O sul sempre foi lar de alguns dos rappers que mais trabalharam duro para alcançar objetivos. Fora do eixo Leste-Oeste, essa região demorou a engrenar no rap, mas na última década foi uma das que mais nos apresentaram artistas. É complicado falar de quem foi a pedra fundamental do cenário por lá, seria muito melhor falar de alguns nomes.

O rap em Houston já era realidade graças ao empresário J. Prince, fundador da Rap-A-Lot, na década de 1990. O sucesso dos Geto Boys no começo da década abriu caminho para vários outros artistas de H-Town. Cerca de cinco horas da cidade, outro cenário estava nascendo, era o de Nova Orleans.

A identidade de Nova Orleans no rap começou a se formar através do gênero bounce music, mais enérgico e que tocava nas festas. Kevin “MC T. Tucker” Ventry foi um dos primeiros nomes a fazer sucesso. Mas o bounce demoraria a emplacar nacionalmente.

master p

No mesmo começo de década de 1990, o jovem Percy Robert Miller começava a escrever seu caminho. Criado nos Conjuntos Habitacionais Calliope em Nova Orleans, Percy, que mais tarde seria conhecido pelo seu nome artístico de Master P, tinha seu maior sonho no basquete, ganhando inclusive uma bolsa escolar na Universidade de Houston. Depois de largar a instituição e ser transferido para a Universidade Merritt em Oakland, ele se graduou em administração.

Master P herdou dez mil dólares do seu avô, e abriu uma loja de discos chamada No Limit Records, localizada em Richmond, na Califórnia. O nome foi herdado quando ele resolveu se tornar uma artista e abrir um selo. Em Fevereiro de 1990, ele lançou uma fita cassete intitulada Mind Of A Psychopath.

Um ano depois, Master P lançaria seu primeiro disco, Get Away Clean, e daria início ao caminho de tornar a No Limit Records um dos maiores selos dos anos 90.

No Limit: Os Primórdios

master p

Até 1995, a No Limit Records era uma gravadora de Oakland. O cenário intenso da cidade californiana proveu a força necessária para que Master P ganhasse notoriedade apesar do pouco sucesso dos seus lançamentos. As músicas do selo constantemente estavam inclusas em compilações de artistas do oeste. A distribuição da No Limit também ficava por conta da In a Minute Records, também de Oakland.

Os primeiros artistas assinados pela gravadora também eram de Oakland. O grupo TRU (o qual P fazia parte) e E-A-Ski eram formados na cidade e lançaram projetos em 1992, junto ao segundo trabalho solo de Percy, Mama’s Bad Boy.

Em 1994, Master P lançou a obra The Ghettos Tryin to Kill Me!, trabalho que começou a divulgar ainda mais a No Limit Records e colocá-lo como um rapper importante. No projeto, ele apresenta alguns artistas de mais sucesso da sua gravadora: C-Murder e Silkk the Shocker, ambos seus irmãos.

No final daquele ano, ele começou a assinar outro artistas baseados em Nova Orleans, entre eles, Mystikal. Relocando oficialmente a gravadora para a cidade da Louisiana, Master P estava construindo um grande plantel. A cereja do bolo seria o contrato de distribuição com a Priority Records, onde Master P exigiu manter controle total sobre a gravadora e estúdio. O primeiro sucesso viria em 1995, com “I’m Bout It, Bout It” no disco True do grupo TRU.

Como artista principal da No Limit Records, Master P lançou dois clássicos do rap de Nova Orleans: Ice Cream Man (1996) e Ghetto D (1997), discos extremamente elogiados pela crítica e que trouxe grandes sucessos da sua carreira, entre eles, “Mr. Ice Cream Man“, “I Miss My Homies“, “Make ‘Em Say Uhh!“.

Paralelo a Master P, poucos artistas da gravadora fizeram sucesso até 1997. O que mais se aproximou disso foi Mystikal, que com seu flow poderoso, lançou o projeto Unpredictable e emplacou “Ain’t No Limit” com Silkk the Shocker. Nesse disco, a gravadora trouxe Snoop Dogg como colaborador na música “Gangstas“, em uma jogada que se tornaria o maior negócio para eles um ano depois.

1998-99: O biênio prolífero

Em 1998, a gravadora não estava mais sozinha no cenário de Nova Orleans. A local Cash Money Records incomodava a No Limit com jovens rappers, mas ainda nenhum lançamento relevante. Isso mudaria naquele ano, quando o selo fundado por Birdman assinou um lucrativo contrato com a Universal, garantindo 30 milhões e 85% dos royalties de todos os lançamentos.

Um ano antes, a Cash Money havia lançado nomes como Juvenile, B.G. e a rapper Magnolia Shorty, artistas poderosos em Nova Orleans. Fora isso, o grupo Hot Boys, que era constituído por B.G., Juvenile, Turk e Lil’ Wayne se tornou uma pedra no sapato da No Limit. Mas essa disputa não prejudicou o crescimento da gravadora de Master P, que no ano de 1998 assinou com ninguém menos do que Snoop Dogg.

Snoop Dogg

Snoop Dogg alegava falta de pagamento e o perigo de ser um membro da infame Death Row em 1998, como já contamos aqui nesse especial. A loucura dos anos noventa e violência exacerbada que rondava selo fizeram o rapper migrar para Nova Orleans e viver uma nova fase de sua carreira com a No Limit.

