Falecido em Setembro de 1991, Miles Davis estava no meio da produção de mais um disco. Um projeto que quando lançado, não agradou os críticos que acompanhavam o trabalho do músico durante os quase cinquenta anos de carreira. Mas o intitulado Doo-Bop tem um valor simbólico, ainda mais para a cultura Hip-Hop.

Vivendo em Nova York durante a ascensão do Hip Hop, Miles tomou uma decisão: queria fazer música para o gênero. Para isso, o músico usou toda a sua influência e conseguiu contactar um jovem mas sucedido empresário do ramo, um tal de Russell Simmons. O fundador da Def Jam também era famoso pela Rush Management, que gerenciava artistas como o grupo Run DMC e a dupla Eric B. e Rakim.

Foi pela Rush Management que o nome de Easy Mo Bee entrou no projeto. A agente do produtor, que havia recém trabalhado com GZA quando ainda conhecido como The Genius no primeiro disco do rapper ainda na época pré-Wu Tang, o Words from the Genius. Miles Davis, mostrou trabalhos desse disco para Miles que se interessou em Easy quando ouviu a faixa True Fresh MC.

Easy Mo Bee foi o escolhido por Miles Davis. Em entrevista para Uncut Magazine, o produtor revelou que o músico não gostou nenhum pouco do trabalho de outros produtores que foram até a sua casa perto do Central Park. “Isso é foda! Você faria isso para mim?” disse Miles para o produtor que três anos depois trabalharia em um dos maiores projetos da história do Rap.

A produção do projeto começou no início do ano de 1991, com algumas faixas já construídas por Easy Mo Bee e que Miles adorou. Boa parte da produção do projeto se dava na mão de Easy Mo Bee, Miles e Deron Johnson, um tocador de teclado. O músico não tocou nada para o disco, algumas partes foram feitas pelo produtor com a instrução de Davis, e outras trabalhadas em voltas de músicas inéditas dele.

Miles ficou doente no meio do projeto, como descreve Easy Mo Bee: “Tínhamos gravado seis músicas e o agente do Miles chegou para mim falando que ele estava meio doente, mas que precisávamos terminar o disco, e me deu duas músicas para trabalhar em cima,” revela o produtor. O desejo do músico em terminar o disco era notável, sendo que ele amou todo o projeto do começo ao fim. “Miles amou seu trabalho, ele quer lançar esse disco. Precisamos que você apenas retrabalhe essas duas músicas.”

Para Easy, Miles Davis era um perfeccionista, e foi por isso que o disco levou o Grammy. Doo-Bop foi gravado em seis meses, e a ideia era de que os dois saíssem em turnê. O produtor descreve o trabalho com Davis como algo que o músico sempre fez em sua carreira: tentar coisas novas. “Um pouco antes dele falecer ele disse que queria cair na estrada comigo, fiquei imaginando eu e ele em um palco, eu com uma SP1200 (drum machine).”

Querido pelos críticos ou não, Doo-Bop é um disco importante para nós aficionados por Hip Hop, afinal, é a união de um dos maiores músicos da história com o nosso gênero e cultura, além disso, influenciou uma leva de projetos que viriam nos próximos anos, o mais notório, Jazzmatazz Vol.1 do mestre Guru, que é até hoje um dos projetos experimentais mais clássicos do Rap.

Sem mais delongas, ouça o disco abaixo.

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Jhonatan Rodrigues

Jhonatan Rodrigues

Fundador do Raplogia em 2011, Joe é fã incondicional de Nas, futebol, cinema e séries de TV. Se apaixonou pelo hip-hop graças aos filmes sobre a cultura e escreve há 7 anos sobre o assunto na internet. Já passou pelo Rapevolusom e foi um dos moderadores do Genius Brasil.

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