h”Happy Home” é uma faixa do rapper Talib Kweli, lançada em 2007, no álbum “Liberation”, em parceria com o produtor Madlib.

O som é o que podemos categorizar como “storytelling”, ou seja, a capacidade de contar história dentro do Hip-Hop. Talib é aclamado como um dos liricistas mais versáteis e inteligentes do nosso RAP. Não a toa, seu nome significa “estudante/buscador da verdade” em árabe.

Talib Kweli, durante show no Brooklyn, em 2017. Foto: Vivian Wang

Talib Kweli, durante show no Brooklyn, em 2017. Foto: Vivian Wang

Com essa capacidade em mãos, o rapper criou uma música como forma de homenagem para sua família, e nela ele conta toda a tragetória dos seus avós, pais, até chegar nele mesmo, passando por versos sobre a história de uma família negra em meio um país segregado.

Gosto muito dessa forma de se contar história tão ricas e complexas em 4 ou 5 minutos, e Talib faz isso em exatos 5:50 minutos de um dos sons mais bonitos de toda a sua carreira, e com isso podemos conhecer não só a vida do pequeno Talib como uma breve história de toda a população negra nos Estados Unidos.

Deixa o som rolando e vamos conhecer, verso a verso, toda essa história.

As duas primeras estrofes apresentam os avós maternos de Talib, Lloyd e Beverly.

Back in the day when the bus was less than three quarters
Lloyd met Beverly and took her out to Sweet Waters
“Boy what a looker” he thought, “Let me court her”
He musta been a playa cause she popped out three daughters

Brenda the oldest by herself for a little while
That’s ’til Joanne showed up she was the middle child
Then came Loretta next she was a little wild
Beverly was fly so her daughters had a little style

Eles se conheceram e acabaram se apaixonando. O casal teve três filhas – Brenda, a mais velha, Joanne e Loretta. Brenda é a mãe de Talib.

Nas linhas seguintes, Talib conta sobre como sua mãe foi a primeira da família a frequentar uma faculdade.

Brenda the first in the family to go to college
With dreams of being properly addressed as doctor
Insert the name of the man who gonna sweep her off her feet
In a heartbeat sharper than shark’s teeth

Talib teve uma condição econômica mais estável do que a maioria dos moradores do Brooklyn, o que proporcionou para ele e sua mãe ter acesso a boas escolas e universidads. O rapper explicou que sua família valorizava muito mais o estudo do que bens materiais, e isso foi um fator decisivo para a criação dao rapper, tanto que, desde jovem, Talib foi inserido nos estudos afro-americanos.

Isso causou certas brigas entre o rapper e outras pessoas, que o chamavam de “aristocrata”, como podemos ver nesse tuite em que o rapper foi acusado de ter tido privilégios.

É sempre importante analisar a contradição quando homens brancos acusam os negros com acesso a educação de serem privilegiados, quando “Em 1947, último ano em que o Censo registrou dados referentes à alfabetização da população americana, a taxa de alfabetização entre os negros equivalia a 90% da taxa de alfabetização entre brancos¹.”

Fica claro aqui como são vistos os negros “bem sucedidos”, algo extretamente presente no RAP Nacional, quando se fala de rappers negros e/ou pobres que ascendem no capital, os taxando de “vendidos”, sem mencionar toda a construção racial e de classe que essas populações sofrem. Ou, como diria Mano Brown, o famoso “fazer duas vezes melhor”.

Talib & Mos Def, o lendário "Black Star".

Talib & Mos Def, o lendário “Black Star”.

As duas últimas esfrotes do primeiro verso falam sobre a conciliação entre a visd amorosa e acadêmica de sua mãe, Brenda.

The ratio of black men to black womnn at this college is preposterous
If you a scholar you already know
So she decided she should focus on her studies
She couldn’t have boyfriends, she could have buddies

When she get out on her own she can bring men home
But there was one in particular breaking out the friend zone
It’s déjà vu the way this came to me
And it explain how I came to be
I’m from…

Quando o rapper fala “The ratio of black men to black woman at this college is proposterous” e “So she decided she should focus on her studies / She couldn’t have boyfriends, she could have buddies” fica evidente outro problema: O machismo. Não apenas como negra, mas como mulher negra, a mãe de Talib sofreu muito na faculdade em que estudava, pois proporção de homens negros para mulheres negras era muito grande. Isso é um fato, visto que, homens em geral tem mais espaço em meios sociais do que mulheres. Quando olhamos para esse problema por trás da ótica negra, isso se torna mais complexo, pois a estrutura de poder capitalista cria castas, onde o antagonismo entre classe, gênero e raça são pilares do seu domnínio.

