O gangsta rap teve sua ascensão no final dos anos 80. Los Angeles pegava fogo, e o gênero veio com uma grande válvula de escape da periferia da cidade e também sendo uma voz contra a violência policial e a desigualdade social. Mas o nascimento do gangsta rap aconteceu no meio daquela década, através das vozes de Schooly D e Ice-T.

Apesar de ser um dos subgêneros mais bem sucedidos da indústria do hip-hop, o gangsta rap também sempre foi extremamente criticado devido sua ligação com a violência. Presidentes norte-americanos como George H. Bush e Bill Clinton, criticavam o gênero devido a sua ligação com as gangues angelinas.

Mas o gangsta rap sempre foi além de retratar a violência de maneira vívida, ele também refletia mudanças na sociedade que não eram abordadas em nenhum outro lugar.

Quando surgiu o gangsta rap?

A música “6 ‘N the Mornin’” do disco Rhyme Pays de Ice-T é considerada a primeira música do gangsta rap por um rapper da costa oeste. O rapper conta a história de uma fuga da polícia durante um dia inteiro, e a relação com sua namorada. Apesar do tom fictício da música, a inspiração do rapper vem de grandes contos feitos por grandes gangsters, como Iceberg Slim. Segundo Ice-T, sua inspiração para compor a música, veio de “P.S.K.”, de Schoolly D, que direto da Filadélfia, lançou o que seria o primeiro som de gangsta rap da história.

Escolher os melhores discos de gangsta rap é difícil, então, tenha essa lista como uma espécie de discos que você deve ouvir para entender mais sobre esse gênero que ganhou o mundo e vive até hoje.

Eazy E – Eazy Duz It (1988)

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Eric Wright é extremamente importante para o gangsta rap. Eazy E foi um dos artistas que tornaram o gênero influente nos Estados Unidos e esse disco foi um dos grandes catalisadores para esse fato.

Com 24 anos e seu disco de estreia Eazy-Duz-It, Eazy E já era um grande ícone do gangsta rap por músicas como “Ruthless Villain” e “Boyz in the Hood”. Na época, o N.W.A. havia recém começado, mas já marcava época, tendo Eazy com um dos grandes mentores por trás de tudo.

Eazy-Duz-It tem dois midas do gangsta rap nas produções. Mesmo com promoção na rádio e televisão devido a temática, o disco vendeu mais de dois milhões de cópias. O projeto foi o único disco que Eazy-E lançou em vida – os outros dois projetos foram EPs.

O rapper foi um dos grandes divulgadores do gangsta rap devido sua atitude e letras. Esse disco merece ser estudado letra por letra.

NWA – Straight Outta Compton (1988)

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O que falar sobre esse grande disco de gangsta rap que marcou época? O N.W.A. havia lançado em 1987 uma compilação chamada N.W.A. and the Posse, e em 1988, seria lançado o seu primeiro disco, Straight Outta Compton, que marcaria não apenas o gênero, mas a música em geral.

Feito entre os anos de 1987 e 1988, o disco foi produzido por Dr. Dre e DJ Yella. O primeiro, definiria seu nome como um dos produtores mais requisitados do gangsta rap e um dos melhores do cenário do hip-hop.

Straight Outta Compton conta com músicas icônicas como: “Straight Outta Compton”, que era uma espécie de cartão de visitas do grupo; “Fuck the Police”, um protesto extremamente ácido contra o Departamento Policial de Los Angeles; “Gangsta Gangsta” mostrava a perigosa vida nas ruas de Compton; e “Express Yourself” que fala da liberdade de expressão dos artistas do gangsta rap.

Nenhum disco de rap teve tamanho significado para a cultura na época. O N.W.A ia além do subgênero musical e atuava também como um aliado de movimentos sociais da época, dando uma cara mais “ativista” ao gangsta rap, que sofreu enormes críticas – muitas vezes por apenas “incomodar” com suas letras.

Em 2015, um filme com o mesmo nome do disco foi lançado para contar a história do N.W.A. A película que mostra o começo do gangsta rap foi dirigida por F. Gary Gary e faturou mais de duzentos milhões nos cinemas.

Ice Cube – Amerikkka’s Most Wanted (1990)

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Em 1990, Ice Cube não fazia mais parte do N.W.A. e buscava lançar sua carreira solo no gangsta rap. O rapper era o principal letrista do grupo, e sua saída não foi nada amigável. Com isso, ele fez algumas alianças que fizeram muito bem para o seu primeiro disco, Amekikkka’s Most Wanted.

