No dia 20 de Dezembro de 1997, o grupo Racionais MC’s lançou o quinto álbum da sua discografia: o clássico Sobrevivendo no Inferno.

Considerado um dos melhores discos da história da música brasileira, Sobrevivendo no Inferno foi um divisor de águas na carreira de um dos grupos mais importantes da história do país. Com letras impactantes e extremamente realistas sobre as quebradas de São Paulo, o álbum foi lançado de forma independente pela Cosa Nostra e já vendeu mais de um milhão de cópias.

Além das letras cirurgias do grupo, outro grande destaque pode ser ouvido naquele projeto: uma incrível produção, cortesia de ninguém menos do que o mestre KL Jay. Hoje iremos revisitar os samples usados para a criação de instrumentos icônicos que fizeram parte do disco.

1. “Jorge da Capadócia”

“Eu estou vestido com as roupas e as armas de Jorge/Para que meus inimigos tenham pés, não me alcancem.” Essa é uma nova roupagem da clássica música de Jorge Ben Jor, que está aqui auxiliando o Racionais MC’s com a primeira canção do disco.

KL Jay criou um beat em cima da música “Ike’s Rap II“, do disco Black Moses de Isaac Hayes, lançado em 1971:

2. “Capítulo 4, Versículo 3”

A introdução do disco, a música “Genesis“, não tem nenhum sample, apenas um instrumental de bastante suspense dando background aos versos de Mano Brown. Em compensação, a clássica “Capítulo 4, Versículo 3” trabalha muito bem os recortes.

Slippin’ Into Darkness” do grupo War tem seu riff e início de refrão sampleados no momento em que o beat entra, talvez esse seja o recorte mais conhecido da música do grupo. As baterias de “Sneakin’ in the Back” de Tom Scott & The L.A. Express também são as baterias de “Capítulo 4, Versículo 3“, ditando o ritmo da canção.

Outro recorte utilizado em “Capítulo 4, Versículo 3” é mais pontual. O vocal de Sade foi usado por KL Jay para dar voz ao pedido de “aleluia” que aparece duas vezes na música. Outro vocal usado datava de três anos atrás do lançamento do disco, era o de “Eles Não Sabem Nada” do grupo M.R.N.

Para finalizar a construção dessa grande música, KL Jay também usou um baixo insano do lendário grupo de soul e funk Ohio Players. “Pride and Vanity” foi usada como sample:

3. “Tô Ouvindo Alguém me Chamar”

Nessa música do disco, temos menos samples que a anterior. Com seu storytelling refinado, Mano Brown narra com flashbacks e de maneira não-linear uma história de entrada no crime até a trágica saída.

Tom Browne e seu trompete em “Charisma” são usados como background da música até o final. Samples mais fácil de reconhecer.

Poor Abbey Walsh” de Marvin Gaye também é usada. Novamente KL Jay busca samples em grandes artistas do soul e R&B. Logo no começo de “Tô Ouvindo Alguém me Chamar“, ele cria um crime de suspense com o riff da música que fez parte da trilha sonora do filme Trouble Man:

Do It to Me Now” do grupo Fatback Band é toca no começo da música, como se um rádio estivesse sendo desligado, que acaba quando Mano Brown começa a rimar:

4. “Rapaz Comum”

Agora com rimas de Edi Rock, ouvimos KL Jay trabalhar com mais uma música do eterno Isaac Hayes. Dessa vez, o produtor usa a clássica “Hyperbolicsyllabicsesquedalymistic“, parte do disco Hot Buttered Soul de 1969.

Ela é uma das músicas mais conhecidas do artista, e tem uma influência incrível no hip-hop, principalmente da Costa Oeste. Os mesmos elementos sampleados em “Rapaz Comum“, são usados em sons como “The Puppet Master” de DJ Muggs, “I Gotta Say What Up!!!” de Ice Cube, “Remedy” de The Game, “Black Steel in the Hour of Chaos” do Public Enemy e muito mais.