Um estudo realizado em 1998 mostra essa disparidade, que deixa explicito o problema entre raça e gênero em todos os países do mundo. Os dados foram baseados no cenário profissional, usando como base trabalhadores com uma escala de trabalho de 40 horas semanais, mostrando os rendimentos mensais de cada um dos 4 grupos estudados:

1º. Homens brancos: R$ 726,89/mês

2º. Mulheres brancas R$ 572,86 79/mês

3º. Homens negros: R$ 337,13 46/mês

4º. Mulheres negras: R$ 289,22/mês

Esses dados apontam os problemas citados pelo rapper em poucas linhas, e foi nesse cenário que sua mãe, mesmo com a idéia de ter que estudar e somente estudar, conheceu um rapaz que viria a ser o pai de Talib, que o rapper mostra quando fala “But there was one in particular breaking out the friend zone, and it explain how I came to be .. “.

Maarcha de mulheres negras, nos Estados Unidos

Maarcha de mulheres negras, nos Estados Unidos

O segundo verso começa com Talib falando, agora, sobre seus avós paternos, Stan e Jivote.

Back in the days it was hard for black actors
They had to lighten they skin with makeup like Max Factor
My grandfather Stan wasn’t Nothin’ But a Man
He fell in love with Jivote so he took her by the hand

Aqui tem uma linha muito interessante, onde Talib fala “They had to lightn they with makeup like Max Factor”, que me parece um trocadilho com o conceito de “Black face”, usado pelos atores brancos americanos quando tinham de atuar como personagens negros. Ao falar que atores negros sofriam, e acabavam pintando seus rostos de branco com Max Factor, Talib tenta mostrar como os negros tinham de se equivaler aos brancos para conquistar seus espaços na sociedade, principalmente nos meios artisticos que, como fica evidente, era extretamente segredado. Max Factor é uma famosa maquiagem usada no cinema norte-americano, fundada em 1909, e que deixava as pessoas com uma aparência ainda mais branca.

Na estrofe abaixo, Talib fala sobre como seu pai – Perry, nasceu após o encontro entre seus avós, e sobre as viagens de sua família para fazer músicas.

They had two sons, Stanley and Perry
They go together like Brandy and Sherry or Coke and Mary and Barry
Simply put they don’t always get along
They used to travel as a family doing shows singing songs

Simply put they don’t always get along
They used to travel as a family doing shows singing songs
But this was through the Segregated South (…) 

Existe uma metáfora muito foda nesse verso, que explica como eram unidos como “Brandly and Sherry” e “Mary and Barry”. “Brandly and Sherry” são duas bebidas – Aguardente e vinho, respectivamente, que são vendidas juntas em alguns lugares dos Estados Unidos.

Já com relação a “Mary and Barry”, Talib retorna a questão negra.

Mario Barry era uma político e ativista afroamericano, qu conduzia diversos trabalhos voltados para as comunidades negras. Em 1967, ele se casou com Mary Treadwell, ativista dos direitos civis. Em 1972 fundaram o Pride, Inc, um programa financiado pelo Departamento de Trabalho para fornecer treinamento profissional a homens negros desempregados. Esse grupo empregou centenas de adolescentes para limpar ruas e becos desarrumados no distrito de Columbia.

Dai vem as metáforas acerca da união entre seus avós e familiares.

Aqui existe outro verso muito interessante que narra as viagens de seus avós fazendo música em pleno sul segregado. As Leis de Jim Crow foram leis qu vigoraram até 1965 no Sul dos Estados Unidos, tornando a segregação um direito por LEI. As leis mais importantes exigiam que as escolas públicas e a maioria dos locais públicos (incluindo trens e ônibus) tivessem instalações separadas para brancos e negros. Não fica difícil imaginar o que era ser um músico negro que viajava para o sul nessa época ..

"Lavamos apenas para pessoas brancas". Placa usada nos Estados Unidos durante a existência das Leis de Jim Crown

“Lavamos apenas para pessoas brancas”. Placa usada nos Estados Unidos durante a existência das Leis de Jim Crown

 

But Perry was not feelin’ complete, he had to get on his feet

He said, “God willin’, I can get into this school, that’s smarter for real
Plus I got this draft card in the mail”
The champ said, “I ain’t got no quarrel with them Viet Cong”

Seguindo nos últimos versos da segunda parte do som, Talib fala sobre Perry, seu pai, e o dia em que recebeu uma carta o convocando para combater na Guerra do Vietnã.