Para a produção desse projeto, Ice Cube saiu um pouco do âmbito de produtores do gangsta rap de Los Angeles e foi para Nova York. Lá o rapper chamou ninguém menos do que o grupo The Bomb Squad para produzir seu primeiro disco solo, que era um grupo de produtores montado por membros do Public Enemy.

The Bomb Squad nunca havia cuidado de produções para um artista de gangsta rap, mas as boas conexões de Ice Cube fizeram com que eles assinassem quase todas as dezesseis músicas do seu disco.

O estilo de produção diferenciado de artistas da época e as letras de Cube fizeram do projeto um clássico do gangsta rap. Sua raiva foi transformada em grandes clássicos como “The Nigga Ya Love to Hate” e “Once Upon A Time In The Projects”.

O disco era bastante politizado, com o rapper citando inúmeras vezes a questão da brutalidade policial, racismo e situação social da comunidade negra na América.

Ice T – Original Gangster (1991)

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O que seria do gangsta rap sem Ice-T? Apesar de ser de Nova Jersey, o rapper fez carreira em Los Angeles, e foi um dos primeiros rappers a colocá-lo na mídia, quando ainda nem era chamado por esse nome.

Ice-T se meteu com gangues em sua juventude, e tinha toda a vivência das ruas para passar em suas letras. O disco O.G. Original Gangster marca bem o significado do rapper para o gênero.

Se em Rhyme Pays ele cria, em Power ele aperfeiçoa… e em O.G. Original Gangster ele define como sua carreira é importante para o gangsta rap. Ice-T foi um dos pioneiros, seus discos merecem ser ouvidos!

Ice Cube – Death Certificate (1991)

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Entre os anos de 1988 e 1992, Ice Cube foi um dos principais nome do rap em geral, não só do gangsta rap. Ele firmou seu nome através do seu conteúdo lírico, sempre ousado e certeiro, como também pelo conjunto de suas obras solo. Death Certificate é o segundo disco do rapper, e é o seu segundo clássico.

O que mudou em Ice Cube entre 1990 e 1991? O rapper de AmeriKKKa’s Most Wanted se converteu ao Islã nesse espaço de ano, e muito da sua raiva foi transformada em letras ainda mais espertas. Death Certificate é um clássico do gangsta rap e considerado por muitos o melhor disco de Ice Cube.

Em minha opinião, Ice Cube é a maior cara do gangsta rap em toda a história. Sua mentalidade foi exposta em letras que vão desde o N.W.A., sendo que na época, ele escrevia letras até para colegas de grupos. Sua relação não amistosa com os membros do grupo, inclusive, foi explorada no disco Death Certificate. A disstrack “No Vaseline” é até hoje uma das mais cruéis da história.

Apesar de sua temática ser basicamente o que rolava no gênero em 1991, o disco é separado em duas partes: O “Lado da Morte”, onde o rapper reflete o que somos hoje; e o “Lado da Vida” que fala sobre onde temos que ir.

Mesmo com o Islã tendo grande parte nas letras do Cube na época, o rapper estava bastante ousado e raivoso. “Black Korea” é um exemplo. Em 1991, a jovem Latasha Harlins, de 15 anos, foi morta a tiros por um dono de uma loja após ambos brigarem por um suco de laranja. O dono era coreano, como muitos donos de lojas de conveniência nos Estados Unidos. Na música citada, que tem 47 segundos, o rapper fala sobre ter que “ir armado” comprar uma cerveja e ameaça todos os donos de loja que querem tornar o gueto em uma “Coréia”.

Por “Black Korea” preceder os protestos de 1992 em Los Angeles, e muitos coreanos serem alvos de ataques, Ice Cube foi acusado de propagar o racismo contra asiáticos.

Cheio de controvérsias, porém, um grande disco. Ice Cube é cirúrgico em suas letras e trouxe uma obra de arte.

Geto Boys – We Can’t Be Stopped (1991)

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O gangsta rap pode ter começado em Los Angeles, mas tomou os EUA de assalto após a sua popularização, e Houston foi um dos lugares no qual ele desembarcou com força, principalmente graças ao grande grupo Geto Boys.

Nós já escrevemos aqui no site da importância do grupo na arte de contar histórias através de suas músicas, e agora colocamos We Can’t Be Stopped como um dos grandes projetos do gênero.

