Abrindo caminho, esse é o lema

 

Em novembro de 2019, Criolo faria seu show da turnê “Boca de lobo”, em Belo Horizonte.  Precisavam de alguém para abrir o show. Os produtores da A Macaco tiveram a ideia de reunir um grupo de mulheres da cena do rap de BH. Foi aqui que a fenda se abriu. Carol de Amar, gestora da Macacolab – braço criativo da A Macaco – foi a responsável por criá-lo e a ideia inicial deu tão certo que decidiram seguir com o projeto. 

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Créditos – Gabriela Otati/Estúdio Sixtema

A Fenda é foda fi, segura essa mistura

 

O Fenda é formado por cinco rappers belorizontinas: Paige Williams, Laura Sette, Iza Sabino, May e Thais Dj Kingdom. Cada uma delas já possuía seu destaque na cena local e  criavam seu próprio material antes da formação do grupo – e não pararam suas carreiras solo depois disso. As cinco, com características próprias e abordagens diferentes, juntas, formam um grupo único. 

Paige Willians, antes do Fenda, participava da Enversos, uma banda formada em companhia de outros colegas da faculdade de música da UFMG. Destaque para a participação em “Corra”, música do álbum O menino que queria ser Deus (2018) do rapper Djonga. Com uma pegada mais R&B, Paige deixa claro qual é a sua. Em março, ela lançou o lyric video de “Uma dica”, com desenhos, roteiro, gravação e edição de Joana Ziller. O video é dedicado à “todas as famílias que não possuem a opção de parar durante a quarentena da Covid-19”.

Da região noroeste de BH vem Laurinha Sette. Com influências de jazz e funk, Laura tem uma produção diferenciada, como fica claro na música que carrega o adjetivo no nome – feita a partir de um sample de “20 anos blues” de Elis Regina. Laurinha e Paige já haviam trabalhado juntas em “Deu mole”, lançada em 2015. Em dezembro ela lançou o EP “Corpo, Alma e Consequência”, que ela diz ser o fechamento de um ciclo. 

Maria Izabel, ou Iza Sabino, participa da cena do rap desde 2014. Transitando entre diversos sub-gêneros, Iza fala sobre os seus corres e empoderamento. Em parceria com o FBC, lançou o álbum Best Duo (2020) via mensagens de WhatsApp. Para acessar o disco era só pedir em alguma publicação, passar o número de telefone e alguém mandava o CD completo. Agora em Abril o álbum foi lançado nas plataformas digitais.

Em “Vale Grana”, com participação de Djonga, Iza se aventurou na hora de usar sua voz. Em vários momentos ela usa sua voz de forma diferente do usual, em um tom mais alto e debochado. FBC comentou em seu Twitter que precisou “ajoelhar e pedir por favor que isso iria ajudar meus filhos” para que ela cantasse assim. 

Mayí (Maýra Mota) estuda música e percussão desde nova, além de dançar há mais ou menos 10 anos. Já participou de apresentações de percussão na capital mineira, além de ter tocado na banda Djambê de rock macumba, que mescla o rock com músicas de tradição afro-brasileira. Na dança, faz performance em eventos culturais e, nos shows do Fenda, marca sua presença com seus movimentos e postura. Mayi dança muito – dá pra ver nos vídeos e stories que publica, além de ter uma voz marcante. 

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Thais, conhecida nas pistas como DJ Kingdom, tem um set marcado pela celebração do poder feminino, além de misturar ritmos de hip hop, dancehall, R&B e afro.  Ela talvez seja quem faz parte do movimento de BH há mais tempo. Kingdom é uma das precursoras do Baile Room junto com Silence Squad e Vhoor. O projeto é inspirado no Boiler Room e tem crescido bastante. Thais também participa do Muvuka, que se propõe a fazer um som de resgate no qual a  ideia é “mixar as boas energias e te fazer dançar do início ao fim”. Além disso, também é idealizadora do bronkabh, focado no público feminino e LGBT. 

Para quem conhece o trabalho solo das integrantes, no show do Fenda é fácil ver que elas agregam seus estilos individuais ao grupo. Em alguns momentos, contudo, notamos certa insegurança, ou brechas com alguma falta de sintonia – nada incomum para um grupo formado há menos de seis meses. Ainda assim, como na montagem de um quebra-cabeças, as peças se encaixam e formam uma imagem maior, completa.

Querendo recuperar o que tiraram delas no início da estrada

 

Longe de serem as primeiras a reivindicar mais espaço para as mulheres no rap, o que o Fenda quer é expandi-lo – ainda tão pequeno e sempre relegado as minas. Já há quase 30 anos que Dina Di, um dos maiores nomes do rap – ainda que nem sempre lembrado – iniciava sua trajetória. 

Não é preciso esconder que às vezes elas tivessem de seguir as regras dos homens que estavam há mais tempo no jogo. As mulheres precisam falar ou não falar sobre certos temas, agir dessa ou daquela maneira e ter determinado estilo para serem sequer consideradas dentro do movimento. Foi só recentemente que essas ideias começaram a ser modificadas. 

