Quem nunca ouviu falar das Cash Money Records? Fundada pelos irmãos Bryan “Birdman” Williams e Ronald “Slim” Williams em 1991, a gravadora de Nova Orleans é um dos mais importantes selos hip-hop. Assim como a No Limitque já contamos a história aqui -, ela marcou história com sucessos no final da década de noventa e atingiu seu ápice nos últimos dez anos.

Viajaremos pela história de quase trinta anos da gravadora que colocou no mapa nomes como Lil’ Wayne, Nicki Minaj e Drake.

A fundação

Eu queria tirar a gente dos conjuntos habitacionais e colocar em um modo positivo de vida. Queria ajudar os outros a sair da pobreza,” disse Birdman para o site HitQuarters sobre seu principal objetivo ao fundar a Cash Money Records em 1991 com seu irmão, Ronald.

Os irmãos cresceram nos Conjuntos Habitacionais de Magnólia, em Nova Orleans, lar de outros rappers como Juvenile, Soulja Slim e Jay Electronica. Baby, como era conhecido Bryan, foi preso aos 18 anos de idade por posse de drogas e passou dezoito meses na cadeia.

Ao sair da cadeia, o bounce era um gênero que tomava conta dos clubes de Nova Orleans. Atentos nessa nova oportunidade, em 1991 os irmãos fundaram a Cash Money Records e começaram a assinar com artistas locais, sendo o primeiro o rapper Kilo-G, que em 1992 lançou o primeiro projeto do selo: o álbum de horrorcore “The Sleepwalker”.

Mannie Fresh chegou na Cash Money para se tornar o produtor principal da gravadora. O sucesso local impulsionou o selo a lançar mais projetos e assinar mais artistas de Nova Orleans, entre eles Lil’ Slim, Pimp Daddy e o grupo U.N.L.V.. Até Birdman se aventurou nas rimas e lançou seu primeiro projeto em 1993, intitulado I Need a Bag of Dope.

Em 1994, um acontecimento marcaria a história futura da Cash Money. Na época ninguém imaginava que o garoto de 11 anos com a alcunha de Shrimp Daddy viraria a galinha dos ovos de ouro da gravadora. Lil’ Slim descobriu Lil’ Wayne (na época chamado de Shrimp Daddy ou Baby D) em uma festa, o apresentou para Baby, que o assinou junto a outra jovem estrela do selo, Lil’ Doogie (conhecido depois como B.G.). Eles formaram uma dupla chamada The B.G.’z e levariam a empresa a outro patamar anos depois.

Quase toda a primeira geração da Cash Money a abandonou por disputas financeiras ou pior, foram assassinados nas ruas de Nova Orleans. A violência ainda cercava o cenário da cidade e a esperança do selo viria das suas jovens estrelas e novos garotos que seriam assinados em 1997, Turk e Juvenile. Com eles no elenco, foi formado o grupo Hot Boys, que trouxe os primeiros sucessos da gravadora.

O sucesso nacional e o acordo milionário

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Com o sucesso de B.G. com discos solo em 1996-97, o primeiro projeto do grupo Hot Boys teve uma tremenda repercussão. Vendendo 400 mil cópias, majoritariamente em Nova Orleans, o álbum Get It How U Live!! foi quem elevou a Cash Money para outro patamar.

Pouco tempo depois do lançamento do disco, em 1998, a gravadora fez um acordo de distribuição milionário com a Universal Records, em valores que giraram em torno dos 30 milhões de dólares, com os fundadores mantendo grande controle sobre os royalties (cerca de 85%) e sobre a própria empresa, o que foi determinante para que Birdman e Slim se tornassem grandes magnatas do rap em um futuro próximo.

Foi através desse acordo que a empresa lançou o seu primeiro grande clássico, 400 Degreez, do rapper Juvenile. Também membro dos Hot Boys, ele era o mais talentoso artista da gravadora na época. Seu terceiro projeto é o mais icônico da sua discografia, contendo os hits “Ha” e “Back That Azz Up”.

JAY-Z fez uma participação especial no disco, no remix de “Ha”. Foi a primeira vez que a gravadora colaborou com um rapper da Costa Leste. 400 Degreez vendeu cerca de quatro milhões de cópias até o fim de 1999.

Em 1998, além do disco de Juvenile, a gravadora lançou dois projetos do recém-criado Big Tymers, dupla composta por Birdman e Mannie Fresh. How You Luv That e How You Luv That Vol. 2 venderam bem sem nenhuma forma de divulgação na rádio ou com vídeos.

No ano de 1999, a gravadora teve um dos anos de mais sucesso até então, com todos os projetos emplacando nos charts e tendo bons números de venda. B.G. com Chopper City vendeu 140 mil cópias na primeira semana e cravou o hit “Bling Bling” na história do rap; os Hot Boys lançaram Guerrila Warfare, seu segundo e mais bem sucedido disco; Lil’ Wayne fez sua estreia solo com The Block is Hot, vendendo mais de 200 mil cópias na primeira semana; e Juvenile trouxe o sucessor de 400 Degreez, intitulado The G-Code, que não teve o mesmo sucesso.