Foram três álbuns de Snopp pela No Limit: Da Game Is to Be Sold, Not to Be Told, o primeiro projeto, de 1998, que foi extremamente criticado; No Limit Top Dogg de 1999, que trouxe alguns hits do rapper como “Down 4 My N’s” e “Bitch Please” e o último sendo lançado em 2000, The Last Meal, projeto elogiado com sons produzidos por Dr. Dre, Timbaland e Scott Storch.

A contratação de Snoop foi extremamente lucrativa para Master P. O primeiro disco do rapper de Long Beach vendeu mais de 500 mil cópias na primeira semana, atingindo platina dupla em menos de três meses.

23 discos ao todo foram lançados por vários artistas da gravadora em 1998. O plantel era gigantesco, com álbuns de boa qualidade e outros nem tanto. No ano seguinte, o número caiu para 15, mas a irregularidade na qualidade dos projetos era a mesma.

Master P definiu um conceito para os álbuns da No Limit: pelo menos 20 faixas, repleto de participações caseiras e capas extremamente curiosas, feitos pelo estúdio Pen & Pixel.

O estúdio de design gráfico era localizado em Houston, mas por muitos anos cuidou das capas da No Limit, e elas se tornaram tendência no rap sulista. Uma capa feita pelo pessoal do Pen & Pixel, precisava ter:

  • Textos vistosos em 3D;
  • Nomes do artista ou álbum cravejados em diamante;
  • Ostentação com mulheres, bebidas e efeitos de bens materiais em volta;

O estilo gangster de Nova Orleans, por muito tempo, era definido por essas capas. Anos atrás a Complex fez um compilado das capas mais feias feitas pelo estúdio.

Nesse biênio, Master P viu ele e seus artistas emplacarem alguns discos no topo da Billboard, fazendo da gravadora uma companhia extremamente vendável no fim da década de noventa.

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Expandindo os horizontes

Com os anos de 1998 e 1999 sendo os de mais sucesso da gravadora, Master P capitalizou bastante dessa fama e também expandiu a No Limit Records. Em 1997, a No Limit Films teve início com I’m Bout, filme com orçamento minúsculo e estrelado pelos próprios rappers da gravadora.

A aventura de Master P com filmes começou com esses lançamentos para home video, e acabou atingindo o auge em 1998 com o filme I Got the Hook-Up, que custou 3.5 milhões de dólares para ser produzido e faturou 10 milhões.

Depois de I Got the Hook-Up, a No Limit Films lançou mais alguns projetos cinematográficos, com destaque para Foolish, escrito e estrelado por Eddie Griffin, e o filme Lockdown, de 2000.

Procurando capitalizar a fama de Master P e da No Limit, a entidade de luta livre World Championship Wrestling trouxe um time de lutadores comandado pelo chefe da gravadora. O time era chamado de The No Limit Soldiers, e P assinou um contrato que rendia a ele 200 mil dólares por aparição na TV.

O declínio da No Limit Records

Master P, Silkk the Shocker, C-Murder e Jimmie Keller.

O ano era 2000, e Master P emplacou mais um disco no topo da Billboard. Era o projeto Goodfellas, feito pelo grupo do qual era parte junto a outros membros de gravadora, o 504 Boyz.

Naquele ano a gravadora foi mais responsável com seus lançamentos, fazendo apenas 5 projetos no ano. Todos eles foram bem recebidos pela crítica e público. Em 2001, Soulja Slim lança o ótimo projeto The Streets Made Me e a gravadora ganha um novo respiro com o lançamento do primeiro disco de Lil’ Romeo, de apenas 12 anos. Filho de Master P, Romeo viria para batalhar de frente com outra estrela do rap infantil: Lil’Bow Wow.

Também em 2001 a gravadora saiu do contrato com a Priority, passando a ser distribuída pela Universal. Um novo nome surgiu, e a No Limit passou a se chamar New No Limit.

Em 2002, um grande baque marcou o começo do declínio da gravadora: C-Murder foi preso por assassinato. Seu caso se estendeu até 2009, quando foi sentenciado para viver o resto da sua vida atrás das grades.

Outro péssimo momento a gravadora viveu em 2003, quando deixou a Universal e anunciou falência. Com isso, seu catálogo foi vendido. Em 2004, uma parceria com a Koch Records foi feita, e a gravadora teve alguns lançamentos esporádicos na segunda metade da década passada.

Romeo tomou frente da gravadora quando encerrou sua carreira no basquete universitário, e em 2010 novamente a No Limit foi restabelecida, dessa vez com o nome de No Limit Forever Records.

Até hoje a gravadora lança discos e tem um grande catálogo de artistas. Esse ano, eles prometem investir novamente em filmes com a sequência I Got the Hook Up 2, porém, muito longe da fama e relevância que teve no cenário no fim da década de noventa.

Mesmo cada vez mais distante dos tempos áureos, a No Limit Records ficou para a história e merece ter sua história contada. Abaixo preparei uma playlist com alguns dos maiores sucessos da gravadora:

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Jhonatan Rodrigues

Jhonatan Rodrigues

Fundador do Raplogia em 2011. Ex-escritor do Rapevolusom e ex-Genius Brasil. Me encontre no Twitter falando sobre rap: @JhonatanakaJoe

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