Colei no show de aniversário de um ano do disco “Regina” e conversei com o niLL para sacar como a SFG mostra que é possível fazer muito com pouco

Textos e fotos por João Victor Medeiros
(entrevista realizada e publicada no IGTV do Raplogia em agosto/2018)

Parte da SoundFood Gang. Em pé, da esquerda para direita: DJ Buck, Chinv, niLL e Yung Buda; Agachados: Chabazz e Mano Will

A manchete que abre essa reportagem é um trecho da música Loopers do niLL, que faz parte do seu primeiro disco lançado no ano passado, intitulado Regina. O trabalho leva esse nome pois homenageia a falecida mãe do rapper e o conceito da vida pessoal, problemas e aventuras de um jovem no mundo moderno segue por todo o disco, desde a capa que foi desenhada pela sobrinha até a escolha dos vídeos em 8-bit que acompanham as faixas no YouTube, passando por inserções de áudios reais de Whatsapp como introdução e outro das músicas.

O cuidado e dedicação com a unidade do conceito é surpreendente, mas se torna mais ainda aos descobrirmos como niLL produziu o próprio disco.

Assinando como O Adotado e com auxílio dos amigos a própria gravadora independente da qual é fundador e sócio, o rapper passeou por samples de jazz fusion ao indie para compôr os beats de Regina, aclamado pelo público e pela crítica — figurando nos primeiros lugares na lista do Genius de melhores do ano de 2017 e também na premiação da Rolling Stones, onde divide lugar com artistas como Djonga, Baco Exu do Blues e Don L, que contaram com o recurso de grandes estúdios e maior verba de investimento para seus projetos.

Junto a Mano Will, DJ Buck, Yung Buda, Mendes, Moccado Beats, Will Diamond e Adalberto — o empresário e chefe da tropa— niLL forma o coletivo SoundFood Gang, nome que surgiu da união das duas paixões de todo mundo do grupo: comida e música. Os meninos são de Jundiaí e, após a boa projeção de projetos como o disco d’O Adotado e o EP Músicas Pra Drift eles conseguiram passar das gravações em casa para um QG, com mais conforto e um upgrade dos equipamentos. No entanto, o fato é que o que os alavancou foi a contradição do profissionalismo das produções caseiras.

Fazendo o que há anos quase morreu por aqui
Espero que tenha engordado
Guardado algum dinheiro no telhado
Pra eu não ter que te encontrar lá na fila do Bom Prato
São negros escondidos em quartos escuros
Fazendo clássicos
Como potes de maionese cheios de parafuso
Planejando tudo

– niLL em Loopers

Para tornar Regina tão interessante, niLL contou suas histórias reais, aproximou o ouvinte de sua família, amigos e padarias — a comida é tema recorrente no disco — mas também soube como trabalhar com a limitação dos equipamentos trazendo algo que muitas vezes falta a quem já nadou por cima do oceano do underground: originalidade. Assumindo o processo lo-fi e associando isso a estética do vaporwave, o rapper trouxe uma sonoridade nova pra cena, que capturou não somente ouvintes de rap, mas fãs de outros gêneros que gravitaram para a audição de Regina.

niLL no sofá da JODO

O MC de Jundiaí não é recente na cena: antes de formar a SoundFood, foi metade da dupla do Sem Modos, até a difusão em 2015. No ano seguinte, ele já lançou o EP Negraxa e para o Regina agregou participação de novos nomes importantes da cena como Victor Xamã e de lendas do rap brasileiro como De Leve (Quinto Andar) e Ogi (Contrafluxo). Embebedado de influências que vão de Naruto a Tyler, The Creator e David Bowie, Nill dá uma verdadeira aula de conceito e compensa as rimas e flow mais desleixados com uma imersão incrível para uma obra produzida dentro de seu quarto com um PC antigo.

Aqui, vamos pular qualquer espécie de review de Regina. Prestes a soltar um trampo novo, eu colei em São Paulo pra conversar com o Nill e acompanhar o aniversário de um ano do disco.

O DESENROLO

Quem fez o primeiro contato comigo foi o Adalberto, também conhecido como Adalblessed. Mandei um e-mail para a SoundFood com a proposta e por lá ele mandou o zap pedindo para que eu explicasse a proposta pra ele. Mandei um áudio contando que eu era de Juiz de Fora, queria uma entrevista com o niLL pro Raplogia e, assim que ele ouviu de onde eu era, respondeu: “Você é da minha quebrada!” — revelando ser meu conterrâneo e de um bairro próximo nos morros da zona leste. A partir daí, foi como se eu o conhecesse desde criancinha. Devidamente credenciado e já preparando a viagem para São Paulo.

Adalberto bem chill após o o show

CHEGANDO EM SAMPA

Saí de Juiz de Fora de ônibus na sexta-feira a noite e cheguei em São Paulo no sábado pela manhã. Quem me recebeu foi meu amigo Diego Lélis, mas que na noite do show é o DJ Rasul. Ele é do Tucuruvi, Zona Norte, e foi um dos artistas no line da noite, que contou com DJ Buck (SoundFood Gang) e niLL, obviamente.

DJ Rasul riscando no aniversário de Regina. Levei de presente pra ele essa camisa da foto, da marca Tulleceria.

