Conversando com um amigo, perguntei a ele o que achava da relação entre alguns dos discos de RAP lançados nos anos 2000, o Bug do Milênio e as profecias de Nostradamus sobre o fim dos tempos. Penso nisso sempre que ouço André 3000 em seu verso “Well burn, mothafocka, burn American dreams”, na faixa “Gasoline”, do clássico “Stankonia”. Deltron 3030 falava sobre um futuro pós-apocaliptico, no ano de 3030, com influências do afro-futurismo, Sun-Rá e a “Terra prometida” aos negros.

Todas essas sensações passam por mim sempre que ouço EL-P rasgando uma linha de sintetizador na faixa “Straight Off The D.i.C”, uma das muitas – talvez todas sejam, faixas incríveis do clássico “The Cold Vein”, em que o duo Vordul Mega e Vast Aire, ambos do Harlem, falam de Nova Iorque como se a cidade fosse uma inteligência artificial programada para o massacre. E como existe uma Nova Iorque para cada distrito, cada bairro e cada rapper, a Nova Iorque de Vordul e Vast é fria, selvagem e sombria, como em um filme Sci-Fi ou um Blade Runner afro-americano.

E talvez por uma coincidência no mínimo bizarra, 4 dias antes do disco ser lançada, dois aviões atingiram as torres gêmeas em Nova Iorque, no que ficou conhecido como o “Atentado de 11 de Setembro”. Foi dentro dessa sopa de eventos violentos que surgiu um clássico. Vamos a história!

“Eu sinto que todo mundo quer algo de mim.”
“Sim, me fale sobre isso. É um mundo frio lá fora. Às vezes eu acho que estou ficando um pouco gelado.”

“A veia fria”, segundo Vast Aire, é uma metáfora inventada pela dupla para descrever a adversidade. Sempre que algo dá errado ou surge algum obstáculo, então estamos diante da “veia fria”. “The Cold vein”, então, é um disco sobre as adversidades da vida, seja do pobre, do negro ou da própria existência.

“Iron Galaxy” é a faixa que abre o disco, com a intro fazendo uma imersão do tom que o trabalho terá e da viagem que o ouvinte fará durante as 15 faixas. O refrão ecoando as linhas “My shell, mechanical found ghost, but my ghetto is animal found toast”, junto do instrumental de EL-P, já com os sintetizadores berrando e evoluindo progressivamente – como nas batidas de Just Blaze, aliado ao fato já citado do disco ter saído 4 dias após o atentado às torres gêmeas parecem mesmo um filme Sci-Fi. A forma como Vordul canta me lembra muito MFDOOM, soprando as palavras soltas que, num primeiro momento, parecem sem ritmo ou cadência, mas, sim, fazem todo o sentido e dão um estilo único ao MC.

Essa faixa é repleta de rimas sobre a frieza da cidade, a dureza que é a vida material, como no verso “Você sabe que você é uma das poucas espécies predadoras que ataca até a si mesmo?”, sendo a mensagem principal do disco. Mas, preciso abrir um parêntese para um assunto subliminar presente por todo o disco: O alfabeto supremo. 

 

Jay-Z usando um cordão com o símbolo da Nação dos Cinco por Cento

Jay-Z usando um cordão com o símbolo da Nação dos Cinco por Cento

O Alfabeto Supremo é um sistema de símbolos usado pela Nação dos Cinco por Cento – ou Nação dos Deuses e da Terra, onde cada uma das letras do alfabeto tem um significado particular.

A Nação surgiu de uma dissidência entre seu fundador, Clarence 13x e Elijah Muhammad, antigo líder da Nação do Islã. Não pretendo me aprofundar sobre a Nação dos 5%, então nesse link é possível entender o sistema de crenças e fundamento do grupo. Muitos rappers conhecidos fizeram ou fazem parte do grupo, como Jay-Z, Guru, Snoop Dogg, Jay Electronica, MC Ren e muitos outros. Vast Aire afirmou em entrevista para a Pitchfork que seu pai era um seguidor do Islã e que, assim como “The Message” de Nas, “Iron Galaxy” era a mensagem do duo. Isso explica a enxurrada de referências à Nação dos 5% e ao Alfabeto Supremo.