Na virada do século, a Cash Money estava vivendo o ápice da sua trajetória. No começo do ano de 2000, eles entraram em turnê com outra banca que estava fazendo sucesso nacional nos Estados Unidos, a Ruff Ryders de DMX. A série de shows é muito lembrada pelos fãs até hoje.

Entre os anos de 2001 e 2003 a Cash Money vendeu mais de 7 milhões de discos, e recebeu uma nomeação ao Grammy por “Still Fly” dos Big Tymers. Nesse mesmo período, o Hot Boys se desmanchou, com B.G., Juvenile e Turk deixando a gravadora. Mesmo assim, gravações feitas entre 1998 e 2000 foram usadas para se tornar o terceiro disco do grupo Let ‘Em Burn.

Com Juvenile retornando naquele mesmo ano de 2003, ele lançou o projeto Juve the Great sob a tutela da Cash Money contando com o seu mais bem sucedido single, “Slow Motion“, gravado em conjunto com Soulja Slim, falecido pouco tempo depois de fazer sua participação. Foi o último disco dele no selo até a futura volta alguns anos atrás.

Lil Wayne: A galinha dos ovos de ouro

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Lil’ Wayne sempre esteve com a Cash Money. Como citado anteriormente no texto, ele assinou com o selo quando tinha apenas 11 anos após ter sido descoberto por Lil’ Slim. Dentro do Hot Boys, ele nunca foi o rapper mais talentoso, B.G. e Juvenile tinham mais respaldo no cenário do que ele nessa época.

Mas não ter os holofotes para si ajudou Wayne, afinal, ele silenciosamente evoluiu para se tornar um dos maiores rappers da década passada, assumindo o posto de astro da gravadora em 2004, quando seus antigos colegas deixaram a barca.

Tha Carter foi o disco que começou a colocar Lil’ Wayne como um dos mais importantes rappers daquele período. O projeto foi extremamente elogiado, contendo inúmeros hits como “Go DJ”, “Bring It Back” e “Earthquake”. Inteiramente produzido por Mannie Fresh, como grande maioria dos projetos da gravadora até então.

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Entre 2005 e 2007, apenas Lil’ Wayne e Birdman tiveram álbuns lançados pela Cash Money no gênero do rap – a gravadora lançou em 2006 um disco da cantora de soul e R&B Teena Marie.

Wayne se tornou definitivamente a galinha dos ovos de ouro de Birdman e da Cash Money, participando de inúmeros singles de sucesso de outros artistas e também lançando os seus próprios hits. Tudo culminou para seu auge, em 2008 com Tha Carter III.

A Cash Money era extremamente requisitada devido a Lil’ Wayne, seu disco era um dos mais aguardados. A estratégia da gravadora foi simples: colocar o rapper em todos os lugares possíveis, participando de diversos sons e lançando mixtapes. O hype foi tanto que Weezy teve diversos sons do TC3 vazados antes de verem a versão final, resultando em inúmeras tapes não-oficiais feitas por DJs.

Dessa forma Wayne criou uma tremenda expectativa para Tha Carter III, que se tornaria o maior disco da gravadora e também do rapper. O projeto vendeu, em uma semana, mais de um milhão de unidades, sendo o primeiro disco desde The Massacre, de 50 Cent, a alcançar a marca. Lil’ Wayne finalmente estava na boca do mundo.

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Tha Carter III ganhou o Grammy de Melhor Disco de Rap, “Lollipop” levou como Melhor Música de Rap e “A Milli” como Melhor Performance de Rap. Quem pensava que a Cash Money Records estava no ápice, se enganou, algumas contratações fariam a gravadora ter uma tremenda influência ainda nessa década.

Novos artistas, novos sucessos

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A Cash Money Records sempre foi uma geladeira de artistas. Na época em que Lil’ Wayne era quem mais rendia vendas para a gravadora, diversas contratações foram feitas e algumas delas chegaram a nem lançar projetos. Disputas financeiras entre esses artistas e o selo aconteciam em paralelo ao sucesso de sua maior estrela.

O estigma de ser um lugar não muito bom para desenvolver artistas mudou quando Wayne começou a Young Money como subsidiária da Cash Money. Dessa forma, ele trouxe para os dois selos nomes como Drake e Nicki Minaj.

O rapper canadense foi apresentado para Wayne pelo ninguém menos do que J. Prince, fundador da icônica Rap-A-Lot Records em Houston. Drake era ator no Canadá e rimava há alguns anos. Já fazendo parte da turnê do disco Tha Carter III, ele lançou a mixtape So Far Gone, com sucessos como “Best I Ever Had” e “Successful“. Pouco tempo depois, fechou contrato com a Cash Money/Young Money, onde lançou músicas do projeto como single e se solidificou. Em 2010, Thank Me Later foi lançado, e o álbum de Drake pela gravadora foi o ponto de partida para a construção de uma das maiores estrelas do rap atualmente.