Apesar de estar tudo esquematizado para o show, eu ainda tinha uma entrevista para fazer e uns amigos a visitar nos dois breves dias que passei na cidade. A agenda apertada do niLL e que mudou devido a algumas pendências a resolver para o show mais tarde fizeram com que ele tivesse o cronograma alterado e o Adalberto me disse que ele chegaria em São Paulo não mais 16h, mas 18h. Conseguiu a casa de um amigo como locação da entrevista e que, por coincidência, era justamente os amigos que eu tinha que visitar. Falo do QG da JODO, uma produtora audiovisual independente que também faz o mesmo que O Adotado e a rapaziada da SFG: o possível e o impossível com os poucos recursos que dispõem. A JODO fica na casa do Joaquim Macruz que junto da Isa Hansen, César Lima, Rogério Soares e do Lucas Negrelli, formam o coletivo, que ainda tem a Gatinha Vilã como mascote.

Quando cheguei lá, a Isa já tinha saído pra trabalhar e ia pro show depois, o Joaquim estava editando uma foto, a gatinha brincando e o Lucas fumando e ouvindo o novo trabalho do niLL, que ainda não tinha sido lançado. Conversando com ele e atualizando nossas vidas, ele disse “semana que vem estou indo pra Manaus”. Eu feliz, respondi se ele tava indo passar férias ou o quê. “Não, estou indo morar. Fui pra lá aquela vez de ID Jovem e gostei da qualidade de vida, agora tô indo, tentar arrumar um emprego no sistema — shopping ou qualquer coisa assim — para me estabelecer até conseguir trabalhar com vídeo lá”. O Lucas tem cerca de 26 e desde que o conheço, sempre foi bem diferente dos outros seres humanos, mas essa eu confesso que foi um choque, até pra mim.

Lucas bem chillin no sofá da JODO feat Gatinha Vilã

TROMBEI O PROTAGONISTA DO ANIME

Mal deu tempo de processar a informação e a campainha tocou. Pouco depois, niLL entrou na casa do Joaquim aka QG da Jodo com uma camisa da Sailor Moon, confirmando que o que coloca nas letras é realmente a vida dele. Finalmente nos conhecemos, porque antes só tínhamos nos falado digitalmente. Inclusive, um dos temas muito presentes no disco Regina é o jovem na modernidade, as relações criadas através da tecnologia e suas nuances – como vocês bem já sabem. Bateu certo na pista: um dos hits do disco é a música “Jovens Telas Trincadas”.

Jovens telas trincadas como suas relações, é<br> Um milhão de planos pra preencher seus corações<br> Jovens telas trincadas como suas relações, é<br> Um milhão de planos pra preencher seus corações, é
― ​niLL – Jovens Telas Trincadas

niLL tomou uma água, pedi o Lucas pra ajeitar o tripé e operar a câmera e começamos a entrevista, que foi realizada em um formato pensado para o IGTV. Na quase uma hora que conversamos, ele contou sobre o processo de amadurecimento de um ano pra cá, respondeu perguntas que os fãs mandaram nas redes sociais, além de dar uma pista sobre a tape “Good Smell Vol.1”, que saiu na semana seguinte, conta somente com participação de mulheres e uma vibe totalmente diferente do consagrado primeiro disco.

 

O FINAL BOSS

No fim das contas, só paramos de conversar pois já davam 20h e o show se aproximava. niLL fortaleceu o Uber pra mim e pra rapaziada da JODO (valeu!) e em 15 minutos estávamos no IND Bar. Lá, já fui logo recebido por Adalberto, que estava fazendo uma função meio de portaria e meio segurança. A Soundfood tá sempre matando dois coelhos numa cajadada só. Entrando na casa, um espaço de três andares: uma cobertura/laje, o térreo e o porão. Um ano depois do lançamento de Regina e com a proporção que o disco tomou, calculei que entre fãs e amigos, a casa não suportaria o público do aniversário de Regina.

Desci para o porão, onde seriam as apresentações e o Rasul já tava tocando. Conforme o público ia chegando, ele teve a sagacidade de fazer a transição entre um clima chill para as músicas que faziam o pessoal dançar e cantar. Logo depois, foi seguido por DJ Buck, que não deixou o nível cair. Quando fui reparar, a casa já estava abarrotada de gente, um verdadeiro “inferninho”: quente e propício a volúpia. Observação: atrás da mesa do DJ ainda tinham ótimas esfirras para quem tava trabalhando no evento. A Soundfood realmente faz jus ao nome.

De repente, o som parou e algo foi projetado na parede. A galera da Black Pipe preparou um documentário surpresa com todo mundo que fez parte da construção de Regina, o que levou niLL as lágrimas.

                           

Por sorte, eu estava próximo a mesa do DJ, onde o niLL fez o show. Não tinha quase nenhum espaço pra fotografar, nem se mover e o Lucas Brêda, meu amigo e também jornalista, é prova ocular.

Como deduzi no começo, a casa realmente era pequena para a proporção do show — mas foi a única com localização e valor acessível para o pessoal da Soundfood. No entanto, mais uma vez, a limitação financeira não foi limitação criativa. Quando entrou o sample da abertura de XBOX360 na primeira faixa do Regina, as dezenas de pessoas que o porão comportava cantaram cada faixa do disco até a despedida, com “Negro Drama parte 2”, que tem participação do Yung Buda.

Coletivos como a SoundFood Gang, JODO e tantos outros ao redor do Brasil mostram que as dificuldades são vias para a criatividade. Olho nessa galera em 2019.

Ouça o mais novo trabalho do niLL, a mixtape “Good Smell Vol. 1”

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