5. “Diário De Um Detento”

Talvez uma das maiores músicas do rap brasileiro, “Diário De Um Detento” tem uma das histórias mais cruas que rimas já contaram. Essa é uma faixa essencial para quem quer começar a estudar o rap nacional, e não precisa de tantas palavras de explicação.

Em seu instrumental, KL Jay foi extremamente suave e escolheu dois ótimos sons para complementar essa magnífica música. “Easin’ In” de Edwin Starr teve suas baterias escolhidas para dar ritmo ao som – essa música fez parte da trilha do filme Hell Up in Harlem:

Entre os versos de Mano Brown, KL Jay colocou alguns elementos de “Mother’s Son” de Curtis Mayfield, dando uma pegada extremamente funk para o instrumental.

6. “Periferia é Periferia (Em Qualquer Lugar)”

Essa é a música com mais samples no disco, mas grande maioria deles tratam-se apenas de vocais de outros sons de rap.

O sample base para essa música é utilizado em looping, trata-se de “Cannot Find a Way” de Curtis Mayfield, aqui novamente utilizado. É a segunda vez que KL Jay usa sample de Curtis no disco, e ambos são do álbum “Got to Find a Way” de 1974:

Em ótimos scratches, KL Jay encaixa vários vocais de músicas de rap na faixa, são elas: “Bem Vindos ao Inferno” do grupo Sistema Negro, “Brasilia Periferia” de GOG, “SL (Um Dependente)” do grupo M.R.N, “Brava Gente” de Thaíde e DJ Hum.

7. “Qual Mentira Vou Acreditar?”

Enquanto Edi Rock e Ice Blue ilustram como é uma noite em suas quebradas, KL Jay cuida de mais um instrumental incrível.

Qual Mentira Vou Acreditar?” tem uma pegada bastante influenciada pelo funk norte-americano, grande responsabilidade dos seus samples. “Hip Dip Skippedabeat” do grupo Mtume é usado como principal sample, que percorre toda a música:

Como a música ilustra uma espécie de rolê pelas quebradas dos rappers, nada mais do que uma rádio estar tocando, certo? E KL Jay usa novamente esse artifício no beat, como se uma rádio estivesse sintonizada. Durante essa sintonização ouvimos trechos da música: “Chegou a Hora” do tema da Boi Garantido de 1996, e também um trecho de “Vem Quente Que Eu Estou Fervendo” do grupo Barão Vermelho.

Ouvimos também mais para frente, um trecho de “Esquinas” do cantor Djavan.

8. “Mágico De Oz”

Em um single do disco que aborda a vida dos usuários de crack de São Paulo que vivem em situação precária, KL Jay usa um calmo soul dos Isley Brothers. “It’s Too Late” é parte integrante do disco Brother, Brother, Brother de 1972:

O grupo também coloca nesse som um recorte de uma própria música deles, “Homem Na Estrada“:

9. “Fórmula Mágica Da Paz”

De forma sagaz, KL Jay trabalha dois samples em “Fórmula Mágica da Paz“. O primeiro e principal é o da música “Attitudes“, do grupo Bar-Keys, que torna-se em looping a estrutura primária do instrumental:

No meio da música, vocais de Tim Maia são misturados com interpolações de Dagô Miranda, refletindo sobre a busca para a paz.

10. “Salve”

Sobrevivendo no Inferno termina com a música “Salve“, que usa o mesmo beat de “Jorge da Capadócia“, com sample de “Ike’s Rap II” de Isaac Hayes:

O melancólico, mas lindo sample de Isaac Hayes dá o tom perfeito ao começo e ao fim do disco. Para um disco icônico, nada melhor do que samples icônicos.


E aí, gostou? Faltou algum sample que deixamos passar? Deixe seus comentários abaixo que em breve poderemos voltar com esse quadro com um novo disco!

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Jhonatan Rodrigues

Jhonatan Rodrigues

Fundador do Raplogia em 2011, Joe é fã incondicional de Nas, futebol, cinema e séries de TV. Se apaixonou pelo hip-hop graças aos filmes sobre a cultura e escreve há 7 anos sobre o assunto na internet. Já passou pelo Rapevolusom e foi um dos moderadores do Genius Brasil.

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