Com Nicki, a situação foi semelhante, porém, ela era uma espécie de afiliada de Wayne desde 2007, assinando apenas oficialmente com as gravadoras em 2009. A participação dela em algumas músicas daquele ano, como o remix de “5 Star Bitch” do rapper Yo Gotti e da compilação da Young Money, fizeram com que ela ganhasse um grande respaldo do público. Em 2010, Pink Friday foi o seu primeiro disco de estúdio e o sucesso comercial foi gigantesco.

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Lil’ Wayne anunciava que seu próximo disco viria ser Tha Carter IV, o que não aconteceu. Em 2010, o rapper lançou dois discos que não chegaram perto do sucesso crítico de TC3, mas que tiveram grande repercussão comercial. Rebirth, um disco de rock, e I Am Not a Human Being venderam bastante. O segundo projeto, lançado quando o rapper estava na cadeia cumprindo sentença por porte de arma.

Apenas no fim daquele ano, Tha Carter IV foi confirmado e com a saída do rapper da cadeia, as coisas se realizaram. Em Agosto de 2011, o disco viu a luz do dia, em meio a mixtapes lançadas por Wayne. Sucesso novamente bem longe daquilo feito em 2008.

Ao decorrer da década, Drake assumiu o posto que era de Wayne e virou o grande artista da Cash Money. Após sua saída da cadeia, o rapper não realizou grandes projetos e começou a ter outros interesses. O canadense então lançou discos elogiadíssimos e que fizeram tremendo sucesso, como: “Take Care” (2011), “Nothing Was the Same” (2013), “If You’re Reading This It’s Too Late” (2015), “What a Time to Be Alive” com Future (2015), “Views” (2016), “More Life” (2017), “Scorpion (2018). Nicki também teve um posto importante, com “Pink Friday: Roman Reloaded” (2012), “The Pinkprint” (2014) e “Queen” (2018).

Lil’ Wayne teve um papel mais secundário, com mixtapes e alguns projetos. Mas protagonizou um importante momento da gravadora nos últimos anos.

Disputas judiciais

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Jamel Toppin/Forbes.

Processos judiciais de artistas da Cash Money contra o selo nunca foram novidade. Como citamos no começo do texto, nos anos noventa, alguns artistas deixaram a gravadora devido disputas financeiras com Birdman e Ronald.

Esse estigma perseguiu a gravadora por toda sua história. Juvenile, um dos seus primeiros sucessos, processou a gravadora por grana. Mannie Fresh, que cuidava de toda a parte de produção dos discos do selo, também abandonou o barco pelo mesmo motivo.

Produtores como Bangladesh, Play-N-Skillz, Deezle e Jim Jonsin, que participaram do Tha Carter III, também processaram o selo por falta de royalties de suas produções – eles trabalharam em hits como “A Milli“, “Got Money” e “Lollipop“, por exemplo.

Nem artistas veteranos deixaram de sofrer com esses problemas. Nomes como a banda Limp Bizkit, Mystikal e o lendário Busta Rhymes assinaram e deixaram o selo pouco tempo depois. Tyga, um importante nome assinado com a Young Money, controlada em grande porcentagem por Birdman e Cash Money, teve seu disco adiado inúmeras vezes.

Mesmo com todos esses imbróglios, nunca se imaginaria que Lil’ Wayne se voltaria contra seus mentores. Mas em 2015, o rapper entrou na justiça contra a gravadora cobrando cerca de 51 milhões de dólares, acusando a gravadora de violar termos do contrato e impedir o lançamento do disco Tha Carter V. Naquele ano, o rapper conseguiu lançar o projeto “Free Weezy Album” pela Young Money, um projeto que nada mais era do que uma forma de protesto.

A relação antes amistosa, se tornou bastante intensa e a inimizade se tornou pública, com Wayne gritando em seus shows acusações contra Birdman e o selo.

Tudo se resolveu apenas em 2018, com Lil’ Wayne se livrando da Cash Money e lançando Tha Carter V em Setembro. O projeto foi gravado anos atrás, o que é extremamente notável durante as 23 músicas.

O que esperar do futuro?

Essa é uma pergunta bastante nebulosa na Cash Money. Mesmo com grandes nomes em seu catálogo, como Drake e Minaj, o futuro da gravadora é um pouco sombrio. O canadense já demonstrou seu apoio ao rapper Lil’ Wayne nas disputas judiciais e demonstrou em determinados momentos a vontade de deixar o selo. O contrato dele foi até argumento para uma disstrack de Pusha T em 2011.

Poucos nomes além de Drake e Nicki Minaj prometem grandes números para Birdman e Slim. Em 2018, o emergente Blueface assinou com o selo. Mesmo assim, o que nós podemos esperar da Cash Money é incerto, afinal, a gravadora está muito longe daquela que trouxe alguns dos maiores nomes pro jogo.

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Jhonatan Rodrigues

Jhonatan Rodrigues

Fundador do Raplogia em 2011. Ex-escritor do Rapevolusom e ex-Genius Brasil. Me encontre no Twitter falando sobre rap: @JhonatanakaJoe

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