocidade e até mesmo o flow do MC soou completamente diferente na batida de Knxwledge. Batida essa que eu não tenho palavras para descrever a qualidade. O video também foi utilizado no remix, ficando apenas a letra do rapper e todo o resto sendo reconstruído do zedo por Knxw.

E ainda existe mais uma série de videos que circulam no YouTube com faixas dessa série, usando os materiais dos artistas que foram sampleados. Falo de Rick Ross, Kendrick Lamar, Beanie Sigel, Bricks e mais tantos outros rappers e MC’s de batalha que passaram pelo processo de alquimia de Knxwledge. Eu costumo compilar esses videos numa playlist, que vocês podem conferir por aqui, pois pretendo manter sempre em atualização.

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Mas, falando do próprio estilo de Knxw e da composição das tapes, fica evidente que todo esse trabalho contém uma grande influência do Hip-Hop clássico. Desde a mixagem lo-fi, de “baixa qualidade”, os chiados e os samples riscados, o ato de escavar samples atrás de freestyles, faixas obscuras do universo do underground e a reconstrução da mesma é o Hip-Hop em sua forma mais pura, que é exatamente a arte da reconstrução.

Aqueles timbres adquiridos em rádios FM no começo da carreira de Knxwledge ainda se mantém como parte de sua estética. A forma como as baterias seguem um padrão não usual é outra marca registrada. Dá sempre pra notar os kicks sendo usados numa equalização que parece muito seca e inaudível as vezes. Isso mostra como todos os elementos são importantes na produção do beatmaker, onde os timbres são empilhados um em cima do outro e, o que poderia ser uma enorme bagunça sonora se transforma em batidas cheias e nuances e camadas, sendo necessário, por vezes, ouvir o mesmo som diversas vezes para compreender cada um dos elementos que fazem parte de uma mesma música.

Eu costumo sempre dizer que certas batidas não são para MC’s, e sim para quem gosta de batidas. E as batidas de Knxwledge são para serem apreciadas sem os MC’s, onde cada timbre, sample e vocal faz parte de um bem maior. Obviamente que seus clássicos mais aclamados são mesmo os que tiveram participação em discos de artistas conhecidos da cena, mas a sua grande arte ainda é a arte de empilhar timbres em camadas e faze-los funcionar como uma orquestra de samples escavados e colocados numa equalização suja, seca e cheia de vida.

Knxwledge é, pra mim, um dos maiores produtores da nossa nova geração, numa cena crescente de beatmakers, onde o ato de se construir uma batida deixou de passar somente pelas MPCs e samplers, e chegando aos computadores com FL Studio e Ableton, onde é possível se fazer qualquer coisa. Essa cena cada vez mais reconhecida está cheia de grandes talentos e artistas reconhecidos, que certamente irei falar sobre em breve, mas posso afirmar que a maioria deles partiu de um ponto em comum. Knxwledge faz parte desse ponto e “WrapTaypes” é uma aula e um lembrete de que, muito além dos beats em si, a busca e o conhecimento são eternos e os grandes realizadores de sua arte. E a habilidade de buscar, entender e reorganizar é a grande graça do RAP, mostrando que existem vários caminhos e formas de se fazer a arte da música, da rima e da batida. Como dito no início do texto “a matéria não pode ser criada ou destruída, embora possa ser reorganizada no espaço e transformado em diferentes tipos de partículas.” Isso é WrapTaypes!

Earl & Knxwledge

Earl & Knxwledge

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Para saber mais sobre Knxwledge:

Aqui tem uma entrevista muito interessante do produtor sobre sua vida, carreira e mais um milhão de coisas muito bacanas, pra quem deseja se aprofundar na sua história.

Já nesse link, um usuário abençoado do Reddit (sempre o reddit!!!!), fez um post com os discos de tapes introdutórias, pra conhecer profundamente a obra de Knxwledge.

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Marco Aurélio

Marco Aurélio

Fotografo shows sujos onde frequento, escrevo rimas que nunca vou lançar e faço pautas sobre coisas que vocês (ainda) não conhecem.

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