Os Geto Boys sempre tiveram como características o fato das suas histórias serem dignas de roteiro de cinema. O realismo é incrível e os relatos do cotidiano violento nos guetos.

Scarface, mesmo sendo de Houston, sempre foi um dos grandes artistas do gangsta rap, e ouvir seus álbuns é uma ótima forma de entender mais sobre o gênero.

Scarface – Mr. Scarface Is Back (1991)

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Dessa vez, o primeiro disco solo de Scarface aparece na lista. Outro projeto do rapper de Houston, que é um grande ícone do gangsta rap.

Tudo o que falei sobre We Can’t Be Stopped, também vale para esse álbum, porém, em minha opinião, Mr. Scarface Is Back é mais coeso e passa uma sensação muito intensa ao ouvirmos. As violentas letras de Facemob demonstram sua qualidade de criar histórias, sua mente é extremamente cinematográfica.

Ele aborda vários temas do gangsta rap, e aqui, se coloca como um dos melhores artistas do gênero.

Dr. Dre – The Chronic (1992)

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Era dado início ao g-funk, e Dr. Dre com The Chronic seria o pioneiro nesse novo ritmo que tratava-se do gangsta rap com samples e uma pegada bastante inspirada pelo funk – principalmente o feito pelo grupo Parliament-Funkadelic.

Assim como Ice Cube, Dr. Dre também deixou o N.W.A. e a Ruthless Records devido disputas financeiras. Sua saída também não foi amigável, e acabou de vez com um dos maiores grupos do gangsta rap.

Ao sair da Ruthless Records, Dre fundou junto a Suge Knight e The D.O.C. a gravadora Death Row, uma das mais conhecidas da história da indústria do hip-hop.

The Chronic foi um gamechanger dentro do gangsta rap porque começou aos poucos a incorporar o funk em seus samples. Não que nunca tenha existido, porém, através das técnicas de Dr. Dre, ele sampleava menos músicas e as aproveitava mais nas suas produções. A lógica é simples: enquanto outros produtores cortavam inúmeras músicas, Dr. Dre usava apenas uma mas sampleava diversos elementos dela.

Dre não criou o g-funk e The Chronic não foi o primeiro disco a ter esse ritmo. Apesar de ser considerado o “pai do G-funk”, rappers de Oakland já faziam um estilo de som parecido no final dos anos oitenta. O gangsta rap foi usado como um grande impulsionador do g-funk, e depois do álbum de Dr. Dre, ele se popularizou de maneira quase instantânea.

The Chronic também foi importante por nos apresentar Snoop Dogg, recém descoberto por Dr. Dre, e que um ano depois lançaria um grande clássico sobre a tutela do seu mentor.

Compton’s Most Wanted – Music to Driveby (1992)

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MC Eith é um dos grandes artistas do gangsta rap desde o gênero se popularizou, mas seu nome foi feito através do grupo Compton’s Most Wanted, ato que durou até 2007.

O disco Music to Driveby é um projeto extremamente importante para o gangsta rap. Seus temas são extremamente semelhantes ao disco Straight Outta Compton, do N.W.A., que estourou anos atrás.

Hood Took Me Under” é a faixa mais famosa do projeto, e se tornou um grande clássico do gangsta rap.

Snoop Doggy Dogg – Doggystyle (1993)

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Snoop Dogg foi descoberto por Dr. Dre após sua saída do N.W.A. e eles começaram sua parceria de sucesso no gangsta rap em 1992, com a música “Deep Cover“, parte da soundtrack do filme de mesmo nome. A música se tornou icônica.

No mesmo ano, Snoop participou em várias faixas do clássico The Chronic de Dr. Dre, um disco enorme para o gangsta rap e que difundiu o g-funk no mainstream do hip-hop. Um ano depois, o seu projeto solo foi lançado, e mais um acerto da Death Row: Doggystyle é outro clássico.

O vocal de Snoop que trazia uma tranquilidade e sagacidade às músicas foi um dos grandes destaques da sua aparição. Quando seu disco saiu, os críticos acabaram louvando também suas letras, de realismo inconfundível retratando a vida de um jovem em um gueto californiano. O projeto é outro que bebe extremamente do G-funk.

Tha Dogg Pound – Dogg Food (1995)

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O grupo Tha Dogg Pound sempre andaram com o Snoop Dogg em toda a sua carreira. Quando entraram na Death Row, ambos tinham carreira solo, mas após Dr. Dre ouvir sua química, a coisa mudou.