Retrato de Clarence 13x na Escola de Allah, Harlem, bairro onde foi fundada a Nação dos Cinco por Cento

Retrato de Clarence 13x na Escola de Allah, Harlem, bairro onde foi fundada a Nação dos Cinco por Cento

Voltando ao Alfabeto, como cada letra tem um significado mais profundo, o uso de siglas ou letras separadas durante o disco é enorme, como no verso abaixo:

Still black man holds nine, Gotta chill star C-A.L.L.A.H
Be the light of Shamar, work hard Shamar C-Cipher-A.L.L.A.H

“C-ALLAH”, segundo o Alfabeto Supremo, significa “Ver Deus através do físico”, numa leitura mais abrangente, sendo a letra C uma representação de visão espiritual ou compreensão, e a letra A uma representação de Allah, o Deus dos muçulmanos.

Pode parecer um pouco confuso, mas o alfabeto está disponível nesse link para consulta e entendimento, pois o uso dele amplia o modo como a dupla usou de metáforas e mensagens subliminares durante o disco.

Seguindo o baile do review e deixando as palavras doidas um pouco de lado, a faixa termina com uma homenagem à Big L, um dos maiores expoentes do Harlem!

Senhoras e senhores!
Eu gostaria de aproveitar o tempo para apresentar a vocês um grupo de jovens muito talentosos e ainda canibais, indivíduos sangrentos e violentos, pessoas que são obrigadas a comer seus filhos em um ataque de raiva e então sorria na sua cara

(EL-P em “Out the Cage”)

“Out the Cage” é onde, de fato, o disco começa. A faixa teve participação de EL-P, que inicia com os primeiros versos. O beat, é claro, também do El-P, começa a mostrar como o produtor se aprofundou nas linhas dos MC’s e criou uma musicalidade totalmente entrelaçada à temática do disco.

A busca por estar fora da caixa, da gaiola, da prisão, seja ela interior ou física é a busca de todo ser humano. Em rimas como “Eu sou honesto a uma falha e é minha culpa que eu sou tão honesto / Eu acho que é a dimensão que eu escalo / E flua como aracnídeos em bicas de água / O círculo nunca é visto e raramente é ouvido / Eles me colocaram em uma gaiola e Mega me tirou” e “Arrancou a gaiola e acendeu uma tigela gelada de sálvia / Patrulhando o labirinto com quatro Os e lâminas / Separe sua alma da casca, preso na barriga / Mande uma mensagem para aqueles que passam fome na Meca”, Vast fala da dualidade do sofrimento, da prisão física, originada, por exemplo, pela fome, ou pela espiritual, quando Vordul fala sobre “acender uma tigela gelada de sálvia”, que é uma planta de propriedades benéficas ao espiritual, usada por tribos de índios norte-americanas. Tudo isso faz com que a prisão tenha de ser derrubada no lado material e espiritual, sendo assim possível alcançar a liberdade humana, conhecer “o que habita fora da caixa”, como em Matrix ou no Mito da Caverna de Platão.

Há duas coisas na vida: fato e crença. Sim, e é melhor você acreditar, é um fato que eu apenas rolei a folha
Def Jux não se importa com sua cultura ou credo, ou a cor que você sangra, e seria o Boi contra alienígenas, tudo que você vê é marcianos empilhados
Como o fermento no meu peito b-boy sobe
Você não é um condenado, você foi pego atravessando a rua
E você não conhece o alfabeto, mas ainda está falando .. “

Sendo Cannibal OX um duo originado do RAP de batalha, é natural que o disco possua um forte apelo ao egotrip e aos ataques sem direção para outros MC’s. E em “Straight off the D.I.C” – ou algo como “Direto do divino, eu vejo” (Alfabeto Supremo …),  Vordul e Vast cospem fogo pra cima da cena usando de metáforas para se afirmarem como MC’s perigosos e valentes. Sendo eles donos do conhecimento do Alfabeto Supremo do Islã, podem se expressar por meio da filosofia, coisa que MC’s que não conhecem “a palavra” não são capazes!

