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Análise | Febre Amarela – Willsbife

By 25 de março de 2020 No Comments

De onde surge essa Febre Amarela?

Se você acompanha a cena nacional e presta atenção em quem produz as faixas dos seus artistas favoritos, como Diomedes Chinaski, Coruja BC1, Alt Niss, Bivolt e Rodrigo Ogi, você deve ter visto que Willsbife é responsável por algumas produções impecáveis destes artistas. Para citar um exemplo, no disco Eletrocardiograma da Flora Mattos, as faixas “Me ame em Miami”, “Não Vou Mentir” e “10:45” são assinadas pelo produtor.

Willsbife (Imagem retirada do seu Instagram @willsbife)

Em Febre Amarela, um disco que durou 3 anos para ser finalizado conforme a visão do produtor, vemos muitos destes artistas de volta e muitos outros que talvez não sejam (ainda) tão conhecidos aos ouvintes mais desatentos. Mas não se deixe enganar, o astro do disco é o produtor coreano que foi responsável por determinar algumas parcerias que até certo ponto não eram nem imaginadas pelos fãs de rap – Lino Krizz & Rodrigo Ogi, Don L & Sain e Kayuá & Tássia Reis são algumas das misturas que agora não vejo a hora de voltar a acontecer.

Capa do novo disco do Willsbife. A arte foi feita por Heston Godby (@hestonmilk)

O título do disco – Febre Amarela – é uma alusão a origem coreana do produtor, a cor amarela é associada a etnias orientais, combinado com a “febre” do trap aqui no Brasil. Este duplo sentido também aparece constantemente nas letras dos artistas em diversas faixas, como em UZE, que faz alusão ao verbo usar e a arma Uzi, e em “VIAJEI”, onde Luccas Carlos fala de realizar uma viagem e “viajar” nas próprias ideias, num sentido figurado.

Com um estilo voltado principalmente para o trap, Willsbife não deixa de ser versátil. Dentre alguns dos recursos usados pelo produtor, podemos citar quando desacelera o ritmo agitado das músicas de trap, explorando sonoridades mais orgânicas, como faz, por exemplo, em “DESEJOS”, faixa na qual mistura trap com ritmos mais latinos. Ou ainda quando utiliza samples, como é o caso em “UZE” quando temos a mudança na batida, sendo “Ha Ya (Eternal Life)” do grupo The Clark Sisters o mesmo sample da faixa “Family Feud” do JAY-Z, que compõe o disco 4:44 lançado em 2017. Seja qual for o caso, a influência do trap permanece presente com os high hats e kick drums marcantes do gênero.

Falando um pouco das participações

Com toda essa sintonia que o produtor coreano traz para as faixas, fica difícil escolher uma favorita ou destaque, até porque os artistas envolvidos se sentem a vontade diante de produções tão excepecionais. Particularmente, não consigo destacar uma faixa como favorita, todas elas parecem que formam um trabalho extremamente sólido e viciante. Mesmo as faixas mais longas, como o single “STRIP” não são enjoativas, devido aos excelentes refrãos e as próprias combinações vocais escolhidas para as faixas.

Com relação aos artistas individualmente, fiquei impressionado com Ebony, GABZ e ONNiKA, as quais sou bastante fã. As três artistas ainda não tem grande projetos individuais, mas em cada faixa e participação demonstram bastante originalidade em seus trabalhos. ONNiKA finaliza a faixa “UZE” com um flow impecável, em uma faixa em que Zudizilla, Joker e Coruja BC1 já haviam demonstrado alguns dos melhores flows do disco:

Fugi do flash, foco no cash
De RAF e de Fenty, tô fashion, okay?
Você sempre acha foda, tudo que digo é a prova
De que sempre tô na moda, Prada pra mim é esmola
Ela quer usar essa droga
Lírica foda, e agora?
Rica e mais linda que a Doja
Foca no drip, ‘cê roda

Ebony, em “STRIP”, mostra toda sua confiança rimando da perspectiva de uma stripper em seu verso. É inclusive uma das faixas que possui videoclipe, gravado em um casa de strip.

Em “PAREI”, GABZ também demonstra confiança num verso braggadoccio entregue de uma forma extremamente sensual:

Pera aí, pera aí, hum
Quem é essa senhorita?
Para pra ver ela passar
É gangsta, Maria Bonita
É braba, cê já ouviu falar (É a GABZ, hum)
Esses caras sempre tentaram me comprar
Por isso cê chamou atenção
Porque sabe que eu tô em outro patamar

As “novatas” não são as únicas a impressionar. Luccas Carlos e Ogi mostram suas a habilidades de contar histórias em “VIAJEI” e “5:31”, respectivamente. Em “DESEJOS”, Sain constrasta seu slow flow com um verso cinematográfico do Don L. NP Vocal e Vitor Xamã destoam, no bom sentido, com suas vozes marcantes, trazendo elementos únicos nas faixas que participam. Kayuá e Tássia Reis, na faixa BABY, demonstram muita química trocando versos românticos:

[Ponte: Tássia Reis, Kayuá, ambos]

Vem cá que eu te mostro
Vem cá que eu te mostro como faz
Vem do jeito que eu gosto
E só para quando me satisfaz
Hmm, vem cá e me mostra
Vem cá e me mostra
como faz
Me manda que eu gosto
E eu paro quando
me satisfaz

Acredito que não seja necessário muitos comentários sobre Flora Matos, que já se sente a vontade com o produtor desde seu disco Eletrocardiograma, e os demais artistas que costumam trabalhar com trap, como DaLua, Yunk Vino, Geenuino e DNASTY. Os últimos, a dupla do DNASTY, tem a faixa com mais cara de hit junto com Sos, “PQP” tem o melhor refrão do disco, cantado pelo Hélio Crunk:

Elas ‘tão tipo: “PQP, quem é esse FDP?”
Minha vida é um filme VHS, DVD
Hoje eu sou quem ‘cês quer ser, ‘cês são comédia, CQC
Dedo médio pr’esses zé que não quer me ver vencer

Mano, eu fiz por merecer, de onde eu vim não vou esquecer
Foco no jogo até derreter, isso é obra de Marte, sou um ET
Bebendo até dar PT e depois do rolê
Ela brota no apê e eu me afogo em BCT

Imagem de divulgação do videoclipe dirigido por Guido Santos

O Veredito

Para quem diz que o trap, como um subgênero do rap, pode ser repetitivo, tanto na sonoridade quanto nas temáticas, FEBRE AMARELA do Willsbife mostra justamente o contrário. A produção impecável do coreano acompanhado de alguns dos artistas mais criativos da cena, mostrando que o trap é muito mais do que grandes hits, podendo alcançar patamares ainda maiores. Todo o cuidado do Will na seleção dos artista a partir de suas vozes e timbres resultou em um álbum memorável. O disco tem potencial para estar entre os melhores de 2020 e que muito provavelmente irá ditar alguns dos caminhos que o trap brasileiro pode tomar.

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