Em junho desse ano, o produtor Arit dropou a mixtape LOFIREFOGO, que saiu como um visual álbum em parceria com a rapaziada da JODO, que já trampou em clipes com vários artistas do underground nacional, como Eloy Polemico, Victor Xamã, niLL, Lessa Gustavo, BrisaFlow, entre outros. Arit por sua vez tem grande respeito entre os mocados do país, tendo produzido gente como GÁBE, Makalister e o próprio Xamã, já citado acima. Ou seja, tudo em casa.

O visual álbum, assim como os beats, mantém a proposta lo-fi, como o próprio nome já indica. O termo é a abreviação de low-fidelity, em tradução: baixa fidelidade. Isso quer dizer que, desde os beats até a gravação do curta-metragem, os artistas envolvidos usaram processos de captação mais simples, sem câmeras de alta qualidade ou um mega estúdio para gravação. Agora, eles convidaram alguns MC’s para colocarem vozes sobre os beats do Arit, surgindo assim uma reedição da mixtape LOFIREFOGO.

A LOFIREFOGO simboliza o momento em que a necessidade de criar supera a limitação de recursos, compensada pela criatividade de todos e todas que colaboraram na criação do trabalho. Em todas as músicas do projeto, temos uma energia de reflexão sobre as circunstâncias que se vive mas motivação para mudar as situações numa onda “deixa acontecer naturalmente”, como diria Xande de Pilares, ex-vocalista do Grupo Revelação.

“Limbo”, da 1lume3, abre a mixtape, seguida por BrisaFlow com “Tape do Futuro”. Em uma cadência que lembra muito Flora Matos, a rapper dá uma injeção de ânimo e motivação a reflexão proposta na faixa anterior. Durante toda a mixtape, temos essa energia de aceitação das circunstâncias, a reflexão sobre elas e não forçar uma solução, mas apenas agir de maneira espontânea em direção a mudança; uma forma e agir semelhante ao wu-wei, centro prático da filosofia chinesa do taoísmo, ou como diz Xande Pilares: deixa acontecer naturalmente.

voltacamixtape
Com a romântica “Carnaval”, Noua desacelera mais uma vez o ritmo, com o que pra mim, foi uma das melhores músicas do trampo, no refrão marcante de:

“Eu não quero te encontrar no carnaval/
Eu não quero te encontrar no carnaval/
Mas eu tô te procurando/
Eu tô me sabotando/

Eu sei”

Dro fecha o trampo com “aquaplanagem”, que resume toda a proposta da tape. Ele tem a consciência de tudo o que tá rolando na vida dele, assim como sabe que não tem muito a fazer além de juntar suas coisas numa caixa e se jogar na rua.

 

Os beats “desgastados” do Arit confortam muito bem a voz de todos os artistas que colaboraram e contribuem para a criação dessa atmosfera que busca desacelerar a vida cotidiana a qual todos somos submetidos, e são excelentes experimentações musicais, soando diferente da maioria dos trabalhos da cena brasileira atualmente, mostrando que o underground continua a revolucionar com os recursos que se tem em mãos, sem associar o under ao mal feito, como já nos lembrou Emicida lá em 2009. Exceto Dro, que gravou em seu home-studio, os demais artistas gravaram em um celular no QG da Jodo, em São Paulo. Apesar desse processo deixar a batida de algumas faixas se confundirem com as vozes, essa é exatamente a proposta do lo-fi e portanto, não compromete a audição do trampo. Na mixagem, colaboraram diversos produtores: O Adotado, Olho, João Alquímico e o próprio Arit.

Se você se cansou sobre a grande maioria da cena rimando de maneira rasa sobre os mesmos temas e busca conhecer quem está experimentando com o rap no Brasil, a mixtape LOFIREFOGO será um ótimo primeiro passo.

 

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