Uma coisa que ainda não mencionei é que, “OX”, em tradução literal significa “Boi”. Mas, segundo o alfabeto, “OX” pode significar O = Cypher (Círculo perfeito ou esfera, que pressupõe que o ) e X = “Desconhecido”. Mas, o desconhecido no sentido que a Nação queria expor era o dos 85% da população que, segundo eles, ainda estão num “sono profundo” sobre a verdade. 5% são os que conhecem a verdade, dai vem o nome de “Nação dos Cinco por Cento”, e os 10% restantes são como “entidades do mal”. Ou seja, quando você ouvir o refrão “Cannibal O, plus the X …” repense o significado como mais uma das mensagens subliminares do disco.

 

" Você deve entender que a maior parte dessas pessoas não está pronta para acordar, e muitos são tão inertes, tão dependentes do sistema que vão lutar para protegê-lo." Dialogo entre Neo e Morpheus no filme "Matrix".

” Você deve entender que a maior parte dessas pessoas não está pronta para acordar, e muitos são tão inertes, tão dependentes do sistema que vão lutar para protegê-lo.” Dialogo entre Neo e Morpheus, no filme “Matrix”.

 

E, mesmo numa cidade como Nova Iorque, onde a verdade divina, a prisão mental e a catástrofe estão em profunda relação dialética, o amor ainda reina soberano. É sobre isso que Vast e Vordul cantam em “F-Word”.

Entre referências aos filme “Titanic” e “Beleza Americana”, Big Bang e Teorias de expansão do universo, a dupla narra uma história de amor onde eles querem ser mais do que amigos de uma mulher. É muito foda como essa composição foi mesclada com todas essas temáticas, sem tornar o som mais um love-song-meloso. E, mais uma vez, usando dos conhecimentos do Alfabeto Supremo, mas dessa vez eu deixo que vocês saquem nas entrelinhas.

E a câmera lenta era seus lábios enquanto ela redigia a palavra F
“Não tome isso pessoal! Eu gosto muito de você, mas eu não quero perder o que temos ”
Mas o que temos agora é atrito, ela me dizendo intimidade e amizade – ela não está misturando
A palavra F …

Até aqui já podemos notar a brisa dos caras e como suas metáforas podem ser difíceis de compreender. Isso fez com que surgissem textos pela internet, fazendo um comparativo e até mesmo uma disputa entre “The Cold vein”  e “Madvillainy”, para chegar à conclusão de qual dos dois discos é o melhor de todos os tempos no Hip-Hop underground. Isso vai além de serem discos perfeitos, mas passam pela semelhança no esquema de rimas da dupla com MFDOOM, das produções atemporais de EL-P e Madlib, fazendo os dois álbuns terem muitas coisas em comum, apesar de terem diferenças enormes entre as narrativas. O RAP, apesar de parecer até mesmo um assunto secundário, diante de tantos temas e histórias, se faz presente da forma clássica dos anos 2000, na faixa “Strees RAP”. Boombap violento, cadenciado, o que era o suprassumo da época.

Uma rima do Vast Aire me chamou muita atenção por me lembrar um documentário, que assisti há alguns anos.

Elohim, com o esquema de rima, e quando as letras saem da boca elas parecem feixes de luz
Com asas ligadas ao microfone eu falo rimas voadoras, leia entre as linhas
A batida está tentando fazer sexo e se casar comigo

Bom, o documentário que assisti se chama “Kundalini – O portão sagrado para o Éden”. Não vou entrar em muitos detalhes, mas o filme fala sobre o poder da energia sexual.