Esse conflito é um dos mais importantes já enfrentado pelos Estados Unidos, num tempo em que a Guerra Fria estava cada dia mais quente. Após a guerra de independência do Vietnã, conduzida pelo Partido Comunista do país, o Vietnã foi dividido em duas partes – o norte comunista e o sul capitalista.

Logo a bomba estourou, e o sul foi invadido pelas tropas de Ho Chi Mihn, dando início ao conflito.

Os Estados Unidos, com forte apelo anti-comunista, enviou tropas para auxiliar o sul, e aí começa a história do pai de Talib nessa guerra. O conflito foi marcado por uma forte presença de jovens americanos, que morriam aos montes nos túneis de Hanoi. Alguns textos explicam a função do afro-americano no conflito, sendo enviados aos montes, da mesma forma que aconteceu com o escravos africanos no Brasil, durante a Guerra do Paraguai. Uma evidente forma de genocídio de povos considerados inferiores.

Em 12 de junho de 1967 aconteceu, nos Estados Unidos, uma reunião histórica. Muhammad Ali concedeu uma coletiva de imprensa após ser punido pela justiça norte-americana por ter se recusado a lutar no Vietnã. O governo americano, então, achava que a convocação e o aceite de Muhammad Ali em ir à Guerra poderia ser um grande trunfo no convencimento de seus cidadãos pela entrada do país na Guerra. A Casa Branca desejava que um campeão mundial de pesos pesados desse um exemplo para a sociedade, sendo um “bom negro”, cristão e patriota. Exemplificado pela sua adesão à guerra do Vietnã.

Em sua defesa, disse que “nenhum vietnamita nunca me chamou de negro”. Essa frase é a grande referência por trás do verso “The champ said, “I ain’t got no quarrel with them Viet Cong”.

É importante também ressaltar que, a essa altura, em 1996, o Partido dos Panteras Negras – a maior referência para a luta racial e de classe nos EUA, já existia e tinha um viés totalmente Marxista-Maoista, o que engrossava o coro dos negros contra essa guerra.

 

 

 

 

 

Black Panther Party, no Capitólio, em 1967

Black Panther Party, no Capitólio, em 1967

O último verso, para encerrar o som, é onde Talib, já nascido, relembra de alguns momentos vividos com sua família, fazendo uma espécie de homenagem e reafirmando todo o aprendizado que teve com os seus antepassados.

Times is hard but we makin’ it through, I’m taking you through the scene of the family reu’
The family tree no matter what I’m standin’ with you, Insanity Please, jail time, death is trouble
Through the stress and the mess and the debt I love you, I go out in the world and represent the family name
It used to hang on people from a tree like a candy cane, Now I’m standing on the shoulders of my ancestors
And I’m throwing up the sign of the times like hand gestures, and no matter, where in the world I roam get the money and always bring it back to…

Talib é conhecido como um grande militante dos direitos civis dos afro-americanos. Como dito no início do post, é também conhecido pela sua profunda inteligência, seja com as rimas ou com seus discursos. Tudo isso graças a oportunidade que teve de ter uma boa educação escolar, por ter uma família que conseguiu priorizar o seu estudo, dando-lhe capacidade para se formar como um cidadão. Ao contrário dos ataques que o MC sofre quase diariamente em seu twitter, o que deveria ser visto como um privilégio, é somente um direito básico de todo cidadão, assegurado na constituição, e isso não pode ser uma forma de ataque ao artista, o chamando de burguês ou até mesmo aristocrata.

Historicamente, e como podemos ver nesse singelo post, os negros estão anos-luz atrasados com relação aos brancos, e a única causa disso são os próprios brancos! A história de Talib é uma excessão onde deveria ser regra, é uma história de superação e afirmação, de um negro que, mesmo com a ascensão social, jamais esqueceu a luta do seu povo e de seus antepassados, e que tenta, diariamente, passar pra frente a luta que mantiveram. Muito respeito a um dos melhores MC’s da história do RAP.

 


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

¹George Reid Andrews, “racial Inequality in Brasil and the United States: A Statistical Comparison”, Journal of Social History (Winter, 1992), p.244

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Marco Aurélio

Marco Aurélio

Fotografo shows sujos onde frequento, escrevo rimas que nunca vou lançar e faço pautas sobre coisas que vocês (ainda) não conhecem.

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