Dina Di foi, inclusive, uma das integrantes e principal letrista do Visão de Rua, com Lauren, Tum e DJ O.G. O grupo foi criado em 1994, na cidade de Campinas (SP) e conquistou o Prêmio Hutúz de Melhor Grupo Feminino em 2001. Em “Corpo em Evidência”, elas discutem o estigma lançado sobre os corpos das mulheres, das capas de revista à pornografia.

Usar Helena, Rubstai, Boticário, Lacome 
Eu seria bem mais feliz, sem flacidez e um abdome firme, sem cicatriz
Arrumar os dentes, sorrir sem regime

Corpo em evidência – Visão de Rua

A narrativa colocada nas letras de rap, em geral, falam sobre a vivência e a realidade de quem as canta. E costumam refletir uma interpretação que é social e temporalmente localizada. Nos anos 90, as discussões sobre corpo, roupa, representatividade e autonomia feminina eram diferentes das experienciadas hoje. No caso do Fenda, o primeiro material original lançado como grupo foi o single “Não se Ofenda”, com um clipe em plano-sequência e a letra fazendo referência à “Maria da Vila Matilde”.

Os dois trechos representam uma mudança maior na abordagem das problematizações feministas: deixa-se de falar tanto sobre a visão estereotipada da mídia e passam a usar a celebração de outras possibilidades como oposição. A celebração da própria representatividade é algo cada vez mais recorrente – e importante nas manifestações culturais, sobretudo quando protagonizada por mulheres negras.

Autoestima bitch, no nível mais alto
As preta tão solta, tomando de assalto
Inteligência, boas influências
As cota tão armada com muita vivência

Não se ofenda – Fenda

O conteúdo das letras do Visão de Rua e a produção de Dina Di são analisados por Patrícia Saemi Matsunaga, na pesquisa “As representações sociais da mulher no movimento hip hop”, de 2008. Saemi analisa cerca de 32 composições de homens e mulheres rappers de São Paulo, observando a narrativa das letras produzidas pelas mulheres sobre mulheres e as narrativas dos homens sobre as mulheres. 

As letras de rap, tanto femininas quanto masculinas, sugerem diferentes sentidos. A mulher presente no discurso do rap ocupa os papéis sociais de mãe e namorada, é valorizada por ser negra e batalhadora, é condenada por ser “objeto” e “vulgar”. Estas características sugerem uma representação da mulher vinculada a uma ordem moral e social conservadora, que ainda opera na distinção entre feminino e masculino, atribuindo, para o primeiro, o espaço privado, e, para o segundo, o espaço público.

(MATSUNAGA, Priscila Saemi. As representações sociais da mulher no movimento hip hop. Psicol. Soc., Porto Alegre, v.20, n.1, p.108-116, abr. 2008 . Disponível aqui.)

Isso significa dizer que, mesmo nas letras de rap, o espaço “dos homens” sempre foi o espaço da rua, da liberdade, enquanto as mulheres eram tratadas no espaço privado, da casa, do lar. Essa narrativa reflete o modo como a mulher é vista dentro do movimento – às vezes até por ela mesma. 

Que a cena do hip hop é majoritariamente masculina não é segredo pra ninguém. Ainda que possamos notar mudanças nas perspectivas adotadas hoje, é irreal dizer que não exista uma visão machista sobre a produção das mulheres. Um dos grandes problemas está na questão de que, além da diferença em números, existe também uma luta contra a invisibilização do trabalho das artistas.

Essa visão de “o seu lugar não é aqui” permanece enraizada não só nos homens e na formação da masculinidade, mas na sociedade. O espaço público para as mulheres enquanto artistas e produtoras de conteúdo de qualidade – sobretudo quando falamos de mulheres negras – ainda está em disputa. 

Apesar de ter sido feito como um projeto em colaboração com FBC, Iza tem sido constantemente ignorada pelos fãs de rap e portais de imprensa no que se refere ao disco Best Duo. Algumas matérias e reviews sequer citam seu nome, youtubers fazem react do clipe sem mencionar sua participação.  

Créditos – Gabriela Otati/Estúdio Sixtema

E é por isso que a união de cinco artistas, além de agregar qualidade e conteúdo, também garante mais força a cada voz na busca para mudar esse cenário. Em “Girlgang”, o segundo single do grupo, são intercalados registros de mais de 30 mulheres de diferentes profissões e inseridas em diferentes contextos sociais, reforçando, assim, a diversidade do universo feminino. 

Iza Sabino publicou em seu twitter um vídeo da festa de lançamento do clipe em que, ao ser perguntado sobre o que achou, Djonga diz: “ou, Fenda é o grupo mais doido que tem de rap nacional, graças a Deus acabou o DV e agora tem Fenda” – e Hot concorda. O Culturadoria, portal de notícias culturais de BH e região, citou o Fenda como uma das apostas do rap nacional para 2020. 

Com apenas duas músicas autorais lançadas até agora, o grupo garante um bom show com as músicas solo. Alguns covers também estão na lista, com destaque para a versão de Man Down. Ainda que seja recém-formado, o grupo chama atenção, já que cada uma das integrantes tem sua própria carga de experiência e vivência. Com letras focadas no empoderamento feminino, o Fenda deixa claro a que veio. 

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