No disco Doggystyle, o duo participou de várias faixas e fez o mesmo que Snoop Dogg havia feito em The Chronic: abrir caminho para um disco próprio. O projeto aconteceu em 1995, intitulado Dogg Food, e botou fogo no cenário do gangsta rap.

A faixa “New York, New York” fez com que a treta entre Costa Leste e Oeste ficasse mais intensa. A produção do projeto ficou porta conta de Daz Dillinger, supervisionado por Dr. Dre. O projeto é bastante único.

2Pac – All Eyez On Me (1996)

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A mudança em Tupac devido sua ida para a Death Row é extremamente notada no disco All Eyez On Me, um dos grandes projetos  do rapper.

Enquanto Me Against the World e os projetos mais antigos do rapper tinham uma pegada mais consciente, All Eyez On Me trouxe uma versão de maior “celebração” por parte do artista, que havia passado um período na cadeia antes de sair diretamente para Death Row.

A presença, ainda mais forte na época, de Tupac na Costa Oeste, reforçou a persona de gangster do rapper, que explorou diversos temas nas letras, passando muito pelos assuntos frequentemente usados no gangsta rap.

Dr. Dre, na época próximo a deixar a Death Row, produziu apenas duas músicas no projeto. Daz Dillinger e Johnny J foram os grandes nomes nesse quesito daquele incrível álbum duplo.

Dr. Dre – 2001 (1999)

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Dr. Dre levou sete anos para lançar o seu segundo disco solo, 2001, mas toda a espera valeu a pena, afinal, o projeto é um grande clássico do gangsta rap.

O aguardo pelo disco trouxe resultado instantâneo quando ele saiu: mais de 500 mil cópias vendidas em uma semana. 2001 é um dos discos mais elogiados de Dr. Dre e teve um alcance no mainstream muito maior do que o seu antecessor.

Além da presença de artistas que participaram do clássico do gangsta rap, The Chronic, Dre contou com novos rappers que apadrinhou, como Hittman, Xzibit e Eminem.

Still D.R.E.“, “Xxplosive“, “The Next Episode“, e “Forgot About Dre” ganharam o mundo e tornaram o disco um sucesso.

The Game – The Documentary (2005)

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O gangsta rap teve vários discos interessantes entre 1999 e 2005, mas pulamos para outro século para falar do álbum de estreia do rapper The Game, quando ele ainda fazia parte da G-Unit.

O rapper foi apadrinhado por 50 Cent, que trouxe rappers e produtores para colaborarem no seu primeiro projeto, um clássico moderno do gangsta rap. Dr. Dre é produtor executivo de The Documentary, afinal, Game também assinou com a sua gravadora, a Aftermath. O time é grande e conta com: Kanye West, Dr. Dre, Timbaland, Just Blaze, Hi-Tek, Eminem, Buckwild, entre outros.

Game foi considerado a volta do bom e velho gangsta rap, que havia sumido do mainstream no começo dos anos 2000. O disco é um clássico que o rapper nunca conseguiu igualar.

Kendrick Lamar – good kid, M.A.A.D. City (2012)

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Podemos considerar o disco que fez Kendrick Lamar explodir um projeto de gangsta rap? Definitivamente. O cotidiano contado por KDot verso a verso, retrata bem o que era dito no gênero nos anos noventa, porém, Kendrick tem uma pegada muito mais consciente ao tratar os assuntos. É como se ao invés dele ser quem atira a arma, ele ser a grande vítima de toda a violência das gangues.

O projeto tem bastante influência de alguns trabalhos de g-funk feitos por Dr. Dre, e trabalhos de gangsta rap, como os de MC Eith.

Kendrick mescla produtores mais novos, com mais velhos, e cria uma musicalidade bastante única. É até agora um dos melhores discos da década de 2010, e merece um espaço muito grande no hall de melhores discos de gangsta rap.


E assim damos fim a nossa lista de 15 Discos de Gangsta Rap que Você deve Ouvir. Sentiu falta de algum álbum na lista? Deixe nos comentários!

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Jhonatan Rodrigues

Jhonatan Rodrigues

Fundador do Raplogia em 2011, Joe é fã incondicional de Nas, futebol, cinema e séries de TV. Se apaixonou pelo hip-hop graças aos filmes sobre a cultura e escreve há 7 anos sobre o assunto na internet. Já passou pelo Rapevolusom e foi um dos moderadores do Genius Brasil.

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