Acontece que “Elohim” é uma palavra hebraica para se referir à Deus. A primeira frase da bíblia hebraica é: “No princípio, Elohim criou os céus e a terra”. Elohim também é o plural adjetivo de dois gêneros sexuais, oriundo da palavra “Eloah”, que também significa Deus. Numa tradução literal, “Elohim” se refere à “um Deus de dois gêneros”. Isso explica a questão do sexo sagrado, usado como forma de se “ligar com o divino” e também se opõe a ideia do Deus-homem-branco-barbado do Cristianismo-Judaísmo que nos vendem durante todos esses anos.

Vast pode estar se referindo à ele mesmo como um ser de dois gêneros, não biologicamente, mas da idéia de um ser humano originado por um Deus de dois gêneros, composto por suas energias sexuais – masculina e feminina, o que se baseia no conceito de Yin-Yang, ou energias duais que governam o mundo. As ideias de sexo entre batida e rima/MC fazem alusão ao termo inicial e as ideias de duas energias complementares ao ser.

 

"The Cold vein", em formato LP

“The Cold vein”, em formato LP

 

Assim como em “Madvillainy”, onde a Stones Throw exigiu de MFDOOM e Madlib um som clássico para fechar o disco, “The Cold vein” fecha com “Pigeon”, com as metáforas mais sinistras de todo disco, na minha opinião. As analogias presentes na faixa fazem um paralelo entre pombos e seres humanos à margem da sociedade, pessoas essas retratadas durante todo o disco, nas entrelinhas.

Pássaros de mesma pena voam juntos, congestionados em uma esquina majestosa
Essa é uma meta de pouco tempo para a maioria deles, porque a maioria deles
preferiria expandir suas asas e passar por cima de coisas maiores, isso é o que chamamos de vôo inspirado
Pombos que comem crosta de pizza todas as noites …

As críticas ao capitalismo e a desigualdade, que ficaram escondidas na maioria das faixas, vem a tona com essas linhas. “Pombos que comem crosta de pizza” e “pássaros de mesma pena voam juntos” são uma referência aos negros e pobres que moram nas ruas e esquinas das ruas de Nova Iorque, se aglomerando e estando à sorte do acaso para comer ou sobreviver. Pombos e pessoas em situação de rua são igualmente tratados como seres inferiores e incapazes de merecer dignidade.

Manos que estouram fluxos pesados através da narina, cérebros chiando, pegue a pistola e fique hostil
Ele pegou você sozinho, gritando, desempregado: “É por isso que eu roubei você!”
Cansado do Medicaid …

O Medicald é um programa de assistência médica, criado para pessoas de baixa renda, pelo governo dos Estados Unidos. Somente pessoas em situações extremas, tratadas como pombos, fazem uso do programa. Outra critica feroz ao capitalismo selvagem e desigual é sobre os motivos que fazem um negro ou pobre roubar alguém, ficando além do dilema filosófico entre certo e errado e atingindo o ponto da desigualdade de classes e raças, trazendo o problema a tona e questionando o quão errado é alguém roubar para sobreviver. Eu acho essa música genial!

 

Aqui eu falei somente da ponta do Iceberg de referências, metáforas e influências da dupla, mas o suficiente pra mostrar porque “The Cold vein” é um dos maiores discos da história do Hip-Hop underground. Apesar de ter vendido apenas 110 mil cópias, a mensagem dos MC’s e a qualidade impecável de produção que a gravadora Def Jux colocou em cima do álbum vão além de qualquer número da indústria. EL-P, após esse trabalho, ganhou status de um dos grandes produtores dos anos 2000, que se confirmou com os demais trabalhos que fez ao longo da carreira. E quanto a dupla Vordul Mega e Vast Aire, apesar do hiato após o lançamento do seu debut, se tornaram lendas do RAP, por toda a qualidade lírica encontrada em seu disco de estréia. “The Cold vein” certamente merece ainda mais estudo de suas linha e histórias, como merece – para sempre, um lugar no panteão dos maiores.

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Marco Aurélio

Marco Aurélio

Fotografo shows sujos onde frequento, escrevo rimas que nunca vou lançar e faço pautas sobre coisas que vocês (ainda) não conhecem.

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